Lisboa vai ter mais «duas mil camas de hotéis» e, paralelamente, vai ser construída mais habitação para a classe média, revela um estudo da consultora CBRE que prevê, ainda, um agravamento nas rendas.O alojamento local pode perder terreno para as formas tradicionais de alojamento em 2020, devido ao regime das áreas de contenção e ao “crescimento substancial nos hotéis”, segundo dados da sociedade de consultadoria imobiliária CBRE, que reuniu em Lisboa 300 empresários e investidores na IV conferência da CBRE sobre Tendências do Mercado Imobiliário 2020.

«Este regime das zonas de contenção travou, de certa forma, o alojamento local em zonas da cidade onde também dificilmente se cria habitação, porque tipicamente são zonas históricas de difíceis acessos e sem estacionamento que serviam na perfeição o alojamento local», disse o diretor geral da CBRE Portugal, Francisco Horta e Costa. Por outro lado, estão previstas cerca de «mais duas mil camas de hotéis em Lisboa e mil no Porto, portanto vai haver um crescimento substancial nos hotéis», acrescentou.

De acordo com os dados da CBRE, agora apresentados, «o investimento em hotéis vai estar, definitivamente, na agenda do investidor em 2020 – como já se revelava em 2019 -, podendo atingir os 1.000 milhões de euros».

Habitação para classe média

No sector habitacional, o estudo revela que não existe uma «previsão de decréscimo nos valores de venda, mas surge construção destinada à classe média».

Assim, no segmento residencial, no próximo ano prevê-se um aumento de valores de venda em Lisboa, notando ainda um crescimento moderado no Porto. Este aumento vai sentir-se de mais acentuada noutros concelhos das respetivas áreas metropolitanas.

Em 2020, vai assistir-se «a uma maior descentralização dos projetos residenciais, nomeadamente de construção nova, para zonas mais periféricas ou mesmo para concelhos limítrofes aos de Lisboa e Porto, bem como um aumento da promoção imobiliária residencial destinada à classe média. A diversificação da oferta de habitação com projetos para arrendamento e novos conceitos como co-living, que são formatos de sucesso noutras geografias e começam agora a chegar a Portugal».

Nas oscilações de rendas, a CBRE prevê uma subida nas rendas em Lisboa na ordem dos 4% e a estabilização das rendas de escritórios no Porto. De assinalar que a zona ribeirinha lisboeta se posiciona, cada vez mais, na atração de talento, conduzindo a um aumento de rendas acima da média de Lisboa, na ordem dos 9%. Aliás, uma das grandes tendências no setor dos escritórios é o foco das empresas e dos proprietários na experiência do utilizador, fruto da nova realidade do mercado de trabalho.

O diretor geral da CBRE adiantou, ainda, que «há muitos projetos para residências de estudantes», uma vez que é necessário fazer face à falta de soluções para os estudantes que, entre outros fatores, são também cada vez mais atraídos pela subida de posicionamento das universidades portugueses nos rankings europeus.

«Vai haver oferta suficiente de camas em residências de estudantes. Neste momento ainda há muitos projetos que estão a ser desenvolvidos, outros ainda estão a ser licenciados, mas vai haver muito mais oferta e isso é uma boa notícia», sublinhou Horta e Costa.

Em súmula, o responsável da CBRE considerou que o mercado imobiliário português em 2020 vai ser marcado pelo «arranque da promoção imobiliária transversal aos diversos setores», como a construção de escritórios, espaços para comércio de rua, armazéns de logística e projetos de habitação incluindo para arrendamento.

«Caminhamos para um ano com variáveis muito saudáveis, onde a procura e a oferta vão-se encontrar de uma forma mais equilibrada nos diferentes setores», realçou.

Procura sustentável

Confirmando estas previsões, o estudo desenvolvido pelo departamento de Research da CBRE Portugal assinala que «existe uma procura sustentada e saudável por parte dos investidores que é transversal aos diferentes setores e que vai permitir que se desenvolvam e transacionem vários projetos, desde os escritórios ao residencial, passando pela hotelaria e pelos novos conceitos de ‘living’, mobilizando cerca de 3.000 milhões de euros em imobiliário de rendimento só no ano de 2020».

Cristina Arouca, Diretora de Research da CBRE Portugal, reforça que «não faltarão investidores em 2020 para imobiliário de rendimento em todos os setores, mantendo-se a pressão em baixa das taxas de rentabilidade (yields) em virtude de um contexto continuado de baixas taxas de juro. Verificamos elevado apetite por parte de investidores, nacionais e estrangeiros, em produtos de habitação alternativos, nomeante habitação para arrendamento, residências sénior e residências de estudantes, quer numa fase de desenvolvimento quer como ativos de rendimento».

Mais hotéis

Neste encontro de empresários e investidos foi revelado que, em 15 de janeiro, a Associação de Hotelaria de Portugal (AHP) divulgou que vão ser abertos 51 novos hotéis em 2020 e apenas nove remodelações, registando um abrandamento do registo de intenções.

Os dados foram dados a conhecer pela presidente executiva da AHP, Cristina Siza Vieira, numa apresentação à imprensa dos resultados do inquérito “Hotelaria: Balanço 2019 & Perspetivas 2020”, bem como dos últimos resultados do barómetro Hotel Monitor (de janeiro a novembro 2019).