Nascida a 18 de setembro de 1872, a Carris representou uma pedrada do charco no sistema de transportes de Lisboa. A memória coletiva da ligação umbilical da Carris ao desenvolvimento da cidade está patente no Museu da Carris. Como forma de celebrar o 27º aniversário do Museu, a instituição oferece a possibilidade de o visitante realizar uma viagem no tempo, que o “Olhares de Lisboa” acompanhou no dia 12 de janeiro, através da designada “Visita Memória”. No dia 17 de janeiro, estão previstas mais duas visitas guiadas.
A Carris é uma empresa cuja iconografia está intimamente relacionada com as últimas décadas da história da cidade de Lisboa. A história dos “amarelinhos” está documentada no Museu da Carris, com peças que remontam aos primórdios da empresa, documentos, fardas, material antigo e novo, como os obliteradores de bilhetes que deram fama aos “picas”, mas também as replicas de carruagens, que são a prova viva de uma empresa que nasceu para tornar a vida dos lisboetas mais facilitada.
Na época áurea da empresa, as instalações da Carris eram “uma pequena aldeia” dentro da cidade. Tinham supermercado, barbeiro, e todas as funcionalidades, apenas ao alcance de uma empresa “visionária”, sublinha Joana Gomes, do departamento museológico da Carris.
A técnica do Museu refere que, para celebrar o aniversário do espaço museológico, as comemorações deste ano têm como objetivo divulgar o acervo do Museu com as visitas guiadas, que são gratuitas mediante inscrição prévia, para os visitantes ficaram a conhecer a história de uma empresa que nasceu para “servir” a cidade, mas também satisfazer a curiosidade dos amantes dos transportes. Joana Gomes refere que o Museu da Carris é hoje uma “referência nacional” na área e que tem vindo a atrair “muitos portugueses”, mas também turistas estrangeiros.
“Temos muitos alemães e ingleses que sabem imenso da história da Carris e são visita frequente do nosso Museu”.
Empresa lisboeta criada no Rio de Janeiro
Fundada por dois transmontanos de Mirandela, o escritor Luciano Cordeiro de Sousa e o diplomata Francisco Maria Cordeiro de Sousa, emigrados no Brasil, nasceu quando os irmãos ousaram dotar a capital portuguesa de um sistema de transporte que já fazia sucesso pelo mundo, mas que ainda não tinha sido implementado em Portugal.
A Companhia Carris de Ferro de Lisboa foi fundada a 18 de setembro de 1872, no Rio de Janeiro. A intenção era implementar, em Lisboa, um sistema de transporte do tipo americano, com carruagens movidas por tração animal que se deslocavam sobre carris.
A descida dos primeiros “americanos” às ruas de Lisboa, carruagens movidas por tração animal que se deslocavam sobre carris, foi todo um acontecimento cultural na cidade. Figuras como Rafael Bordallo Pinheiro não quiseram ficar de fora da novidade e resolverem experimentar subir ao “americano”, segundo relatos dos jornais da época.
Ana Albino, filha de motorista da Carris e guia do Museu, explica ao grupo de visitantes que as primeiras carruagens eram “movidas” por dois cavalos e que, dado Lisboa ser considerada a cidade das “sete colinas”, tornou-se obrigatória a criação de um sistema de transporte que “facilitasse o trabalho dos cavalos”, uma vez que as carruagens transportavam 35 passageiros. Os irmãos Cordeiro de Sousa decidiram então pôr as carruagens sobre carris, para que as parelhas de equinos não sucumbissem face ao esforço de terem de mover o peso de 35 pessoas.
Também os elevadores e funiculares da cidade nasceram para contornar a configuração acidentada de Lisboa, uma cidade com ladeiras abruptas e declives acidentados, foi desde sempre um obstáculo à circulação de pessoas e bens entre as partes altas e baixa da cidade. Com o advento da tração mecânica, surge pela primeira vez a possibilidade de resolver o problema das “subidas e descidas acidentadas” de Lisboa, surgindo uma inovação mecânica que acabaria por revolucionar a mobilidade dos lisboetas: os elevadores e funiculares, que são hoje um dos ex-libris da cidade.
Ante as “certezas” que perduram entre os menos avisados, Ana Albino esclarece que o Elevador de Santa Justa “não foi projetado por Gustave Eiffel”. O Elevador de Santa Justa possui 45 metros de altura e é um trabalho do engenheiro português (de origem francesa) Raoul Mesnier de Ponsard, que foi, de facto, discípulo de Gustave Eiffel, o engenheiro responsável pela Torre Eiffel em Paris e muitas outras obras que fazem parte da história da engenharia mundial.
Ana Albino lembrou que a primeira linha então aberta ao público estendia-se entre a estação da linha férrea do Norte e Leste (Stª Apolónia) e o extremo do aterro da Boa Vista (Santos). Os direitos para a implantação deste novo sistema de transporte denominado Viação Carril e Vicinal e Urbana a Força Animal tinham sido obtidos, em janeiro do mesmo ano, pelo escritor Luciano Cordeiro Sousa e seu irmão Francisco Cordeiro de Sousa, diplomata.
De acordo com a guia, o Museu da Carris tem como missão preservar e conservar o seu valioso acervo e divulgar o papel do mesmo como parte integrante e imprescindível no desenvolvimento da cidade de Lisboa.
“Procura proporcionar uma emocionante viagem no tempo, contando histórias do quotidiano de um povo que ficam retidas na memória da cidade e dos veículos que a percorrem”.
Acervo histórico que estimula o conhecimento
Através do estudo e investigação do seu acervo, composto por veículos históricos (elétricos e autocarros) e peças relativas às áreas acessórias da empresa Carris, o Museu procura estimular o entusiasmo pelo conhecimento da cidade e dos transportes públicos, e ser uma ponte entre o seu presente, passado e futuro.
Joana Gomes disse, por seu lado, que a história da Carris reflete o seu contributo para a cidade de Lisboa. Desde 1872 que a Carris presta um forte contributo para o crescimento de Lisboa, cidade que, ao longo dos tempos, “se desenvolveu ao ritmo da evolução do seu sistema de transportes públicos”.
Esta memória está patente no Museu da Carris que oferece a possibilidade de o visitante realizar uma viagem no tempo, através de um vasto acervo, que integra fotografias, uniformes, títulos de transporte, equipamento oficinal, elétricos e autocarros, entre muitos outros documentos e objetos de grande interesse histórico.
O grupo de visitantes mostrou um grau de conhecimento e de participação só ao alcance daqueles que estão realmente interessados em aprender mais sobre a história desta empresa centenária. Os visitantes questionaram, mostraram conhecimento e saber que muito enriqueceram a iniciativa, reconheceu Ana Albino.
Para terminar a visita, fizeram uma pequena viagem dentro das instalações da Carris num elétrico próprio para o efeito e que está afeto ao Museu da Carris.
No sábado, dia 17 de janeiro, o Museu organiza duas visitas gratuitas, mediante inscrição prévia e com lotação limitada a 24 participantes por visita. Às 11h, realiza-se a Visita Sonora, destinada a famílias com crianças até aos 6 anos, e às 16h, a Visita Orientada, para maiores de 6 anos.



