«Poupar, poupar e poupar água» é a grande mensagem do 3º certame «Os Caminhos da Inovação 2019», promovidos pela Águas do Tejo Atlântico na Fábrica de Água de Alcântara, em Lisboa.

«Já bebi água reciclada de uma das nossas fábricas». Esta revelação «bombástica» foi produzida pelo presidente das Águas do Tejo Atlântico, António Frazão, durante a sessão inaugural do certame «O Caminho da Inovação 2019».

Com esta afirmação, aparentemente bombástica, António Frazão apenas quis salientar que, num futuro que poderá não ser muito distante, as chamadas Fábricas de Água podem «fabricar» água para consumo humano.

Os avanços científicos e tecnológicos permitem, no presente, reciclar água para utilização na agricultura, regas de jardim e lavagem de ruas. Perante esta realidade, impensável há algumas décadas, nada nos diz que, dentro de algumas décadas, as fábricas de água não produzam água 100% segura para utilização humana.

Atualmente as 103 fábricas de água da Tejo Atlântico, sublinha António Frazão, «já produziram» 500 milhões de metros cúbicos de águas residuais (190 milhões de m3/ano), 350 mil toneladas de biomassa para a agricultura e «fabricaram» 23% da energia consumida «nas nossas casas».

Lembrando que as ETAR’s já não representam «aquilo a que estávamos habituados», António Frazão afirmou, convictamente, que «hoje, as antigas ETAR’s transformaram-se em fábricas que tem como produto a reciclagem de água, desempenhando um papel importante na economia».

Um dos aspetos referenciados e salientados pelo presidente das Águas Tejo Atlântico foi o da gestão eficiente dos sistemas de saneamento da costa, que contribuiu para a qualidade da água das praias com repercussão direta na economia e no turismo. As Águas do Tejo Atlântico, com o seu trabalho, contribuíram para a atribuição de 35 bandeiras azuis na sua área de concessão.

Apostar na formação de jovens

Pedro Miguel Folgado, da Comunidade Intermunicipal do Oeste, e António Câmara, da Universidade Nova de Lisboa, consideram que «as fábricas de água dão um contributo significativo na preservação do ambiente, ao assegurarem o tratamento das águas residuais, garantindo uma água reciclada de qualidade superior para ser reutilizada em usos não potáveis, sendo o excesso devolvido ao meio hídrico».

No entanto, como avisou o professor da Universidade Nova, é necessário criar condições para evitar a «fuga das nossas inteligências» para o estrangeiro, nomeadamente para os EUA que já lhe «roubou» duas das suas melhores alunas.

Aliás, a fuga de quadros superiores e a necessidade de apostar na formação de jovens foram duas das tónicas do discurso de António Frazão. Segundo o presidente das Águas Tejo Atlântico, existe uma «grande dificuldade em encontrar técnicos qualificados». Por isso, «é necessário investir para manter e formar gente nova».

Economia circular

Um dos múltiplos aspetos abordados neste certame, que reuniu em Alcântara vários empresários do setor, foram as mais valias sociais e económicas, bem como a contribuição que o setor da reciclagem da água pode trazer para a agenda ambiental.

Patrick Bárcia, da Sysadvance, Alexis Kerchove, da Xylem, e Arlindo Oliveira, do Instituto Superior Técnico, referiram que «numa economia circular, todos os recursos são mantidos proactivamente nos sistemas de produção e consumo. E a água reciclada também tem de ser pensada dessa forma – reduzindo o seu consumo, reutilizando-a e regenerando-a».

Para todos, a economia circular é um modelo «que regenera recursos e bens, mantendo o seu valor económico durante o maior período de tempo possível, mas, para isso, é preciso fazer muito mais do que reciclar».

Assumindo sempre que as consequências das alterações climáticas não são um problema das gerações futuras, mas sim um problema «das nossas gerações», todos os participantes neste encontro, à semelhança do que já afirmou o ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, «é necessário poupar, poupar e poupar a água». Por isso, o «uso doméstico da água tem de ser responsável, a eficiência dos sistemas de rega tem de melhorar e a reutilização das águas tem de avançar». Mas – como também fazem questão de realçar – «é essencial a sensibilização do setor agrícola para a adoção de culturas com menores necessidades de água».

Aumentar o consumo

A edição de 2019 do Caminho da Inovação ficou também marcada pela apresentação de um produto de consumo cuja mensagem vai contribuir para abrir caminho à utilização de água reciclada.

A Águas do Tejo Atlântico, a maior empresa de recolha e tratamento de águas residuais em Portugal, criou uma marca de cerveja. A Vira é uma espécie de «protótipo», feita em colaboração com uma startup, que não vai ser comercializada, mas que serve para demonstrar à população dos 23 municípios das regiões da grande Lisboa e do Oeste, que a água resultante do tratamento dos esgotos e das chuvas pode «no limite chegar a ser utilizada para produzir uma cerveja artesanal», explica Hugo Xambre Pereira, administrador executivo da Águas do Tejo.

«Nunca seremos produtores de cerveja, mas queremos simplesmente demonstrar desta forma que a água residual urbana que passa pelas nossas estações de tratamento pode, em última análise, ter qualidade para fins potáveis», assume. Mas para produzir esta cerveja, «a água teve de passar por um processo de afinamento que habitualmente não realizamos». E o nome Vira não é ingénuo, «está relacionado com a necessidade de mudança de mentalidades e de comportamentos e de como devemos ser mais sensíveis às alterações climáticas».

Um programa para todos

Do programa deste ano, destacam-se os painéis dedicados à economia circular e à indústria 4.0. “A reutilização da água continua a ser um tema central tendo em conta as alterações climáticas e os episódios de seca extrema”, nota a Águas do Tejo Atlântico.

O evento contou ainda com sessões de networking e a atribuição de prémios aos vencedores do “Desafio da Inovação” 2019. Relativamente ao espaço expositivo, mais de quarenta de entidades partilharam os seus projetos mais inovadores com participantes.

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