Arquiteta da nova iluminação dos Paços do Concelho de Lisboa desvenda o modus operandi da intervenção

Desde a semana passada, a fachada principal da Câmara Municipal de Lisboa tem uma nova iluminação que realça a varanda do edifício, onde foi proclamada a República. Ao “OL”, Diana Del-Negro, a arquiteta responsável pela iluminação deste edifício histórico, destaca a importância da plasticidade da intervenção, poupando recursos e meios à autarquia.

Diana Del-Negro sustenta que a intervenção das luminárias é discreta, sustentável e respeita o património. A arquiteta é também responsável pelas novas iluminações da Rotunda do Marquês de Pombal, das Muralhas Fernandinas da cidade do Porto, do Convento de Cristo, em Tomar, e a Iluminação da rede de miradouros da cidade de Lisboa. No estrangeiro, concebeu a iluminação de 55 edifícios do Centro Histórico da cidade de Porto Alegre, no Brasil.

Inaugurada recentemente, a nova iluminação da fachada principal dos Paços do Concelho de Lisboa, uma intervenção desenvolvida pela Fundação Iberdrola, em colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa, valoriza um dos edifícios mais emblemáticos da cidade e um dos seus espaços institucionais mais representativos. Dá especial destaque à varanda de onde foi proclamada a República, a 5 de outubro de 1910.

Em declarações ao “OL”, Diana Del-Negro, arquiteta e ex-responsável pela iluminação dos monumentos da cidade no Município de Lisboa, refere que o projeto foi iniciado em 2018, quando a arquiteta ainda trabalhava para a CML. “Acompanhei a obra do princípio ao fim, como autora do projeto, até à inauguração de 8 de outubro, já com o meu próprio atelier”.

Segundo explicação de Diana Del-Negro, foi objetivo do novo conceito “dar maior relevância à varanda onde foi proclamada a República, mantendo a leitura arquitetónica do edifício”.

Com a nova instalação de luz, passou a haver “uma iluminação permanente, sóbria, e também perto de 30 cenários efémeros, que tanto podem cobrir o edifício inteiro como apenas a varanda: bandeiras de diferentes países em visitas de Estado e eventos institucionais, ou uma só cor para assinalar dias simbólicos”.

A arquiteta explica que criou estes cenários coloridos para a fachada da CML para racionalizar meios, poupar tempo e recursos ao Município. “Durante anos, cada celebração obrigou a montar equipamentos provisórios na varanda e no exterior do edifício para projetar cores na fachada. Por vezes, as montagens e desmontagens danificavam o edifício e implicavam consumos elevados. Com a nova instalação, a cor passa a fazer parte do próprio edifício através de 10 projetores RGBW escondidos por detrás das colunas e 12 projetores RGBW colocados no exterior do edifício (6 de cada lado). Os restantes 18 equipamentos são monocromáticos, assim como as luminárias lineares que preenchem o frontão e as balaustradas”.

Para Diana Del-Negro, a maior dificuldade técnica foi fazer desta intervenção “uma obra que respeitasse o património e fosse totalmente reversível e pouco visível durante o dia. Por esse motivo, decidi não introduzir luminárias no pavimento, que possui desenhos em mármore que dificilmente seriam repostos, e os percursos de cabos foram cuidadosamente estudados e desenhados em fase de projeto”, afiança.

A arquiteta é mestre em conservação do património, doutorada pela UCL em iluminação urbana (The Bartlett, Londres), trabalhando em iluminação de património há mais de vinte anos. Preside ao comité técnico da CIE (Comissão Internacional de Iluminação) que prepara o guia internacional de iluminação de elementos urbanos e é autora do livro “Comissão Internacional de Iluminação”, editado em 2012.

Obras em Lisboa, Porto, Tomar, Leiria e Porto Alegre

Entre os projetos mais recentes da arquiteta estão as Muralhas Fernandinas do Porto (Menção Honrosa nos LIT Awards 2025), o MACAM, em Lisboa, e os claustros do Convento de Cristo, em Tomar, a inaugurar em breve.

Inaugurado em 2025, o MACAM reúne, em cerca de 13 000 m², um museu de arte contemporânea e um hotel de luxo. A iluminação cria percursos ao longo do espaço e o ambiente adequado para ver e, ao mesmo tempo, proteger as obras de arte. Quartos, átrios e corredores foram iluminados de forma a prolongar o ambiente de galeria.

Diana Del-Negro foi também responsável pela iluminação da Rotunda do Marquês de Pombal (2018). Conforme explica, o conceito assentou em dois objetivos: criar uma hierarquia visual que dá destaque à estátua e à rotunda. “Esse destaque vem de um anel de luz, feito com luminárias desenhadas à medida para o local de modo a evitar o encandeamento dos automobilistas, e da iluminação eficiente da estátua e do pedestal. A estátua foi iluminada para ser visível à distância, por ser um ponto de referência da cidade. Ao fundo, as colunas iluminadas do Parque Eduardo VII criam um ponto de fuga no horizonte”.

Por outro lado, foi também seu propósito “melhorar a orientação noturna dos automobilistas” mediante a utilização de duas temperaturas de cor: 2000 K no anel interior e 3000 K no anel exterior. Cada anel dá acesso às vias iluminadas com a mesma temperatura de cor. Assim, “quem entra na rotunda percebe intuitivamente se deve seguir pelo anel interior ou pelo exterior”.

Para além destas duas intervenções, Diana Del- Negro arquitetou a Iluminação da rede de miradouros da cidade de Lisboa (2009), que incluiu as igrejas da Graça, de Nossa Senhora do Monte e da Penha de França, as colunas do Parque Eduardo VII e a Ermida de São Jerónimo. No mesmo ano, nova iluminação das fachadas da Santa Casa da Misericórdia e da Igreja de São Roque, na freguesia da Misericórdia, bem como a Igreja de São Paulo e Igreja da Conceição Velha.

Todas as estátuas das Avenidas Novas e da Avenida da Liberdade, incluindo Entrecampos, Saldanha e o Monumento aos Mortos da Grande Guerra, passaram pelas mãos e pela supervisão da arquiteta.

Sendo também da responsabilidade de Diana Del-Negro o projeto de iluminação da Praça do Comércio, que aguarda implementação, e da iluminação exterior do Panteão Nacional, que não chegou a ser concretizado.

Nome cimeiro desta área específica da arquitetura, Del-Negro é também a criadora da iluminação do Convento de Cristo (Tomar), Património Mundial, dos postos da BP em Leiria, que recebeu um prémio do setor. Na cidade do Porto, levou a cabo a iluminação das Muralhas Fernandinas, estando atualmente envolvida na criação de um sistema de luz no M-ODU, no antigo Matadouro da Zona Industrial de Campanhã, em parceria com o atelier Kengo Kuma & Associates.

No estrangeiro, participou na iluminação de 55 edifícios do Centro Histórico da cidade de Porto Alegre, no Brasil.

 

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