Desenhador, figurinista e cenógrafo há mais de 30 anos, tenho trabalhado em teatro, cinema, publicidade, dança, figuração e animação e, até ao ano passado, em um grande disparate que considero ter sido a minha incursão nas Marchas Populares.

Esclareça-se que não considero as Marchas Populares um disparate. Bem pelo contrário. Acho apenas a minha incursão por elas um disparate que foi necessário para apreender uma lição, que em muito me fez bem e me colocou num caminho de esclarecimento para comigo mesmo.

As questões que para mim ficaram muito claras foram: segue sempre o teu intuito, não vás onde não és bem-vindo, não tentes dar o que os outros não querem e, às vezes, é necessário um engano de percurso para voltarmos ao nosso caminho com mais objectividade e solidez.

Como é de conhecimento público, vim em 2016 acusado de burla qualificada por uma associação de um bairro de Lisboa em ocasião das marchas Populares.

A acusação foi arquivada mas, por insistência da colectividade, seguiu para tribunal superior sendo arquivada novamente e considerada desprovida de recurso.

Evidentemente que toda a gente com dois dedos de testa sabia que seria esse o desfecho porque, na realidade, a queixa inicial era completamente descabida e tinha apenas o intuito de vingança infundada, que não deveria nunca ter sido canalizada contra mim e que terá certamente consequências gravíssimas.

No decurso do alarido da escandaleira popular, houve um certo aproveitamento de várias entidades, entre as quais alguns órgãos de comunicação social que enfrentam actualmente processos judiciais.

Tal como um jornalista me disse, e muito bem, “quando se é a única caixa cheia no mercado” toda gente corre para a apanhar.

Se por um lado é um grande elogio considerarem-me a única caixa cheia, por outro lado evidência a maneira como todos temos sido tratados como objectos de consumo neste mercado tão cínico e oportunista.

Não há, de facto, muitas caixas cheias no mercado e aliás contam-se pelos dedos de uma mão os que terão caixa tão-pouco.

Se todos os anos, consecutivamente, se diz a mesma coisa como se fosse a primeira vez, nada de mais refrescante, interessante e até conveniente acusar alguém que tem contribuído de forma bastante activa e positiva, de burla qualificada. Mais ainda tendo o infeliz título de “Novo Mourinho das Marchas”.

Mas, de facto, será essa mais uma das razões pelas quais considero esta situação tão cómica e convidativa à galhofa. 

Várias pessoas me têm perguntado porquê que eu não esclareço de forma clara o que aconteceu, em vez de mandar recadinhos privados como fiz através da crónica numero 1 de “crónicas à cubano” e que continuarei a fazer nas crónicas seguintes que estão para breve.

Evidentemente houveram pessoas que se sentiram tocadas e até indignadas com o conteúdo das mesmas, mas talvez e apenas porque se tenham revisto nelas.

A minha resposta tem sido que, de facto, não devo explicações a ninguém, nem tão pouco me importo ou alguma vez me importei com o que pensam de mim, pensando ainda que questões tão disparatadas como esta da burla qualificada só têm duas formas de ser tratadas que são: rindo-nos delas e Ministério Público.

Mas de facto não existe apenas um pequeno nicho que entende o conteúdo das “Crónicas à Cubano” e que acha que elas podem ser comprometedoras, que de facto o são, mas de uma forma divertida.

Existe ainda uma imensidão de gente séria e interessada que gostaria de ser informada do que se passou, do que é isto das Marchas Populares de Lisboa e como se processa o trabalho das colectividades de uma forma geral na sua preparação.

Para começar a por os pontos nos IS, gostaria de dizer que segundo a minha opinião as Marchas Populares não passam de uma boa ideia, mas cuja intenção se traduz em nada de realmente significativo e engrandecedor. Por esse motivo ainda, não me parece que queira fazer parte dessa ideia.

Passando por aquela boa ideia que têm as pessoas que se sentam nas bancadas do pavilhão atlântico ou veem a transmissão televisiva e que acham que tudo é lindo e fácil, mas que não fazem a mínima ideia de como é que aquilo aconteceu.

Evidentemente também, aquela bela ideia que tem quem nunca participou no evento e acha que tudo são rosas, mas que ao primeiro aperto são levadas a fazer disparates muito cómicos como por exemplo acusar alguém de burla qualificada, sem ter fazer a mínima ideia do que isso quer dizer e as consequências gravíssimas que trará para o bom-nome de uma festa que desde há muito Lisboa tenta manter.

De facto, no meu parecer, rir é o melhor remédio. Não dos outros mas de nós e seria bom que toda a gente o conseguisse fazer.

Rir dos outros é genérico, rir de nós próprios é de marca e definitivamente tem um efeito bem mais eficaz.

E existe ainda aquele tão sábio provérbio popular que diz qualquer coisa há cerca de quem ri por ultimo.

Voltando a questões de esclarecimento geral sobre o evento, há que informar a quem desconhece que o movimento associativista de Lisboa enfrenta, de há algum tempo a esta parte, sérias dificuldades.

Essas dificuldades são resultantes de uma conjuntura de factores que apenas revelam o desenvolvimento social a que muitos se opõem, mas contra o qual pouco há a fazer.

Poderia, isso sim no meu parecer, haver uma adaptação a essas novas condições por parte do associativismo, de forma a tornar mais actuais e apelativas as suas manifestações e acções.

No caso das Marchas populares de Lisboa, visto terem um cariz popular e visarem a preservação de micro culturas (bairros) que reflectem na globalidade a cultura Alfacinha, existe um factor sério de que urge haver consciência.

Esse factor, que na realidade são muitos, tem a ver com questões relacionadas com a globalização, a descaracterização dos bairros de Lisboa com finalidades turísticas e comerciais, a recessão económica que em muito de longe se encontra ultrapassada, as novas formas de espectáculo e entretenimento, as novas tecnologias e as novas formas de estar.

Todas essas alterações sociais colidem com aquilo que o espírito das marchas populares pretende cimentar e que é essencialmente a afirmação de Lisboa e de aquilo que a caracteriza, tendo nós todos a plena noção que nem tudo aquilo que caracteriza Lisboa é producente ou acompanha os objectivos traçados para a Lisboa que se quer e que se avista.  

No caso concreto das Marchas Populares de Lisboa, sem que muitos se tenham dado conta, houveram de facto muitas pessoas que contribuíram para que elas acompanhassem uma evolução produtiva sob o ponto de vista artístico, turístico e económico.

Actualmente, e mais concretamente nos últimos dois ou três anos, houve uma consciencialização global, primeiramente pelas colectividades/associações, seguida pela dos seus elementos envolvidos e de algum público, de que, para que o espectáculo das Marchas Populares faça sentido para todos, há condições que têm que ser revistas, começando primeiramente pelas condições humanas de quem nelas estão envolvidas na sua produção.

Têm que existir meios para que os fins se justifiquem. E no que diz respeito a isso, em resultado da reunião das colectividades tida no ano passado, houveram algumas propostas que se impõem ver resolvidas como por exemplo o apoio tardio do CML às colectividades, e que parece só a CML não ter entendido ainda bem porquê, levando-nos a questionar se de facto, terá conhecimento da importância que este concurso/espectáculo tem para a cidade de Lisboa e pode fazer parte de uma acção visionária no sentido engrandecer Lisboa.

Nota: O texto aqui publicado é independente da linha editorial de “Olhares de Lisboa” e de inteira responsabilidade do seu autor.

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