Ao fim de longos anos de muitas promessas sucessivamente adiadas, Odivelas assinala, enfim, a concretização do anseio velho de ser município…Para trás ficam muitas frustrações que se diluíram no tempo, para se renovarem na reactivação do sonho que foi agora concretizado.

Por muito que custe aos autarcas e às gentes de Loures, era inevitável chegar-se a este desfecho. E, pesados todos os factores que influenciaram a resolução, perante o modo como o processo foi apreciado e despachado nas esferas parlamentares, só pode chegar-se à conclusão de que o apoio à criação do concelho de Odivelas se manifestava tão incontornável quanto urgente. Teria de ser o corolário lógico de um fenómeno desenvolvimentista cujos contornos crescentes não poderiam deixar de ferir atenções, a todos os níveis sociais e políticos. Tudo apontando no sentido de que ou se adoptariam decisões a tempo de recuperar os efeitos de falhas acumuladas e traçar rumos para destinos mais compatíveis com a modernidade, ou se cairia num marasmo de consequências perigosas, inviabilizando recuperações e alimentando o vírus da falta de credibilidade. Era preciso mudar o rumo dos acontecimentos e não permitir que se chegasse ao beco sem saída do já não vale a pena.

Não somente por questões de meras conveniências políticas – que essas vão-se tornando cada vez menos eficazes, na medida em que os eleitorados estão a ficar mais identificados com procedimentos e adoptar na defesa realista das suas ambições. Sobretudo, porque importava apreciar a justa medida dos interesses de uma população que decuplicou nas décadas mais recentes e constitui, hoje em dia, um aglomerado em plena e febril progressão social, com uma elevada taxa de juventude que promete ainda maior expansão.

Com a separação de Odivelas, Loures, fica obviamente mais pobre. Quer porque deixa de poder contar com a participação económica e social de uma população estimada à volta de 150 mil pessoas, quer porque fica despojada de uma fatia territorial considerável, calculada em 30,8 quilómetros quadrados. Para além de que são quase 130 mil eleitores a afastar-se de uma área onde a influência dos seus votos também pesava bastante, passando a decidir o seu próprio rumo, estabelecendo novas regras às forças políticas que ali quiserem implantar-se a colher frutos. Nem por isso, todavia, Loures poderá sentir-se irremediavelmente sujeita a penar pela situação que já se anunciava. Compete-lhe agora rever meios e reordenar estratégias, se é que ainda as não reconsiderou, para reenquadrar procedimentos numa perspectiva de fundo e de forma algo diferentes do que vinha sendo habitual. Para Loures, para os seus principais responsáveis municipais, o novo esquema territorial também pode servir de estímulo para uma revitalização de comportamentos e de objectivos que só poderá beneficiar o seu concelho que ficou amputado mas de maneira nenhuma conformado. Tanto mais que se trata de uma situação que só por distracção e incúria, aliás inadmissíveis, se poderia considerar de surpreendente. Há muito tempo que o seu surgimento se tornava admissível e também inevitável.

A quantos integraram as movimentações que desembocaram na aprovação do novo município de Odivelas cabe agora meditar no sentido das responsabilidades assumidas. A população, que não será assim tão descuidada como poderá indiciar o seu suposto distanciamento em relação à celebração festiva do êxito concelhio, está à espera de que se esteja no limiar da eliminação de todos os condicionalismos que, durante anos excessivos, foram protelando a realização de muitas e diversas aspirações. Mais perto do poder e com este a dispor de recursos reforçados, os odivelenses ficam agora à espera de poderem julgar de forma mais directa e objectiva, agindo em conformidade, quem assumir o excitante desafio de comandar os destinos do concelho. Ficam especialmente atentos ao que se passar sobre concretização de algumas reconhecidas necessidades públicas. E entre as quais, em jeito de advertência oportuna, já se invocou novamente, há dias, o hospital que possa responder às necessidades efectivas de uma população densa e diversificada, numa região onde se afirma que muita falta fazem adequados meios locais para cuidar da saúde.

 

25 NOVEMBRO 1998

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