Escritor argentino dá 40 mil livros a Lisboa: BIBLIOTECA DE ALBERTO MANGUEL VAI FICAR NAS JANELAS VERDES

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Nasceu na Argentina, é cidadão canadiano e doou este sábado a sua extensa biblioteca à cidade de Lisboa. A vasta coleção do autor e ensaísta Alberto Manguel vai ser instalada no novo Centro de Estudos de História da Leitura, no Palacete dos Marqueses de Pombal.

O protocolo de doação da biblioteca do escritor e bibliófilo argentino-canadiano Alberto Manguel foi assinado sábado, na Feira do Livro de Lisboa, pelo autor e pelo presidente da Câmara Municipal, Fernando Medina, que citou vários escritores portugueses e estrangeiros para afirmar que «a biblioteca passa a ter um local central na geografia cultural, literária e artistica», constituindo um “imã de atração e o motor central do trabalho que está a ser desenvolvido em Lisboa».

O escritor e bibliófilo de origem argentina, e nacionalidade canadiana, Alberto Manguel, doou os seus 40 mil livros à Câmara Municipal de Lisboa, que ficarão no palacete dos Marqueses de Pombal, nas Janelas Verdes, onde vai ser instalado o novo Centro de Estudos da História da Leitura, que Alberto Manguel vai dirigir, trocando definitivamente Nova Iorque, onde vivia, por Lisboa, porque, como diz Fernando Medina, «o criador nunca pode estar longe da sua obra».

A biblioteca de Manguel está na base de livros como o “Dicionário de Lugares Imaginários”, “Uma História da Leitura”, ou “Uma História Natural da Curiosidade” e, segundo Fernando Medina, esta «biblioteca é, ao mesmo tempo, generalista e especializada em vários temas».

Para o autarca lisboeta, o novo equipamento que vai funcionar junto ao Museu Nacional de Arte Antiga, vai constituir «um grande pólo de internacionalização» e vai «fazer jus a Lisboa como cidade literária», servindo não só a investigadores especializados, como ao leitor comum.

Para além de diretores de várias das mais importantes bibliotecas internacionais, o Centro de Estudos de História da Leitura deverá contar também com autores como Salman Rushdie, Margaret Atwood, Chico Buarque ou o poeta e cardeal português Tolentino Mendonça, sendo «um ponto de encontro entre autores e intelectuais e o público leitor», afirma o presidente da Câmara de Lisboa que agradeceu à vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto, e ainda à responsável da Editora Tinta da China, Bárbara Bulhosa, pelos «esforços que desenvolveram para que Lisboa fosse a casa final dos 40 mil livros de Alberto Manguel».





A biblioteca de Alberto Manguel, escritor, ensaísta, editor e tradutor, inclui sobretudo obras de literatura e não ficção nas áreas das artes e humanidades.

Nascido em 1948, em Buenos Aires, Alberto Manguel cresceu em Israel e na Argentina, porque o seu pai era diplomata, o que lhe proporcionou uma infância solitária, salva pela companhia dos livros.

Uma vida atribulada que encontrava descanso nos livros

Numa obra publicada em 2019, “Monstros Fabulosos”, na qual recupera as personagens imaginárias que conheceu nas suas leituras de infância, o autor recorda que passou a infância a viajar de casa em casa, e que os quartos em que dormia mudavam constantemente, sendo nos livros que se ancorava e encontrava conforto e segurança.

«Só a minha pequena biblioteca permanecia igual, e lembro-me do imenso alívio que sentia quando, novamente enroscado numa cama desconhecida, abria os meus livros e, ali, na página esperada, se encontrava a mesma história de sempre, a mesma ilustração de sempre», revela Alberto Manguel.

Discípulo de Jorge Luís Borges

Autor de uma vasta bibliografia, entre a qual se contam ‘best-sellers’ internacionais como “Dicionário de Lugares Imaginários”, “Uma História da Curiosidade” e “A Biblioteca à Noite” (editados pela Tinta-da-China), Alberto Manguel foi, entre 2016 e 2018, diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, cargo que fora anteriormente ocupado por outro escritor e bibliófilo argentino, Jorge Luis Borges, de quem Alberto Manguel fora, em jovem, leitor.

Tudo começou quando Manguel tinha 16 anos, andava na escola e trabalhava numa livraria anglo-alemã, em Buenos Aires, chamada Pygmalion; Jorge Luis Borges, 65 anos, era frequentador assíduo dessa livraria.

Borges entrava na Pygmalion ao final da tarde, quando voltava do trabalho na Biblioteca Nacional da Argentina, de que era diretor, e certo dia, depois de escolher alguns livros, perguntou ao jovem Alberto Manguel se podia ler para ele à noite, pois estava a ficar cego e a mãe, já na casa dos 90, se cansava facilmente.

Esta história é relatada por Alberto Manguel num livro recentemente editado pela Tinta-da-China, “Com Borges”, que é uma «homenagem» ao autor de “Ficções” e simultaneamente uma «memória afetiva entre os dois escritores», como descreve o próprio autor.

Mudança para a Europa

Foi depois de terminado o período de quatro anos (entre 1964 e 1968) em que foi leitor de Borges, que Alberto Manguel se mudou para a Europa, tendo vivido entre Espanha, França, Itália e Inglaterra.

Editou cerca de uma dezena de antologias de contos, sobre temas tão diversos como o fantástico ou a literatura erótica. É ensaísta e romancista premiado, tendo recebido, entre outros, o Prémio Formentor das Letras, em 2017, pela obra “Embalando a minha biblioteca” (Tinta-da-China), na qual descreve a penosa tarefa de desmontar a sua biblioteca.

Considerada uma das suas obras mais pessoais, este romance é um «comovente obituário da uma biblioteca, na medida em que relata a “melancólica” operação de encaixotar os seus 35 mil livros, que habitavam num antigo presbitério em França».

No início do século, Alberto Manguel instalara a sua imensa biblioteca num antigo presbitério do Vale do Loire e sentiu que encontrara uma casa para si e para os seus livros, mas essa morada acabou por não ser permanente e os milhares de livros de Manguel acabaram guardados em caixotes no Canadá.

A partir deste acontecimento, o autor reflete sobre a natureza da relação entre leitores e os seus livros, sobre o lugar primordial que deve ser ocupado pelos livros e sobre a importância das bibliotecas nas sociedades civilizadas e democráticas.

Agora, a biblioteca de Alberto Manguel encontrou uma nova morada, em Lisboa, e um novo destino, o de poder servir a todos, cumprindo um desejo do escritor, que sempre lutou pelo fomento da leitura, numa sociedade marcada pelo consumismo, pela falta de ética e por uma evolução tecnológica que retirou importância aos livros, conduzindo a uma valorização do «rápido e fácil», como afirmou.

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