COMÉRCIO TRADICIONAL | “UMA DOENÇA” E SUSPIROS POR MELHORES DIAS

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Os resistentes do comércio tradicional em Lisboa anteveem uma quadra natalícia não muito auspiciosa para os seus negócios.Dizem que o facto de continuarem a laborar em pequenos negócios nos bairros da cidade se prende com “uma doença” e um amor desmedido por uma atividade que tende a desaparecer    

Natália tem um porte aristocrático e um visual elegante e cuidado. Não descura a boa apresentação para fazer as suas compras diárias. Circula pelo Mercado de Alvalade Norte com à-vontade e trata os vendedores com familiaridade, fruto de muitos anos de contacto quase diário.

Avessa a grandes aglomerados de pessoas, assume que não gosta de comprar os seus produtos nas grandes superfícies «por que há sempre imensa confusão e alguma indiferença dos funcionários perante as necessidades especiais dos clientes».

Moradora em Alvalade «há mais de três décadas», gosta de passear pelo bairro, de andar a «ver as novidades» que chegam às lojas de roupa, de provar os petiscos que são servidos nos inúmeros espaços de restauração e cafetaria fina que abundam pelo Bairro.

Na visão da maioria dos comerciantes contactados pelo OL, a fidelidade desta cliente ao comércio tradicional é coisa do passado. São já poucos os resistentes que continuam a encher as mesas de Natal com as iguarias que vêm «quase» diretamente do campo para a mesa, como os produtos que são vendidos nos mercados, assumem.

Mercado vazio






Maria Reis, proprietária de uma banca de fruta e legumes desde 1986, não acredita num cenário de bonança natalícia. A quadra festiva traz sempre alguma folga orçamental para as famílias cumprirem alguns caprichos, mas nem assim a comerciante deixa de torcer o nariz ao suposto engrossar das carteiras dos lisboetas.

«Vai ser um mau ano. As pessoas não têm dinheiro. O Mercado está praticamente vazio. Só no sábado é que isto anima. No Natal, as pessoas têm mais algum dinheiro e querem comparar os nossos produtos porque sabem que são melhores. O Natal do ano passado foi fraco. Este tipo de negócio, nos mercados, tem vindo a decair. Diz-se que a crise já foi ultrapassada e que as pessoas estão a viver melhor, mas não notamos essas melhorias».

Fidelidade ao bacalhau “natural”

Já Domingos Silva, proprietário de uma banca de bacalhau, não se mostra tão pessimista quanto ao momento económico-social em Lisboa. Apesar de o Mercado de Alvalade Norte ainda ser uma espécie de ilha da tradição, mas que vive rodeada das ameaças provocadas pelas grandes superfícies, mantem a fé no bom senso dos seus clientes na altura de comparem o bacalhau que vai ser rei no repasto de consoada.

«O negócio não está mau. Uns dias antes do Natal sente-se uma maior afluência de clientes ao Mercado. As pessoas ainda gostam de vir aqui comprar o bacalhau para o dia de consoada, as couves, etc. Sabem que os nossos produtos oferecem uma qualidade superior e não se importam de gastar mais um pouco», diz, confiante.

A zona de Alvalade é tradicionalmente uma das mais caras da capital, e uma das mais exclusivas. Reconhecido com um bairro de classe média-alta, os seus habitantes continuam a ter algum poder de compra para adquirir os melhores produtos.

“Alvalade tem pessoas com bastante poder económico. Temos clientes certos, que reconhecem a qualidade dos nossos produtos. No Natal, temos clientes que vêm de outros pontos porque andam à procura de uma ‘coisinha’ melhor e sabem que aqui o bacalhau e as couves são de grande qualidade”.

Acossado pela concorrência das cadeias da grande distribuição, o Mercado ainda vai resistindo ao “facilitismo” proporcionado pelas compras nas grandes superfícies, pois a garantia de qualidade funciona com elo de fidelização.

«Esse fator prejudicou um pouco o nosso negócio, mas as pessoas sabem que, quando querem e podem comprar melhor, abastecem-se no Mercado. O nosso produto, ao contrário daquilo que se diz, não é mais caro, porque o barato sai caro. Não aproveitam tudo, acabam por deitar fora».

O bacalhau da banca de Domingos Silva, segundo o próprio, é um produto mais tradicional, de melhor qualidade, porque é alvo de uma cura mais prolongada, que pode ir até aos 20 meses, e totalmente natural, ao contrário do “fiel amigo” vendido nas grandes superfícies, cuja cura «é de apenas um mês», sendo «apressada com um químico».

Consoada desconsolada

Clementina Duarte, proprietária de uma loja de roupa, anda apreensiva com o futuro. Para além da concorrência das grandes superfícies, também a lojas de chineses vieram ensombrar ainda mais o tipo de negócio.

“Para o meu tipo de comércio, que é para uma classe média-baixa, não há grandes expectativas para este Natal. O Mercado tem cada vez menos gente. Por outro lado, já foi decidido que vão banir as lojas de roupa dos mercados. Andamos há ano com essa indicação da Câmara, que é para sair daqui, mas ninguém decide nada, o que acaba por prejudicar ainda mais a nossa situação», narra, desconsolada.

A comerciante, com 31 anos de mercado, já não tem grandes expetativas quanto ao futuro, até porque não vislumbra qualquer saída para irromper do buraco negro onde se encontra.

“ Quando sairmos daqui, desisto do negócio. Já estou perto da reforma e vou aproveitar para me retirar. O resto das pessoas, mais novas, tem de se desenrascar. Vão dar indeminizações, mas são pequenas”.

Classe média-alta “já não existe”

Carlos Rodrigues, proprietário de duas lojas de eletrodomésticos, está à porta do seu ganha-pão a ver passar o trânsito da movimentada avenida Rio de Janeiro, na esperança de ver um algum cliente entrar. Fuma cigarro atrás de cigarro para queimar o tempo e a ansiedade provocada pela incerteza do dia-a-dia.

Contactado pelo OL para dizer de sua justiça sobre a situação do comércio tradicional, mostra-se disponível e pronto a esmorrar os argumentos de que a “crise já passou”.

«A crise tem-se vindo a agravar de ano para ano. A mensagem que passa nas televisões, de que a crise já acabou, que o crédito aumentou, que as pessoas vão gastar X no Natal, é tudo conversa fiada. Aquilo que vemos todos os dias é que as pessoas têm cada vez menos, que não têm possibilidades de comprar seja aquilo que for. Recorrerem sempre à banca para comprar tudo. A Banca, por sua vez, só empresta dinheiro para férias… A raiz do problema está nos baixos salários que as pessoas ganham face ao aumento do custo de vida. Aquilo que as pessoas ganham não chega para comprarem tudo aquilo de que necessitam. São os impostos, os baixos salários, etc., as pessoas não têm dinheiro, de facto».

No Natal, segundo diz, é normal que nesta época se venda «mais um bocadinho, mas não é nada que se pareça com a realidade dos anos 1980 e 1990».

Não obstante reconhecer que naquela zona ainda há algum poder de compra, atira: “Mesmo assim nota-se perfeitamente a falta de dinheiro. Isso de aqui morar uma classe média-alta é conversa… Atualmente, já não existe uma classe média-alta. Para dar um exemplo: antigamente as pessoas regressavam das férias e tinham os eletrodomésticos avariados e substituíam-nos logo por outros. Atualmente, deixam-se ficar com as coisas avariadas. Não há dinheiro, ganha-se muito pouco para suprir as despesas do dia-a-dia. Não é nosso caso, mas sei que há muitas lojas nesta zona que chegam ao fim do dia sem abrir a caixa registadora. Acho muito triste e fico muito desalentado com esta situação. É ver a nossa luta diária, a nossa vida, a ser deitada por terra”.

As couves viçosas de Arroios

Entra-se no Mercado de Arroios e saltam a vista as cores garridas das couves e dos grelos da banca de Augusto Sousa. A esposa diz com orgulho que “são lindas” e pega nelas para mostrar a frescura do legume de eleição do cardápio de Natal.

Augusto recorda com saudade os tempos em que este espaço comercial estava “apinhado de gente” até à hora de almoço, em que os clientes se “atropelavam” para comprar os legumes e frutas da sua banca.

A qualidade dos produtos “mantém-se”, afiança, mas faltam os compradores, que “preferem as grandes superfícies por ser um pouco mais barato”, justifica. “Compram em grandes quantidades e, por isso, conseguem negociar preços mais baixos. A gente compra pouco, mas todos os dias. Tudo o que vê aqui é fresco e diferente daquilo que se compra nesses grandes comércios”, anota Augusto.

Com o boom turístico de Lisboa, Arroios e a Almirante Reis transformaram-se em locais de excelência para a nova realidade dos alojamentos locais a turistas, mas desertificou-se de moradores e residentes a tempo inteiro. “Esta zona é um dormitório e já vai tendo poucos moradores, poucas famílias. Os turistas estrangeiros, que estão de passagem, não compram nos mercados, preferem ir comer fora ou então vão às grandes superfícies”.

Ao sábado, o negócio “melhora um pouco” e é o que “ainda vai aguentando” uma atividade que é mantida por carolice e gosto por aquilo que faz, admite o comerciante.

Nos restantes dias da semana, os clientes aparecem a conta-gotas e “pouco levam”. Compram quantidades “muito pequenas” e continuam a ser muito exigentes.

Nem o facto de já não faltar muito para o Natal anima o resignado comerciante. “As expetativas são baixas. Vamos vender um pouco mais, mas não estamos a contar com um aumento significativo das vendas. Temos alguns clientes certos, que não abdicam de levar os seus produtos porque sabem que vão melhor servidos, e que nos trocam. As nossas couves do Natal são as mais saborosas e tenras. Esperemos que o consumidor seja convencido pela qualidade dos nossos produtos”.

Augusto Sousa, ainda assim, confia que melhores dias virão. “Enquanto continuarmos a ter esperança, vamos manter-nos continuar por cá”, conclui, sorridente.

“Isto é uma doença”   

Benilde Marques está cansada. Cansada de passar dias e dias à espera de clientes, que não vê, exausta por saber que a sua dedicação ao negócio tem resultado numa mão cheia de nada.

No Mercado de Arroios há mais de meio século, tem assistido ao lento definhar de uma atividade que já foi rentável e para a qual não antevê “qualquer futuro”.

“Fizeram obras no Mercado, mas isto ficou pior do que antes. Entra frio por todo o lado, que já provocou duas broncopneumonias ao meu marido”, queixa-se, apontando para a porta causadora de tantos incómodos.

Com o Natal à espreita, nem esse facto acalenta uma réstia de esperança na septuagenária. Com o esposo contraído a um canto, encolhe os ombros e expressa-se com desassombro. “O Natal vai melhorar as vendas? Vai lá agora… Vamos ganhar juízo! As pessoas não querem saber se a carne que eu vendo ou melhor ou pior. Vão ao mais barato. Isto está, dia para dia, a morrer. Já estou aqui desde os 12 anos. Vou fazer 76 e ainda aqui estou. Isto é uma doença que a gente tem. Temos amor pelo nosso trabalho. Quando estou em casa, estou sempre a pensar nisto, a deitar contas à vida”.

Adega de sucesso  

Miguel Vazquez é proprietário da Adega d’Arte, na rua Eduardo Brazão, nas imediações do Mercado de Arroios. Com a oferta de um espaço comercial vinícola que alia a oferta de vinhos com algumas obras de arte, foge ao conceito tradicional de comercialização de bebidas alcoolificas.

Substitui as habituais madeiras escuras das paredes e chão, pelas cores claras, luminosas, para “fazer sobressair as garrafas de vinho”. Este conceito tem gerado “bons resultados”, uma vez que é um negócio “com boa saúde financeira”.

Com a chegada da quadra natalícia, o negócio desta garrafeira sui generis vai disparar. “A partir do início de dezembro até à terceira semana notamos uma subida considerável das vendas. Somos procurados por muitos curiosos e por enófilos militantes”, revela o comerciante, explicando que o consumidor continua a oferecer vinho, “principalmente aquele que vem com caixas”, a família e amigos.

Na sustentação deste negócio, está o facto de haver vinhos de pequenos produtores sem espaço para entrar nas grandes superfícies. “Surpreendemos o cliente porque somos uma garrafeira diferente. Temos uma decoração cuidada e arrojada e oferecemos vinhos de grande qualidade a preços convidativos. Temos vinhos para todas as carteiras. Se calhar, menos conhecidos, mas que são feitos com outra atenção, não tão massificados, porque são provenientes de pequenas produções e destinadas a clientes conhecedores”.

A localização privilegiada desta garrafeira, numa zona onde pernoitam muitos turistas, contribui para o sucesso do negócio. “Cerca de 25% do volume de vendas é destinado a consumidores estrangeiros. Muitas vezes, aparecem aqui para comprar um vinho que beberam num restaurante ou que alguém lhe recomendou e pedem-me para lhe abrir as garrafas, porque nem têm saca-rolhas”, revela, acrescentando que os enófilos estrangeiros “ficam surpreendidos” pelos preços e chegam a levar “caixas inteiras”.

Com os comerciantes divididos entre a esperança e a resignação, resta-lhes esperar que impere entre os lisboetas o apelo do “coração” a um regresso àquilo que ainda vai mantendo a singularidade e tipicidade de uma cidade que agora (como sempre) está aberta ao mundo.

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OLHARES DE LISBOA Nº 6 | NATAL

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