A própria história da cidade de Lisboa, explica-nos porque é que esta é considerada um dos locais mais mal-amados da própria cidade.

Após a obtenção de um foral que colocava a comunidade muçulmana sob proteção régia, a zona denominada Mouraria, sofreu várias transformações físicas, culturais e sociais, dando origem à criação oficial da Praça em 1170. Durante os séculos que se seguiram, o local ganhou fama entre cristãos e muçulmanos, concentrando grande parte das relações comerciais estabelecidas entre estes.

Por via desta integração cultural e social, durante o século XVI, o bairro da Mouraria e o espaço envolvente da Praça do Martim Moniz, viria a conhecer um aumento substancial de residentes cristãos, completando assim essa integração das comunidades árabes no ambiente social da cidade.

Com o crescimento da cidade a partir do século XVII, o espaço conheceu um grande crescimento demográfico, o que obrigou a uma reestruturação das habitações que albergavam cada vez mais gente e o próprio bairro da Mouraria cresceu ao mesmo tempo que se nobilizou.

Exemplo disso foi a construção de vários edifícios religiosos e palácios, onde se destaca o Palácio do Marquês do Alegrete, construído no final do século em resultado da ampliação dos vários edificados que a família já possuía no local.

Com o terramoto de 1755, estas zonas que não foram afetadas pelo efeito devastador do fenómeno, tornaram-se locais de confluência para a população que migrava do interior do país para a cidade em função do esforço de reconstrução do centro histórico da capital.

Com o surgimento do espírito iluminista urbanístico do século XIX, a cidade começou a conhecer novos conceitos de organização social. Contudo, dada a miscigenação do bairro da Mouraria, esta zona passou bastante ao lado dessa renovação visionária e apenas se viria a tornar objeto de intervenção política e urbanística no início do século XX.

Esta renovação de conceito urbanístico da cidade teve como consequência várias demolições – à época consideradas aleatórias e até arbitrárias – de onde se destacam a demolição do Palácio do Marquês de Alegrete (em 1946) e da Igreja do Socorro (em 1949), dando assim origem à atual Praça do Martim Moniz.

A falta de um plano consistente de urbanização para a cidade manteve-se durante grande parte do século XX, levando esta praça a ser conhecida como “o buraco da cidade”. Para isso, muito contribuíram as utilizações efémeras dadas ao espaço, desde a mera circulação viária (que crescia em Lisboa), acolhimento do mercado entretanto destruído na Praça da Figueira e até de simples parque de estacionamento.

O termo “praça mal-amada”, acaba por surgir com os sucessivos planos, inacabados ou adiados, de requalificação do espaço do arquiteto João Guilherme Faria da Costa (década de 1940), George Meyer Heine (60) e Filipe Lopes (década de 70). Destes planos, destacam-se largamente a construção do Hotel Mundial (inaugurado em 1958) e a construção dos dois centros comerciais (Mouraria e Martim Moniz), já na década de 1980.

Apenas em 1997 – durante o mandato de presidente de Câmara de João Barroso Soares (1995-2002) – é que a praça vem a ser objeto de uma requalificação que lhe confere um espaço ajardinado, com fontes, para usufruto social e dedicação temática que variam entre imaginários multiculturais e remanescências históricas. O projeto incluiu a implantação de 40 quiosques destinados a atividades comerciais (inativos durante um longo período de tempo), bem como um processo para a construção de habitação para jovens – processo ainda por concluir e que tem sido alvo de várias censuras e críticas.

Nos anos mais recentes, a praça veio a ser ocupada por grupos de migrantes de diferentes nacionalidades, o que lhe tem granjeado a marca a que Marlucci Menezes (antropóloga e etnógrafa social e cultural) se refere como “exotismo cultural”, consequência de estas populações se terem apropriado do local e “dele se terem constituído como paisagem”.

Até à ultima intervenção, em 2011, o espaço manteve a aura de “insegurança e marginalidade”, dado o facto de ser um espaço quase votado ao abandono por parte da Câmara e por albergar um grande número de sem-abrigo, e por fazer parte do circuito lisboeta de prostituição e de toxicodependência, a para com várias outras atividades marginais e ilegais.

Mais recentemente, mas não mais pacificamente, em 2011, a Câmara criou o projeto “Mercado de Fusão” que visava dinamizar da referida miscigenação de culturas, com espaços específicos destinados à divulgação da cultura e culinária das mais de 90 nacionalidades representadas nas freguesias de Santa Maria Maior e Arroios (anteriormente São Jorge de Arroios).

Este projeto, apesar de ter sido em larga parte uma aposta ganha, veio colocar outras questões à autarquia lisboeta, dado que, pese embora o espaço seja atualmente uma boa montra das várias nacionalidades e culturas, veio criar algum mal-estar entre a população residente, devido ao excesso de barulho a horas menos próprias e também aos danos criados ao nível da higiene do local, estando já em preparação uma nova requalificação do espaço entregue ao ateliê do arquiteto José Adrião.

Jorge Matias

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