Sócio há 58 anos

Tem 74 anos e “nasceu” com a Sociedade Musical 3 de Agosto de 1885, onde vai todos os dias desde miúdo.

Na época da infância de Fernando Vieira o ringue era de terra batida, os marvilenses deliravam com os bailaricos e os miúdos passavam o tempo a jogar à bola. O homem lúcido e enérgico é sócio há 58 anos. No clube desempenhou todos os cargos de direcção e executou todas as tarefas – pedreiro, carpinteiro, projectista – menos as de tesoureiro, que considera as mais perigosas. E nas marchas também fez o mesmo percurso abrangente.

Recorda que no seu tempo, ao contrário do que acontece hoje, para fazer qualquer coisa – como jogar às cartas – eram precisas duas pessoas, ou mais. Hoje as pessoas estão mais isoladas e parecem não precisar das colectividades. “As coisas que forneciam raízes estão a morrer. Não são incentivadas, acarinhadas”.

Organizador das marchas durante 42 anos, comenta que os casamentos, muitas vezes, começavam aí. “E não se desfaziam. Era muito raro isso acontecer”.

No enorme edifício ao lado da colectividade, hoje vazio, “viviam centenas de famílias… Amontoadas umas sobre as outras, cada uma com seis a 11 filhos. E naqueles corredores via-se de tudo, incluindo a vida íntima dos casais”.

E também um informador da PIDE, que fez mais de 500 queixas contra o barulho que saia da colectividade nos dias de festa. E ainda um homem de idade, que um dia saiu do edifício totalmente nu, sem qualquer roupa interior, com as peles a pender sob o corpo, aos gritos e a dizer palavrões, porque a música estava muito alta… Outros tempos.

 

 

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