CAMPOLIDE – UMA FREGUESIA QUE ESTÁ A RENASCER

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“Para Campolide a reforma administrativa foi fantástica. Éramos e passámos a ser cada vez mais uma freguesia com muita capacidade de intervenção no terreno”.

“O grande problema da freguesia de Campolide residia no espaço público nas zonas antigas, porque foram abandonados durante muitos anos”, garante o presidente da Junta de Freguesia, André Couto.

Assim, “uma das nossas grandes prioridades é a reabilitação. Acabar com o facto de ter as pessoas a caminhar no asfalto e os carros estacionados, que era uma realidade em toda a Campolide”.

Estão a avançar dois planos, o Campolide cem por cento seguro e o Programa de intervenção prioritária no Bairro da Liberdade e no Bairro da Serafina, para intervir directamente nestas realidades. Dois projetos da Junta e da Câmara para reabilitar os espaços públicos e contrariar “o abandono desses espaços nas últimas décadas”.

Mas há outros problemas. Nos bairros sociais de Campolide existem problemas de abandono escolar, tráfico e alguma criminalidade.




“Temo-los conseguido contrariar investindo em projetos específicos para esta população”. E, por outro lado, “garantindo que todo o emprego que existe a nível de espaço público, espaços verdes, equipas de obras e higiene urbana tem como destinatários pessoas destes bairros. Muitas vezes até com a reinserção, depois de saírem da prisão, numa colaboração muito estreita com o Estabelecimento Prisional de Lisboa e com a esquadra do Palácio da Justiça. Isto tem ajudado a reabilitar socialmente e financeiramente muitas famílias”.

Na zona antiga de Campolide “há aquele fenómeno triste e cada vez mais comum dos idosos isolados sem família, ou abandonados, que vivem em andares altos sem elevador e que acabam por ter na solidão e nesta prisão a que são sujeitos uns últimos anos de vida bastante complicados”. Para eles a Junta tem equipas específicas, com uma base de profissionais e de voluntários, especializadas em apoio domiciliário.

Em articulação com o programa de policiamento de proximidade das duas esquadras, as equipas visitam com regularidade estes idosos, intervindo através de programas de alimentação para os carenciados; um clube de leitura que lê para quem já não o consegue fazer; ou assegurando o fornecimento de cuidados de estética “para que dessa forma se aumente a autoestima. Mas acima de tudo oferece-se companhia. Aquele dia em que visitamos as pessoas é um dia especial para elas”.

A Junta ficou com as mãos mais livres para trabalhar, depois da reforma administrativa que fundiu as freguesias. “Para Campolide a reforma foi fantástica. Éramos e passámos a ser cada vez mais uma freguesia com muita capacidade de intervenção no terreno. O facto de termos mais meios e mais competências levou a que conseguíssemos refletir isso sobre o nosso território”.

A gestão de higiene urbana em proximidade “melhorou muito a qualidade de serviço. Tivemos outra capacidade de investimento, modernizámos equipamentos, contratámos mais recursos humanos. Conhecendo o território de outra forma e mais ao pormenor, conseguimos adaptar melhor a periodicidade de limpeza da rua. Hoje Campolide é uma freguesia melhor equipada, com mais recursos humanos e melhor higiene urbana”.

Essa melhoria estende-se à ação social, licenciamento e espaços verdes. “Passámos a actuar de uma forma completamente diferente, sem aquelas podas drásticas do resto da cidade”.

Quanto ao balanço da reforma administrativa na cidade de Lisboa, “é positivo, embora encontre Juntas de Freguesia que não acompanharam esta mudança e onde a componente de espaço público tem saído bastante a perder”.

Fez-se a reforma, mas já depois disso “houve cada vez mais transferências de competências para as Juntas”. O que quer dizer que “tem que haver espaço para uma nova geração de delegação de competências. A generalidade das Juntas estão preparadas”.

As áreas podem ser as da educação (refeições escolares), e outras: “Houve zonas da cidade que foram classificadas como estruturantes e que continuam sob gestão da Câmara, como o corredor verde de Monsanto. Pode ser diminuído o seu número e algumas delas passadas para as Juntas de Freguesia”.

Campolide teria “toda a vontade de tratar do corredor verde de Monsanto, que sairia a ganhar. É uma zona relativamente esquecida da cidade, e nós teríamos todo um plano de divulgação que podia beneficiar a população de Campolide e a cidade”.

André Couto teve um orçamento de 850 mil euros no seu primeiro mandato, em 2009. Antes da fusão das freguesias, em 2012, ia já em 1,7 milhões. “Houve um aumento muito grande de atividade, e atualmente, após a reforma administrativa, o orçamento é de quatro milhões e meio”.

Mais pobre, em contrapartida, está o panorama no mundo das coletividades de Campolide. A freguesia, envelhecida, tem menos tecido associativo. Muitas coletividades fecharam e outras deixaram de ser desportivas, passando a ser de convívio e recreio.

“As que existem funcionam bem. Em cada zona da freguesia há uma coletividade que trabalha muito bem, em parceria com a Junta de Freguesia”.

A Junta preocupa-se com “projetos inovadores que mudem a vida das pessoas”. Como o Projecto pago em lixo, com o objetivo de sensibilizar para as práticas de higiene urbana e separação de resíduos, fomentando o comércio local.

“Criámos uma moeda local, chamada lixo, e damos essas notas em troca dos resíduos separados em casa – embalagens de vidro, papel e pilhas”. Há uma tabela de conversão do peso em “lixos” que podem ser gastos no comércio tradicional.

A ideia vem no seguimento do Projeto celeiro solidário, que combate o desperdício alimentar e cuja metodologia “foi vulgarizada pela Refood. Toda essa metodologia nasceu aqui em Campolide em 2011, num projeto que ainda hoje dura”.

Outra grande aposta é a construção do corredor verde de Alcântara, em ligação ao corredor verde de Monsanto. O que resultará numa ligação do Monsanto a Alcântara e ao Tejo com equipamentos de ginástica, parques infantis, quiosques e ciclovia, que pode ser feita a pé, a correr ou de bicicleta.

Será possível circular entre a Quinta de Zé Pinto, Universidade Nova, Mesquita Central de Lisboa, Parque Eduardo Sétimo, Palácio da Justiça, Marquês de Pombal, Bairro da Liberdade, Quinta da Bela Flor e Avenida de Ceuta, terminando no Rio Tejo.

Mais uma estrutura que vai beneficiar os lisboetas e o turismo, de que muito se tem falado. André Couto sublinha que o boom de recuperação da cidade, “do qual todos gostamos, está a ter, em parte, um grande financiamento por parte do turismo. Lisboa tem passado a ser uma cidade da moda para os turistas, e uma oportunidade aproveitada”.

Mas “é preciso que esta oportunidade encontre algum equilíbrio, para não se transformar num problema. Ainda não acho que a situação esteja fora de controlo. Para que não fique, é preciso que o alojamento local seja regulado e haja uma discriminação positiva para os contratos de arrendamento a longo prazo”.

Por exemplo, “em sede de IRS. Os proprietários devem deixar de ter aquela ideia de que o que dá dinheiro é meter turistas dentro de casa”. Não havendo “essa disparidade de benefícios entre o arrendamento de longo prazo e o alojamento local, parte do problema pode ser resolvido. Podemos guiar os turistas para instalações que lhes dizem respeito – hostels, hotéis – mas este alojamento que historicamente sempre foi dos lisboetas continuar a ser deles”.

Por outro lado, “pode caber à Câmara Municipal promover e privilegiar programas de habitação e de fixação da população da cidade. A câmara está a fazer um bom trabalho, com os programas de renda apoiada ou condicionada, destinados à classe média”.

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