O Sindicato Nacional de Bombeiros Profissionais (SNBP), liderado por Sérgio Carvalho, e a Associação Nacional de Bombeiros Profissionais (ANBP) emitiram um comunicado para dar conta do “caos total” instalado dentro do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa (RSBL). Estão “revoltados e tristes” com a falta de respostas na aquisição de fardamento e no reequipamento operacional do RSBL.
Em entrevista ao “Olhares de Lisboa”, Sérgio Carvalho faz um retrato cáustico da situação de “mais de 100 bombeiros profissionais”, que acabaram a formação e já estão a prestar serviço sem terem direito à “proteção adequada”, transformando-os em bombeiros “capacetes azuis” — o capacete de proteção que é usado durante a formação é da cor azul, idêntico ao utlizado pelas tropas da ONU.
Sérgio Carvalho refere que a situação “já se arrasta há 3 anos” e que a falta de repostas das entidades competentes torna a atividade de mais de uma centena de bombeiros profissionais recém-formados em algo “indigno”.
“Com as sucessivas tempestades a que temos assistido nas últimas semanas, onde os bombeiros são sempre os primeiros a irem para o terreno, é muito triste vermos estes profissionais a trabalharem sem equipamento de proteção, trabalhando em condições deploráveis, debaixo de chuva, ao frio, e de todo o tipo de agressões climatéricas, sem estarem protegidos por uma farda própria para a chuva e com capacetes velhos e mais do que gastos.”
Situação “insustentável”
Sérgio Carvalho afirma que, apesar de alertas repetidos, a Câmara não respondeu e que a situação “já passou todos os limites da tolerância”, referindo que essas situações têm sido repetidamente comunicadas à Câmara de Lisboa, mas “continuam sem resposta”.
“A situação é insustentável e está na altura do senhor presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, tomar uma decisão. Neste momento, não pode dizer que desconhece a situação”, alerta.
O representante sindical recorda a greve de novembro, suspensa após um encontro com o vereador da Proteção Civil, Rodrigo Mello Gonçalves (IL), mas que muitos problemas persistem.
Está em causa a falta de fardamento para mais de 10% dos cerca de 1.000 operacionais (incluindo fatos de chuva, roupa de frio e capacetes), uso generalizado de equipamento usado ou gasto, e viaturas sem câmaras térmicas há mais de um ano.
Há viaturas do RSBL que não têm câmaras de imagem térmicas “há mais de um ano”, denunciou ainda, referindo que este equipamento é essencial para a eficácia do socorro e segurança dos bombeiros, em particular na resposta a incêndios para encontrar vítimas em ambiente totalmente enfumados.
“Se morrer alguém num incêndio por falta de socorro, que é responsabilizado, os bombeiros?”, questiona.
Para Sérgio Carvalho, “isto, mais tarde ou mais cedo, vai-se refletir no socorro e já se reflete, com uma grande inoperância no serviço e na desorganização, porque nós não sabemos sequer qual é a organização do Regimento, dos efetivos, o que é que está previsto para o Regimento”, criticou.
“Desorganização interna”
O sindicalista sinaliza também “desorganização interna” dos próprios bombeiros profissionais de Lisboa, apontando o dedo ao 1º comandante do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa, que “sabe o que se passa”, mas “não tem feito nada para resolver a situação”, segundo Sérgio Carvalho.
Por outro lado, o líder do sindicato atribui responsabilidades “ao caos” registado dentro da instituição, que já está a provocar uma “insatisfação generalizada” entre o corpo de bombeiros sapadores de Lisboa, por via dos concursos de promoção de chefias “adiados há quase quatro anos, sem critérios claros nem número de vagas definido”.
“Há um desnorte total na organização interna do Regimento (…) havia o compromisso da Câmara de corrigir tudo isso”, reforça Sérgio Carvalho, lembrando que em novembro os bombeiros do RSBL avançaram com uma greve, que acabou por ser suspensa após uma reunião com o vereador da Proteção Civil, Rodrigo Mello Gonçalves.
Ao dia de hoje, diz Sérgio Carvalho, a situação “está exatamente igual”, apesar do vereador “ter sido informado em novembro”. E, se nada for feito, há o “risco efetivo” da próxima incorporação dos formandos “entrarem ao serviço sem fardas, porque aquelas que ‘sobravam’ já foram emprestadas aos bombeiros que terminaram o curso há pouco tempo”.
“Não é uma questão de dinheiro”
Sérgio Carvalho é bombeiro profissional do RSBL há 32 anos, mas diz que “nunca na minha profissional vi uma situação desta gravidade dentro da instituição”, pelo que “fico muito triste e revoltado” com “tudo aquilo que está a acontecer dentro do Regimento”. Até porque, reforça, “não é questão de falta de dinheiro do Regimento — os fatos custam uma centenas de euros e teriam um peso residual no orçamento — é mesmo falta de organização e de iniciativa”, reitera, concluindo: “Não podemos aceitar em pleno século XXI ver bombeiros do RSBL a prestar serviço à população de Lisboa mal fardados, mal equipados”.
Se nada for feito, os bombeiros ponderam emitir um pré-aviso de greve; a decisão será tomada em reunião geral possivelmente esta semana.




