Marvila é um espaço onde se cruzam várias dinâmicas, onde o novo e o velho se entrecruzam com o verde das hortas e o cinzento dos prédios dos bairros sociais.

Executivo da Junta de Freguesia de Marvila

Marvila é, de facto, um local de contradições, entre o novo que está a chegar e o antigo que permanece. Um palco de tensões entre o passado industrial glorioso e os criativos que assentam arraiais. De um lado, está a sede do histórico clube desportivo Oriental, cujo salão promete bailes para todas as idades. Do outro lado, é o restaurante do chef Chakall que, além da comida, «oferece» jazz, e, na esquina, existe uma tasca bem à moda antiga, no rés-do-chão do prédio da extinta fábrica Abel Pereira da Fonseca (de onde saía vinho rumo ao Ultramar), onde agora funciona, na parte superior, um novíssimo espaço de “coworking”.

Mas, um outro aspeto que acentua estes contrastes é o da linha de comboio que dividi a freguesia de Marvila. Também aqui, a geografia marca a diferença entre os dois lados deste bairro. Uma parte mais envelhecida e industrial, onde existe algumas indústrias e escassos serviços, mais encostada ao rio. Do outro lado da linha de comboio está a zona mais moderna, com construções novas, mais comércio e serviços, e com mais habitantes.

Marquesa de Alorna «viveu poeticamente» …

Os habitantes gostam do seu bairro, mas queixam-se de alguma insegurança e da falta de policiamento, da falta de espaços verdes onde passear e praticar desporto. No entanto, sentem-se confortáveis a viver aqui, apesar de algumas coisas que estão em falta.

Já no século XVIII, Marvila (na altura arrabalde de Lisboa) era um território de contrastes, onde a fidalguia tinha palácios e o povo trabalhava a terra, como relatam alguns poemas de Alcipe, pseudónimo de D. Leonor de Almeida Lorena e Lencastre, 4.ª marquesa de Alorna, enclausurada por ordem do Marquês de Pombal por causa do célebre crime dos Távoras contra o rei D. José I.

Encarcerada no mosteiro de São Félix, em Chelas, a freguesia de Marvila, teve um papel preponderante na vida e obra literária da poetisa Alcipe. A circunstância de ter crescido no convento marcou profundamente a personalidade e a obra de D. Leonor de Almeida, que se representava a si própria na sua obra poética, como um ser triste, marcado pelo infortúnio, vítima do despotismo e da tirania.

Todavia, como os atuais habitantes, também D. Leonor de Almeida se sentia confortável a viver no Mosteiro de Chelas, apesar de todos os inconvenientes de viver em reclusão.

Posto de Saúde e mais comércio

Moradora há três anos no bairro que diz «adorar viver», mas onde, lamentavelmente, vai deixar de morar, Ana Sequeira, de 45 anos, desempregada e residente na Rua do Telhal aos Olivais, lamenta não existirem «mais coisas». Ipsis verbu, refere: «Não tem muito comércio e, desde que fizeram os prédios novos do outro lado da linha de comboio, o comercio passou todo para lado de lá».

Mas, isso não é o pior na perspetiva desta residente. Segunda ela, existe um centro de saúde. «Só que não tem médicos, têm que mandar vir médicos de outros sítios. As pessoas têm que ir para o posto médico às 7 da manhã, para arranjarem uma consulta. Mas, depois, não têm médicos», lamenta.

A mesma opinião é partilhada por José Santos, 46 anos, assistente operacional e morador, há 43 anos, na Rua do Vale Formoso, que «só vê cafés» e um edifício que chamam de posto médico, lamentando a falta de farmácias e multibanco.

Neste momento, «não há nada positivo no bairro. Quando precisamos de alguma coisa temos que ir à Zona J de Chelas ou à Gare do Oriente», afirma.

Todos se conhecem

Residente há 14 anos na Rua Fernando Maurício, Marinela Morais, reformada, de 65 anos, uma das coisas mais salutares do bairro é que «os se conhecem e, quase todos, nos damos bem. Praticamente, todos temos animais de estimação e convivemos muito nos jardins. Para mim e para todos os que vivem sozinhos é muito importante passear os animais e, não podemos esquecer, que temos esplanadas agradáveis».

Contudo, do ponto de vista desta residente, deveriam existir mais jardins, onde as pessoas pratiquem desporto, «como existe noutros lados». E, já agora, pede que a Junta ou alguém de direito, construa um chafariz para as crianças beberem água, mesas para as pessoas estarem nos jardins a jogar às cartas e conviverem.

O melhor…são as pessoas

Já para Lucília Ferreira, de 66 anos, empregada doméstica, «Marvila é um bom sítio para se viver», até porque «tem supermercado, cafés, talhos e transportes públicos para todo o lado». Ou seja, na perspetiva desta moradora, «não há falta de nada»

Opinião ligeiramente idêntica é a de Tristão Pereira, 95 anos, reformado e morador próximo da estação Braço de Prata. Segundo ele, «este é um sítio sossegado para se viver». No entanto, «já se viveu aqui momentos trágicos, porque de vez em quando aparecem aí alguns bandidos…»

Para este eleitor de Marvila, «as pessoas são o melhor que tem aqui no bairro. Ter vizinhos é muito importante. Não estamos descontes.

Temos o comboio perto. Também temos comércio, mas faz falta um supermercado».

Mesa da Assembleia de Freguesia de Marvila

A freguesia

Situada na Zona Oriental de Lisboa, a freguesia de Marvila tem as suas fronteiras a Norte, com a freguesia dos Olivais e Parque das Nações, a Este com o rio Tejo (Mar da Palha), a Sul com as freguesias do Areeiro e Beato e a Oeste com a Freguesia de Alvalade. Atravessada por dois vales, o Vale Fundão e o Vale de Chelas, na freguesia existem  dois parques urbanos: o Parque da Bela Vista e o Parque do Vale Fundão, sendo constituída por 10 bairros: Bairro dos Alfinetes e Salgadas, Bairro do Condado, Bairro dos Loios, Bairros das Amendoeiras, Bairro da Flamenga, Bairro do Armador, Bairro Marquês de Abrantes, Bairro da PRODAC Norte e PRODAC Sul, ou Vale Fundão, Bairro do Vale Formoso e Poço do Bispo (zona de Marvila Velha).

Alguns dos monumentos e locais de interesse a visitar são, a título exemplificativo: Portal e galilé da ; Antigo Convento de São Félix e Santo Adrião de Chelas; Capela do Asilo dos Velhos; Capela da Mansão de Santa Maria de Marvila; Capela do Antigo Convento de Nossa Senhora da Conceição; Igreja Paroquial de Santo Agostinho a Marvila.

+ Marvila

Quer comentar?

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.