A zona do Beato e de Marvila está a tornar-se um dos polos artísticos alternativos mais procurados da cidade de Lisboa. O sucesso da exposição de Bordalo II é um dos marcos mais recentes dessa viragem a  oriente na capital.

Caixotes, peças de computadores antigos, pneus, cadeiras de plástico, peças de automóvel. No “Attero” de Bordalo II (nome artístico de Artur Bordalo), o lixo é transformado em arte. Uma arte de justamente aponta o dedo para o desperdício constante dos tempos modernos.

A curadora da exposição “Attero”, que está patente atelier do artista no Beato até 26 de novembro, explica que “existe nesta mostra uma mensagem muito impactante, um manifesto sobre o consumismo enorme a que assistimos na nossa sociedade”.

Segundo Lara Seixo Rodrigues, “todos nós consumimos muito e produzimos muito lixo. E a verdade é que o Bordalo II consegue transformar e valorizar o lixo. Tudo o que desperdiçamos, ele coloca novamente perante o nosso olhar, mas de uma forma diferente”.

O macaco gigante que dá as boas vindas ao público à porta do atelier marca o início da viagem. No interior, as mais de trinta obras que o artista criou ao longo dos últimos dois anos conduzem-nos à reflexão sobre o desperdício produzido por cada um e que não queremos ver.

“Fazendo do lixo a sua exclusiva matéria-prima, ele desenterra tudo aquilo que tentamos esconder e tornar invisível nas nossas cidades e expõe aos nossos olhos e, na verdade, a todos os sentidos, os nosso próprios resíduos”, explica.

“Seja em grande ou pequena escala, as suas insólitas criações escultóricas obrigam-nos a questionar e a repensar o nosso próprio papel enquanto atores desta sociedade estática, consumista e auto-destrutiva”.

Para Lara Seixo Rodrigues, “ a exposição é uma viagem que nos vai sensibilizando para o consumismo máximo que é a nossa prática diária”.

A curadora destaca ainda que “a relevância e pertinência do todo da obra de Bordalo II” pode ser entendida pela “promoção de valores ambientais, sociais e culturais”.

Na opinião de Lara Seixo Rodrigues, “o impacto que a exposição está a ter na zona do Beato é enorme”. Ou seja, “ninguém ficou indiferente e tem criado uma dinâmica muito distinta na zona”, uma vez que recebem visitantes de todo o país.

A curadora lembra ainda que, tal como o Beato e Marvila, “todas as zonas marginais das grandes cidades são muito interessantes para os artistas”. Daí que existem já muitos artistas aqui a trabalhar em pequenos ateliers. “Todos os olhos estão a virar-se para esta zona”.

A exposição “Attero” pode ser visitada de quarta a domingo, entre as 14h00m e as 20h00, no nº 49 da Rua de Xabregas.

A obra de Bordalo II no Cais do Sodré

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