Diversão para todos e médico só para alguns

O parque no qual vai nascer a nova Feira Popular de Lisboa, em Carnide, está ainda longe de ser verde, como anunciado pelo município de Lisboa. Predominam a areia, a terra e o betão no local que servirá para acolher a tão esperada infraestrutura, prevista para ser inaugurada em 2018.

É também percetível que esta construção vai requalificar uma enorme parcela de terrenos pertencentes a Carnide, que estavam ao abandono, e que ficam na fronteira com a vila da Pontinha.

Num olhar mais atento, e provavelmente por defeito de profissão, dei por mim a pensar em que é que esta obra pode beneficiar a freguesia onde nasci, a antiga Pontinha e atual União das Freguesias de Pontinha e Famões (UFPF). E, se é verdade que os habitantes desta última serão favorecidos pelo fator proximidade e poder usufruir do prometido parque verde e das obrigatórias requalificações no seu território, também se antevêm vantagens para o tecido económico das duas freguesias, mas o grosso da fatia será essencialmente para Carnide, enquanto autarquia, por ser no seu espaço que vai ser instalada a Feira Popular.

Carnide tem mais do dobro do orçamento de Pontinha/Famões

Nasci e vivi no bairro da Serra da Luz durante 27 anos, casei precisamente com um morador da freguesia de Carnide, e vivo atualmente no concelho de Odivelas, paredes-meias com Famões. E, como tal, a experiência destas diferentes realidades desafiou-me para uma investigação mais profunda sobre o assunto.

Ao analisar os orçamentos das duas freguesias em causa constatei aquilo de que nunca me tinha apercebido: Carnide tem um orçamento que é mais do dobro daquele com que conta Pontinha/Famões, o que é no mínimo estranho quando sabemos que esta freguesia tem mais do dobro do território de Carnide e quase o dobro da população.

Concretamente, e após consultar as páginas oficiais das duas autarquias, descubro (e os números não mentem) que Pontinha/Famões tem 1 milhão 786 mil euros para 9,21 km2 e 34.136 habitantes, e Carnide dispõe de 4 milhões e 50 mil euros para 3,69 km2 e 22.415 habitantes.

Indo mais ao pormenor, Carnide pode dispor para cada km2 de 1 milhão e 97 mil euros, e gastar por cada habitante 173 euros, e Pontinha/Famões apenas pode gastar 193 mil e 919 euros por km2 e 52 euros por habitante! É uma diferença grosseira, esta!

Porque é que isto acontece? Analisando as parcelas dos orçamentos vê-se que a grande diferença está nas verbas transferidas pelas respetivas Câmara Municipais: Lisboa transfere para Carnide 2.854.943,00 euros, mais uma verba adicional de 227.166,00 euros; e Odivelas dá a Pontinha/Famões 1.280.030,00 euros. São as vantagens das freguesias inseridas no município que é capital, todas elas, proporcionalmente, com verbas muito superiores ao que se passa no resto do País.

USF de Carnide cobre menos de metade da população da freguesia

Percebo agora algumas diferenças que já tinha notado, nomeadamente nas instalações de Saúde (a minha área profissional), mas também no espaço público, esperando que as mesmas possam a vir a ser minimizadas com a Feira Popular e com as receitas que forem geradas.

Desde há algum tempo, por exemplo, que o Centro de Saúde da Pontinha está instalado em Carnide, no mesmo edifício onde funciona a Unidade de Saúde Familiar (USF) desta freguesia (obra construída de raiz e inaugurada em setembro de 2015).

Conhecendo as más condições da antiga unidade, bem como as vantagens de ser utente numa USF, não posso deixar de aplaudir esta melhoria que veio beneficiar os habitantes da Pontinha, até porque a mudança permitiu também que os profissionais do seu centro de Saúde se organizassem em USF (Novo Mirante).

Contudo, e sabendo da força reivindicativa dos autarcas de Carnide, que de vez em quando são notícia, como recentemente com os parquímetros, não posso deixar de estranhar que tivessem cedido sem alarido, pelo menos aparente, à instalação do Centro de Saúde da Pontinha no “seu” novo edifício. Isto porque, dizem os números, cerca de metade da população de Carnide não tem médico atribuído e não é atendida na sua USF, mas sim no centro de saúde de Benfica, ao contrário da Pontinha que, segundo as fontes oficiais, tem uma cobertura de médicos de família de 93,91%, num universo de cerca de 25 mil utentes…

Ao contrário do “luxo da saúde», o divertimento será para todos

Concluímos, portanto, que o novo edifício que alberga a USF “Carnide Quer” e a USF “Novo Mirante” tem excelentes condições, tanto para os utentes como para os profissionais, mau grado as confusões derivadas de o atendimento administrativo ser feito em conjunto, problema que, ao que parece, está a ser resolvido pela ARSLVT com novas obras que já decorrem e que vão permitir a fruição das instalações com mais qualidade, que é o que se quer na Saúde.

E assim será também com a abertura da nova Feira Popular. Mas, ao contrário do “luxo da saúde”, aqui o divertimento será para todos, sejam de Carnide, Pontinha/Famões, ou de qualquer parte do Mundo!

Cada um faz as omeletas com os ovos que tem

Olhando para as discrepâncias orçamentais das duas freguesias vizinhas, a primeira coisa que me vem à cabeça é a falta de equidade nos meios ao dispor dos respetivos dirigentes para satisfazer as necessidades da população.

Bastaria um orçamento mais justo para que, por exemplo, a Vila da Pontinha pudesse ser alvo de um processo de requalificação que há muito se pede, aproveitando em pleno a janela de oportunidade que se abre com a nova Feira Popular.  E intervir com projetos paisagísticos de raiz na zona da Urmeira, contornando as burocracias inerentes ao facto de os terrenos serem do Estado.  Fazer ciclovias no Vale da Paiã. Transformar o espaço adjacente ao Marco Geodésico de Famões, de onde se desfrutam vistas magníficas, em zona de lazer devidamente estruturada que incluísse um miradouro…

Até lá, terá de lidar com o seu orçamento, continuando a ser alvo de comparação injusta e mesmo desleal com a sua vizinha de Lisboa, o que representa um enorme desafio, ao qual terá de ser dada uma resposta plena de entusiasmo e empenho.

Como cidadã, espero que a União das Freguesias de Pontinha e Famões continue, como até aqui, e pelo que sei, a colmatar carências sociais que existem na sua população, a realizar dentro das suas possibilidades os trabalhos de que ainda carece o território em que agora vivo, sem descurar o equilíbrio financeiro, não obstante as dificuldades que esse caminho inclui.

Mesmo sabendo ser difícil fazer omeletas sem ovos, a verdade é que, com mais ou menos meios, as autarquias locais têm sido os principais apoios às famílias e aos cidadãos nestes tempos de crise, levando a efeito os seus planos de emergência social, as parcerias com as entidades sociais, mantendo presente a esperança no futuro, com ou sem Feira Popular.

Que assim continuem, num caminho em que a verdade dos factos seja a pedra-de-toque para resolver os problemas dos cidadãos, é o que peço.

Teresa Mendes

Jornalista

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