O Mercado do Lumiar+Bio foi o primeiro mercado português especializado em produtos de origem biológica com o objetivo de encontrar uma “âncora que levasse as pessoas de volta” àqueles espaços comerciais. Passado um ano, o mercado «está às moscas».Foi há pouco mais de um ano que o Mercado do Lumiar +Bio, foi reconvertido num espaço de produtos biológicos. A novidade de ser o primeiro mercado de produtos biológicos, deu lugar à deceção, com poucos clientes neste espaço.

O movimento de clientes é escasso. Poucos são aqueles que percorrem o primeiro mercado biológico da capital. A maioria dos comerciantes está com os espaços vazios.

No espaço destinado aos produtos biológicos, que ocupa a zona central do mercado, só a mercearia orgânica Miosótis tem alguns, poucos, clientes. As restantes bancadas, estão sem ninguém.

A charcutaria de Mário Marques pode ser uma exceção. Presente com a sua loja há mais duas décadas, este comerciante fidelizou os clientes, apostando “em bons preços e produtos de qualidade”. O problema é que “as pessoas não fazem compras no mercado”.

A origem desta situação, no entender de Mário Marques, residiu no tempo de encerramento deste espaço. “Esteve fechado e quando reabriu os fregueses tinham desaparecido”, afiança. Contudo, como referem, existem outros fatores que contribuíram, nomeadamente “as frutas e hortaliças não serem em quantidade e caríssimas. E, por este motivo, as pessoas acabaram por ir embora”.

Como se não fosse suficiente, Mário Marques sublinha que “também não existe publicidade ao mercado. A Agrobio, gestora do mercado biológico, já deveria ter feito isso”.

Também Maria Celeste, que explora a segunda charcutaria, considera que a situação “ficou pior do que estava. Não há clientes”.

A opção por produtos biológicos não está a trazer benefícios para os comerciantes. No seu entender, “devia haver à venda produtos biológicos e não biológicos. Assim, as pessoas tinham uma opção”. Porque – como lembra – “os produtos biológicos são muito caros e as pessoas não tem capacidade para os adquirir”.

Para Maria Celeste, os responsáveis pelo espaço “deveriam fazer alguma coisa para atrair mais clientes”. Por exemplo, “deveria haver um talho, que já existiu e faz falta”.

Para Teresa Bastos, as obras efetuadas “não trouxeram nada de positivo”.

A ocupar uma banca de peixe, Teresa Bastos não tem pudor em criticar o que considera estar mal no mercado do Lumiar. “Chamamos a isto mercado biológico, mas acaba por não ser biológico, porque continuamos cá nós, temos as charcutarias, que vendem de tudo”, acusa esta vendedora. E sem se deter, entende que “isto é publicidade enganosa”, que só tem “afastado os clientes, porque aquele cliente que gosta de ir ao mercado fazer as suas compras, teria que ter a opção de escolher entre os produtos biológicos e não biológicos. Porque nem todas as pessoas compram biológico”.

Ou seja, Teresa Bastos refere que “se houvesse oferta, porque havia espaço no mercado, teriam umas bancas com o biológico e outras com o não biológico. E, uma coisa ajudava a outra”. Assim, “as pessoas chegam veem que não há outras opções e vão para outros mercados, como Benfica ou Telheiras”.

No entender desta comerciante, “a junta de freguesia não quer saber disto. Desde que viemos para aqui, nem acabaram os lugares, porque foi tudo à pressa”, acusa.

Mas nem todos estão descontentes com o Mercado do Lumiar +Bio. Cristina Silva, que reside no Lumiar há cinco anos, é fã de produtos biológicos. “Foi uma ótima ideia terem criado este mercado de produtos biológicos”. Aceita que os preços são um pouco mais elevados que os produtos não biológicos, “mas tenho a garantia de qualidade”.

Quanto às críticas dos outros comerciantes sobre a falta de clientes, esta consumidora entende-as, mas considera que a solução passaria “por haver mais divulgação deste espaço e não tanto por acabar com ele”.

Às portas do insucesso

Dentro deste espaço renovado, um projeto dos arquitetos João Carrasco e Daniela Ermano, apesar das críticas, os produtos biológicos marcam uma forte presença, desde o restaurante biológico às bancas, resultado de uma parceria entre a Associação de Agricultura Biológica (Agrobio), a Junta de Freguesia do Lumiar e a Câmara Municipal de Lisboa.

A mercearia orgânica Miosótis vende uma grande variedade de produtos a granel, leguminosas, vinhos, azeites, carne biológica, mel, leites vegetais e chá, entre muitos outros produtos.

Bem localizado no centro o Lumiar, a pouca distância do Metro e com estacionamento à porta, este mercado tem os ingredientes para ser bem-sucedido, mas os comerciantes entendem que só com produtos biológicos o conceito poderá estar condenado ao insucesso.

ESPECIAL | MERCADOS DE LISBOA

 

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