“Melhor projeto urbanístico da Europa” vai nascer no terreno da antiga Feira Popular

Megaprojeto imobiliário está a transformar os terrenos da antiga Feira Popular num centro urbanístico que promete atrair para aquela zona da cidade “uma nova centralidade”. O promotor realça que o projeto não se fecha sobre si mesmo e que está a “fazer cidade”. O empreendimento estará segmentado em três grandes eixos: escritórios, habitação e retalho. O Banco de Portugal foi o primeiro grande cliente a deslocar a sua sede para o EntreCampos.

Nos anos 2000, numa decisão que gerou grande controvérsia, o então presidente de Câmara de Lisboa, Pedro Santana Lopes, desmantelou a Feira Popular de Lisboa. Os anos foram passando e aquilo que antes era um espaço de convívio das famílias lisboetas (e de todo o país) ficou ao abandono anos a fio.

Em maio de 2018, Fernando Medina, então presidente de Câmara de Lisboa, apresentaria um projeto, denominado “Operação Integrada de Entrecampos”, que previa reabilitar um espaço que estava “entaipado” e sem solução à vista. Anunciaria um investimento previsto que rondaria os 800 milhões de euros, 100 dos quais responsabilidade municipal, e que iria permitir a criação de 15 mil empregos.

Fernando Medina consideraria que este projeto seria “uma das maiores operações urbanísticas que a cidade de Lisboa conheceu nas últimas décadas”, acrescentando que esta é “uma oportunidade para oferecer à cidade aquilo que ela necessita” e “resolver os seus problemas”, salientou.

Mas a “Operação Integrada de Entrecampos” não avançaria no último mandato do autarca socialista, por divergências com a oposição, que considerava que o projeto “violava o Plano Diretor Municipal”.

E foi já na governação de Carlos Moedas que os terrenos da antiga Feira Popular foram ocupados pela maquinaria pesada para arrancar com as obras.


Numa decisão não menos polémica, o atual presidente de Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, decidiu dar uma nova vida ao espaço, comercializando o terreno em hasta pública, sendo vendido a uma empresa seguradora, após “ter levantado o braço umas 300 vezes” para licitar a propriedade por cerca de 273 milhões de euros, reconheceu, bem-humorado, o administrador Miguel Santana, da Fidelidade Property (empresa responsável pela gestão do investimento imobiliário do grupo Fidelidade), a companhia que comprou o terreno.

Volvido ¼ de século, o terreno, onde esteve localizada a Feira Popular de Lisboa, mas também uma Feira de Gado (nos anos de 1950), já está a ser revitalizado com um projeto urbanístico que promete transformar aquela zona da cidade, dando-lhe uma nova centralidade.

Empreendimento “fundido” com a cidade

O projeto “EntreCampos” foi oficialmente apresentado, no dia 4 de fevereiro, numa sessão púbica que contou com empresários e “investidores”.

Miguel Santana, administrador da Fidelidade Property, não tem dúvidas quanto ao impacto deste novo empreendimento imobiliário na cidade, destacando que o complexo urbanístico “afirma-se como um dos maiores e mais ambiciosos projetos imobiliários desenvolvidos em Lisboa nas últimas décadas”, sendo “melhor projeto urbanístico da Europa.

Segundo o responsável, o projeto nasce com o objetivo de criar uma nova centralidade urbana, mas foi “pensado para viver, trabalhar e usufruir da cidade de forma integrada e sustentável”, devolvendo à cidade um espaço que esteve abandonado durante mais de 20 anos.

Para Miguel Santana, este novo empreendimento foi concebido “numa lógica de total fusão com a cidade”, apostando “numa forte abertura ao espaço público e à comunidade”, contando, para isso, com múltiplas zonas de passagem e interligação com a malha urbana existente.

Escritórios, habitação e retalho   

O empreendimento está segmentado em três áreas: habitação, escritório e retalho (zona comercial). No global, o projeto compreende sete edifícios de escritórios, três edifícios residenciais e um “inovador conceito de street curated retail”, que integra restauração, lazer e comércios, complementados por jardins e praças públicas, “pensados para serem vividos sete dias por semana, do início ao fim do dia”, perfazendo o objetivo de “fazer cidade”, segundo Miguel Santana.

O responsável sublinha que a localização privilegiada, num dos pontos da capital melhor servido de transportes e a “forte aposta em espaços verdes”, que promovem a biodiversidade e criam “diferentes ambientes integrados no ecossistema local”, “reforçam a ambição do projeto de se tornar “um novo polo urbano de referência” em Lisboa.

Um bairro pioneiro

Tendo a sustentabilidade e o envolvimento comunitário no seu cerne, EntreCampos “está a estabelecer novos padrões para o desenvolvimento de bairros em grande escala a nível europeu”.

Miguel Santana vai mais longe e diz mesmo que o empreendimento, que “é um projeto nacional pensado à escala global”, pode ser já considerado como um dos bairros “mais vanguardistas e visionários” da Europa continental – foi galardoado com o prémio “Best New Mega Development”, nos MIPIM Awards de 20225 (os “óscares” do imobiliário), tendo sido o único projeto português a vencer esta distinção internacional.

Devido ao uso extensivo de energia geotérmica e solar em todo o projeto, às estratégias hídricas sustentáveis, à incorporação de tecnologias inteligentes e preparadas para o futuro, aos amplos espaços verdes públicos e terraços, e às iniciativas comunitárias de grande escala, comodidades e envolvimento público, o EntreCampos já tem o reconhecimento dos organismos líderes de certificação, incluindo USGBC e WiredScore.

700 casas de renda acessível, mas fora do perímetro privado

Este empreendimento divide-se entre as componentes de escritório, retalho e residencial. Os primeiros serão distribuídos por sete edifícios que vão ocupar uma área de 140 mil metros quadrados. Já a zona de retalho terá uma área de 20 mil metros quadrados. A vertente residencial será composta por três edifícios com 249 apartamentos numa área de 28 mil metros quadrados para investimento privado.

No contrato ficou previsto o promotor integrar a Operação Integrada de Entrecampos, gerida pela SRU Lisboa Ocidental, uma Sociedade de Reabilitação Urbana criada pela Câmara Municipal de Lisboa para planear, gerir e executar operações de reabilitação urbana naquela parte específica da cidade. O projeto, reflexo da integração na Operação Integrada de Entrecampos, inclui a construção de 700 fogos afetos ao Programa de Renda Acessível construídos fora da área privada do EntreCampos.

O arranque das obras deu-se em 2024 com a nova sede da seguradora a ser responsável por 70% da ocupação de um dos edifícios, estando os restantes 30% já ocupados por outras entidades, que por questões de confidencialidade não podem ainda ser reveladas.

As perspetivas são para que os sete edifícios de escritórios fiquem arrendados até à conclusão do projeto, sendo que um deles poderá atingir esse objetivo no final do próximo ano.

Em relação à ocupação, o primeiro comprador de edifícios foi o Banco de Portugal (BdP), que investiu um total 235 milhões, abrangendo obras estruturais e outras despesas, e tem conclusão da obra prevista para o final de 2027, quando o BdP abandonar as quatro instalações que tem dispersas por Lisboa.

Habitação com selo de qualidade

Nas palavras de Miguel Santana, os edifícios de habitação são assinados pelos “dois melhores arquitetos do mundo”: Souto Moura e Siza Vieira, em colaboração com Ana Daciano da Costa. No total serão 249 apartamentos, no total de 28 mil m2, a comercializar por fração e com entrega prevista para 2028, na data em que se prevê a inauguração do empreendimento.

Questionado pelos jornalistas sobre os preços dos apartamentos, Miguel Santana preferiu não revelar os valores, até porque “ainda estão em avaliação interna”, mas adiantou que os preços dos arrendamentos das lojas, por exemplo, irão corresponder ao setor “premium +” que está a ser praticado no setor imobiliário na cidade de Lisboa.

Jacarandás e espaço público debaixo da alçada da CML

O abate de dezenas de jacarandás, no ano passado, gerou um clima de revolta da parte de alguns setores da população. Questionado sobre as medidas a tomar para “proteger” os jacarandás, o administrador revela que a “gestão e as decisões” sobre o espaço público do empreendimento cabem inteiramente ao Município de Lisboa, mas assume que a empresa “cumprirá” todas as diretivas e decisões emanadas da autarquia a propósito das árvores que se transformaram numa das imagens de marca de Lisboa.

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