MARCHA DO LUMIAR | “Queremos transmitir à cidade uma onda de alegria”

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A história da participação do Lumiar nas Marchas Populares de Lisboa remonta apenas a 2003. Mas a associação que organiza a marcha nesta freguesia faz já parte da memória coletiva da cidade.

Marcha do Lumiar 2006

A “Academia Musical 1º de Junho de 1993”, também conhecida por “Academia do Lumiar”, está a assinalar os 125 anos.

Segundo Artur Botão, “não há muitas instituições na cidade com esta idade”. O presidente da coletividade  está há cinco anos neste cargo mas desde 2000 que se sente envolvido diretamente nos destinos da academia. Natural do Lumiar, é filho de um antigo dirigente da coletividade.

Para o dirigente, “esta é uma coletividade eclética, que quer chegar a vários públicos”. Para isso, a Academia do Lumiar tem “um leque de atividades de alguma forma extenso para uma coletividade desta dimensão”.

A começar pela cultura, com uma escola de música, uma banda filarmónica, um grupo coral, um grupo de teatro e uma escola de dança.

E o desporto, que é também fundamental na dinâmica desta associação. “O principal é o basquetebol, com cerca de 80 pessoas envolvidas, desde sub-14 até seniores, mas temos também uma escola de xadrez, karaté, ginástica e atletismo”, elenca Artur Botão.





Manter toda esta estrutura com cerca de 600 sócios não será fácil, mas o presidente da Academia do Lumiar não esconde que muito se deve a “um grupo de voluntários que agarra os assuntos e os leva até ao fim, dando muito do seu tempo livre à associação”.

Depois existe “um relacionamento muito significativo com a Junta de Freguesia do Lumiar”, de tal forma que “toda a atividade desportiva e cultura não seria possível sem a junta”.

A MARCHAR

Foi precisamente através do desejo de um presidente desta junta que nasceu a Marcha do Lumiar. Há mais de 15 anos, “o presidente à data, Nuno Roque, foi convidado para assistir ao desfile na Avenida da Liberdade e percebeu que era o único que não tinha marcha”.

De facto, como conta Artur Botão, “nesta zona da cidade nunca houve tradição de marchas populares”. Mas Nuno Roque lançou o desafio à Academia do Lumiar e em 2003 o desejo foi concretizado, ao lado da marchas também estreantes Beato e Bela Flor.

“Não percebia nada da marchas”, admite o presidente da academia. E acrescenta: “tivemos a sorte de encontrar uma pessoa experiente em marchas, Carlos Jorge Espanhol, que nos montou a primeira e segunda edição”.

Na altura, “eram pessoas que nunca tinham marchado, algumas com quase 70 anos”. E na opinião de Artur Botão, “era uma marcha diferente, não parecia uma marcha a concurso”.

Mónica Sintra e Carlos Ribeiro – Padrinhos da Marcha do Lumiar 2007

Depois do 16º lugar na estreia, a Marcha do Lumiar alcançou um feito ao classificar-se em sexto na edição de 2007, “muito bom para uma marcha pouco experiente”.

Porém, em 2016 o último posto da classificação fez com que a Marcha do Lumiar ficasse ausente do concurso do ano passado.

“Estamos a arrancar de novo”, refere Artur Botão, “o que é um pouco doloroso, uma vez que parte dos marchantes foram para outras marchas. Parte deles voltaram, outros não”. Mas o dirigente vê neste desafio “uma oportunidade”.

E essa oportunidade vai traduzir-se numa “uma marcha muito alegre e muito jovem”, constituída por “um grupo muito entusiasmado que quer transmitir à cidade uma onda de alegria muito grande”.

O tema escolhido são os azulejos do Lumiar, “um património muito rico nesta freguesia”.

O presidente da academia destaca o trabalho do coreógrafo Hélder Carlos que, “para além da coreografia, escreveu as letras, desenhou o figurino e os arcos”. Por outras palavras, “toda a marcha é uma conceção dele”.

Mas “por detrás de Hélder Carlos há uma grande equipa, que trata do guarda-roupa, cenografia e do o cavalinho”.

Com a cantora Alexandra (pela primeira vez) e o ator Paulo Matos como padrinhos, Artur Botão defende que a Marcha do Lumiar trabalha para ficar nos lugares cimeiros. “Acredito que os melhores ficam lá em cima e os menos bons lá em baixo. Quem fica lá em cima é porque trabalha muito bem”.

Um trabalho que por vezes pode ser dificultado pelas restrições do orçamento. “Se não tivermos os pés bem assentes na terra é muito fácil o orçamento descambar”, revela. “Tem de haver um exercício de contenção”.

TRANSPARÊNCIA

A experiência de 2016 ainda está muito presente na memória de Artur Botão. “Ficámos em último nesse ano por causa das penalizações, às quais nunca tínhamos sido sujeitos”.

E dá um exemplo: “um dos aguadeiros não estava com o figurino igual aos outros dois”.

Em termos gerais, o presidente da Academia do Lumiar é da opinião que “o júri devia ter parâmetros mais objetivos”, pois entende que se está atualmente “no campo do subjetivo”.

E por vezes, “na escrita dos relatórios, os jurados elogiam uma marcha mas na pontuação dão a pior”.

Artur Botão fala também do alargamento do número de jurados e de que o presidente das coletividades, Pedro Franco, “devia ter outro papel no júri, com mais bom senso em relação à aplicação das penalizações”.

E vai mais longe: “já vi penalizações aplicadas a ‘marchas periféricas’ que não são aplicadas à do centro histórico”.

Por tudo isto, o dirigente considera que “as coisas devem ser mais transparentes”.

VOZ ÀS MARCHANTES

É com as diferentes experiências e origens que se constrói e se desenvolve a dinâmica de uma marcha popular.

E aqui no Lumiar não diferente. Por exemplo, Marina Ventura, com 30 anos, já é marchante desde 2006, enquanto que Patrícia José, com 39, estreia-se este ano.

Para Marina Ventura, a estreia foi em 2006. Depois de nove anos ausente, regressou para as edições de 2015 e 2016, o ano em que a Marcha do Lumiar ficou em último lugar.

Marina Ventura relembra o sentimento de desilusão e tristeza, mas também de revolta, porque o fim da tabela deveu-se ao vestuário. “Apesar do último lugar, tivemos o apoio de todos aqui no Lumiar”, revela.

E adianta: “agora estamos em força” para a “festa mais bonita e especial de Lisboa”, afirma com orgulho.

Já para Patrícia José, esta é a primeira vez que desfila em qualquer marcha. “Não resido aqui mas trabalho no Lumiar”, explica.

Segundo a marchante, esta era um grande sonho. “Já no ano passado tentei entrar noutra marcha, mas tal não foi possível”, relata.

Educadora de infância e com três filhos, Patrícia José fala do desafio dos ensaios e do esforço que é necessário para levar a marcha a bom porto. “Venho de Caneças, faço 25km só para as marchas. Às vezes há muito cansaço mas temos de dar o nosso melhor”. Nunca faltou aos ensaios e faz-se acompanhar pelo filho, marchante, e pelo marido, aguadeiro.

Em ano de estreia, anseia para que chegue o grande dia. “Não deve haver palavras para desfilar na avenida”.

Depois do mau resultado de 2016, a expetativa é alcançar “um bom lugar este ano”. Patrícia José considera que a Marcha do Lumiar tem tudo para isso.

“Quando se fala da marcha do Lumiar, ela tem sido um pouco desvalorizada. Mas o Lumiar somos nós que o fazemos. Nós é que temos de mostrar que o Lumiar tem força”, defende.

E para alcançar os objetivos aposta no “bom espírito de equipa”, pois só assim “é que se consegue obter bons resultados”.

 

 

 

 

 

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