O acontecimento da actualidade é, sem dúvida, a abertura oficial da Exposição Mundial Lisboa 98.  O acontecimento da actualidade é, sem dúvida, a abertura oficial da Exposição Mundial Lisboa 98. Última amostra do século para se avaliar o grau aproximado a que chegou a evolução civilizacional, também assinala o marco de viragem para o novo milénio. Duas grandes e significativas coincidências que aumentam, de forma consequente e inevitável, as responsabilidades contraídas pela realização da já bastante e justamente popularizada Expo 98.

Aproveitemos o ensejo deste tempo histórico alinhavar algumas reflexões a propósito. Quanto mais não seja por se ter de considerar que a efectiva importância da Expo 98 vai assumir a relevância que a sua simbologia justifica, numa altura em que os recursos disponíveis do país foram mobilizados para empreendimento tão excepcional. Só se espera é que as expectativas sejam devidamente atingidas e que os retornos previstos tenham concretização nos prazos calculados, para que não fiquemos ainda mais dependentes do exterior. Para já, parece que esses apoios vão ter a devida contrapartida através de toda a enorme riqueza que constitui a montra da exposição, numa amálgama fascinante de culturas que se cruzam no mesmo objectivo de vincar identidades similares e projectar anseios multifacetados. Entretanto, serão apreciadas e inevitavelmente comparadas as demonstrações do engenho e arte de raiz portuguesa e as múltiplas e diversificadas manifestações de criatividade oriundas dos cerca de centena e meia de países situados em todos os continentes. Incidências históricas comuns, tendo como placa giratória o universo fabuloso dos oceanos, através dos quais os portugueses foram espalhando pelo mundo fora a mensagem da cristandade, o fascínio pelo desconhecido, o apelo à fraternidade entre povos, tão diferentes nos sistemas de vida mas tão iguais na origem e nos destinos, enquanto deixavam sinais de um convívio que ainda hoje, quais árvores eternas, mantêm raízes e troncos valiosos, ramarias e folhagens preciosas e de aspectos fascinantes.

Para lá dos sacrifícios – e muitos foram – que a Expo 98 reclamou aos portugueses, em geral, e especialmente às populações localizadas nas suas cercanias, importará sempre considerar que se trata de um enorme desafio lançado às ambições de um povo cansado de fazer história. Se esse desafio será ou não vencido – ainda é muito cedo para o avaliar. O importante é que não poderá ser um mero pretexto para exibicionismos de simples e ocas vaidades passageiras. Muito mais relevante do que essas vãs e vulgares manifestações voláteis, ´«e a estrutura de toda aquela carga simbólica que pretende traduzir um ensejo de afirmação cultural inspirada e, vamos lá, já um tanto saturada por séculos de profundas contribuições na moldagem espiritual e material de povos e nações pelos quatro cantos terrenos.

No imaginário das diversões proporcionadas pelas milhentas motivações geradoras da exposição, muito provavelmente pouco ou nada da sua significação deverá perdurar para além das sensações de momento sugeridas na ocasião. Que fique, ao menos, na memória de quantos por ali passarem, a ideia de que se trata da simbiose possível de um mundo nascido da fecundidade cansada de um povo que, afinal, ainda não está assim tão esgotado e limitado de potencialidades como os velhos do Restelo pretenderiam inculcar aos menos avisados. É a esperança alimentada pela imensidão das águas oceânicas, tão ricas a dar vida a gentes e terras novas que a gesta lusitana foi criando. É também a consolação de que nem tudo se perdeu na voragem das mistificações parturejadas pelas invencionices deste século cheio de ilusões desfeitas.

Com a sua temática fundada na universalidade do mistério dos mares, a Expo 98 é, também, oportunidade óptima para rever preconceitos e assentar na certeza reconfortante de que a odisseia oceânica protagonizada pelos portugueses transcendeu, de forma decisiva e eterna, os limites fronteiriços de uma nação para repercutir as suas causas e consequências através dos mares e dos continentes, dos dias e dos séculos. Só não o entende nesta perspectiva quantos ainda continuam dominados pelas febrites fundamentalistas de certas doenças ideológicas que precisam de algumas escoras irracionais para suportar o peso das frustrações e dos equívocos. Talvez seja por isso que o enaltecimento da descoberta do caminho marítimo para a Índia esteja a suscitar raciocínios incómodos a alguns historiadores indianos, incapazes de se libertarem de complexos em que o facciosismo esmaga o sentido racional e insuspeito dos factos. E andou o entusiasmado Vasco da Gama a desbravar a rota que haveria de ser tornar decisiva para revelar o mundo e aproximar os povos, começando por sofrer nos trilhos do conhecimento das culturas e seus protagonistas em três continentes.

 20 MAIO 1998

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