O nível do ruído dos aviões sobre Lisboa «é quase quatro vezes mais do que o previsto na lei». Esta afirmação de Francisco Ferreira, da associação ambientalista Zero foi proferida durante um encontro promovido pela Associação de Vizinhos do Areeiro.Rui Martins, da Associação dos Vizinhos do Areeiro, que se encontra integrada na Associação de Vizinhos de Lisboa, afirmou ontem, durante um debate sobre o «ruído causado pelos aviões, na livraria Barata, que o «aumento do turismo causou um excesso do número de voos noturnos para o aeroporto da Portela», o que está a ter «um impacto direto na poluição sonora em Lisboa».

Apesar de considerar que o «turismo trouxe uma nova dinâmica económica à cidade», Rui Martins considera que se deveria apostar «num turismo mais sofisticado e não no low coast, que traz turistas que não trazem grandes receitas para a cidade».

Lamentando o facto de as pessoas já se terem «habituado ao ruído provocado pelos aviões», Rui Martins considera que «a lei que limitava os horários dos voos noturnos deveria voltar a ser aplicada, acabando-se o regime de exceção que foi criado aquando do Europeu de Futebol».

Recorde-se, conforme referiu Francisco Ferreira, que a Associação ambientalista Zero detetou durante a noite que o ruído causado pelos aviões ultrapassou o valor permitido em 11 decibéis, e o número de voos registados foi, durante este período, superior ao valor diário previsto.

A campanha “DECIBÉIS A MAIS, O INFERNO NOS CÉUS”, lembra, permitiu obter informação sobre o período noturno. O equipamento “devidamente homologado e certificado «detetou que o ruído previsto na lei foi ultrapassado em 11 decibéis (dB), “tendo sido registado um valor de 66,5 dB».

O ruído que chega dos céus estende-se às zonas próximas do Aeroporto de Lisboa, onde muitos se queixam de não conseguem dormir nem trabalhar. Alguns moradores chegam mesmo a tomar medicamentos para poderem descansar, revelou Rui Martins.

Os residentes queixam-se do ruído constante dos aviões que aterram e descolam do aeroporto Humberto Delgado.

Entre as 23h00 e as 7h00 da manhã, «o nível de poluição sonora provocado pelo movimento dos aviões que aterram e descolam do aeroporto da Portela revelou estar quatro vezes acima do previsto na lei», indica o dirigente da Zero, Francisco Ferreira.

As medições feitas pela associação ambientalista no Campo Grande, em Lisboa, indicam que, em vez dos 55 decibéis (dB) de ruído máximo permitido legalmente durante o período noturno, foi registado um valor médio de 66,5 dB, ou seja, mais 11dB. «Em escala logarítmica isto significa quatro vezes mais do que o permitido legalmente», reforça o engenheiro ambiental. Francisco Ferreira lembra também que o limite máximo de 26 movimentos no período entre as 24h00 e as 06h00 (incluído num regime de exceção criado desde 2004) também foi ultrapassado, já que se registaram 28 aterragens ou descolagens durante essas seis horas.

Francisco Ferreira faz questão de explicar que se tem de «alertar e sensibilizar» os cidadãos e as autoridades para o ruído dos aviões e o seu impacto na cidade de Lisboa, «numa altura em que o Governo português pretende ampliar de forma muito significativa a capacidade do Aeroporto Humberto Delgado».

Entretanto, continua por aprovar o “Plano de Ações de Redução de Ruído 2018-2023”, entregue pela ANA Aeroportos no ano passado e que aguarda a avaliação da Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

Com base nos dados disponibilizados sobre a poluição sonora provocada pelas aterragens e descolagens do Aeroporto Humberto Delgado em 2016, a APA estimava que o ruído dos aviões acima da lei afetava mais de 57 mil residentes em Lisboa, durante a noite, o que representava mais do triplo face ao registado em 2011.

A autoridade ambiental chegou a esta conclusão com base nos mapas de ruído e no Plano de Ação 2013-2018 disponibilizados pela ANA Aeroportos. Estes indicavam que «o número de voos duplicou no período noturno com consequente acréscimo da área afetada», que passou “de cinco quilómetros quadrados para 13 quilómetros quadrados” em cinco anos. «Regra geral», explicaram então os técnicos da APA, este aumento «resulta da extensão em comprimento do campo sonoro gerado pelo sobrevoo das aeronaves ao longo das rotas de descolagem e aterragem e com menor expressão da extensão em largura desse campo sonoro». Estas rotas tinham alargado 1,7 quilómetros para Sul, abrangendo parte de Campo de Ourique até ao cemitério dos Prazeres; e 2,6 quilómetros para Norte, até ao Bairro das Maroitas, em Loures.

Entre 2016 e 2018 os movimentos totais no aeroporto de Lisboa cresceram perto de 17% (de 182.148 para 213.712 aterragens e descolagens). Sem revelar dados atualizados, a APA e a ANA admitiam, então, que o número de residentes afetados teria aumentado. Em 2018, a ANA registou uma média de 38 movimentos por hora e espera chegar aos 48 a partir de 2020. Ou seja, com a ampliação do aeroporto haverá um aumento de 26% de aviões a aterrar ou descolar na capital a cada 60 minutos.

A Zero exige que esta expansão seja submetida a avaliação de impacto ambiental e avançou com uma ação judicial para que isso seja feito no âmbito de uma avaliação ambiental estratégica que abranja o projeto de aeroporto no Montijo.

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