Moradores do lote 540 denunciam “situação deplorável” do prédio

Uma moradora de Marvila usou da palavra numa reunião de câmara de Lisboa para denunciar “a degradação habitacional do lote 540”, no Bairro do Condado. A Comissão de Moradores de Marvila responsabiliza o “senhorio”, a CML, pelo protelar de uma requalificação urgente dos lotes de habitação municipal de Marvila. A Gebalis atribui as responsabilidades do estado de degradação geral do prédio a “atos de vandalismo”.

No dia 12 de dezembro de 2025, os moradores do lote 540 tivemos uma reunião dentro do lote, localizado na Avenida João Paulo II, organizado pela Comissão de Moradores de Marvila do Bairro do Condado e seu representante, Alexandre Teixeira, com os representantes dos partidos: João Ferreira (CDU), Carolina Serrão (Bloco de Esquerda), Sérgio Cintra (PS) e Filipe Silva (Chega), contando ainda com José Martins (PCP) e João Albuquerque (PCP), representantes da Junta de Freguesia de Marvila.

De acordo com a moradora Fabiana Gonçalves, que expôs a situação ao presidente de Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, em reunião de câmara, o objetivo do encontro dos moradores com os representantes partidários foi dar a conhecer “a situação deplorável” do prédio do lote 540.

Na intervenção pública, a moradora alertou para “a falta de higiene (não por culpa dos moradores)”; as “falhas constantes na eletricidade do prédio”; mas também para a falta de segurança, pois “não temos porta de entrada e campainhas a funcionar”; a situação de elevadores “que falham constantemente”; a “falta de manutenção no prédio” e as graves “infiltrações nas casas”.

Mais grave ainda, segundo Fabiana Gonçalves, por falta de porta de entrada e de campainhas, pessoas estranhas pernoitam dentro do prédio, comem, bebem, “fazem as suas necessidades e assustam os moradores”. Para além disso, os intrusos “sujam tudo” e deixam o imóvel camarário “numa lástima, está tão sujo que nem os moradores conseguem limpar, mesmo que queiram”.

Ainda de acordo com o depoimento de Fabiana Gonçalves, no 5º andar, “há um tubo de gás saliente, que se alguém lhe mexer ou der uma pancada pode rebentar ou abrir. É em esse mesmo andar que quem frequenta o prédio indevidamente vem fumar”.


A casa do lixo em frente aos elevadores no R/C, “está toda suja, mas o portão está trancado, pois a Gebalis quando cá esteve, viu a situação, trancou a porta e levou as chaves.”

Há infiltrações nas paredes e nos patamares, com marcas que assustam os moradores, “pois temos medo de que um dia desabe (de vez em quando cai uma lasca do piso de cima), quando chove, o prédio fica inundado e quem passar tende a cair das escadas (já aconteceram vários acidentes)”, revela a moradora num 8º andar — onde só chega um dos elevadores e que o outro trabalha de forma intermitente –, doente crónica e que vive com mãe idosa, que padece de doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), doença cardíaca e é diabética.

Segundo o depoimento da queixosa, as luzes estão sempre a falhar, principalmente quando chove, “e o prédio fica tão escuro à noite que mal vemos onde colocamos os pés. Por conta da escuridão, ficamos com medo de sermos assaltados”, ainda para mais tendo presente que os intrusos podem entrar a qualquer hora no edifício.

Fabiana Gonçalves relatou que os problemas nos elevadores são uma constante. “Sempre houve falhas nos elevadores, apesar de estar um a funcionar desde dezembro, estamos sempre à espera que ele pare, pois já é habitual ficarmos sem ele. Desde que vivo no prédio, há 7 anos, nunca vi o elevador da direita trabalhar, há vizinhos que dizem que não funciona há mais de 10 anos. O técnico que veio arranjar o elevador da esquerda, disse que o da direita já está apto para trabalhar, porém precisa de inspeção por parte da Gebalis, mas, como sempre, a Gebalis diz que vai reportar a situação, mas não faz nada”.

Idosos e doentes “reféns” nas próprias casas

Fabiana Gonçalves lembra que neste prédio vivem idosos, crianças, animais, grávidas e pessoas com incapacidades. “No 7° e 8º andar, quase todas as pessoas têm dificuldade em sair de casa quando não há elevador”, uma vez que se tratam de pessoas idosas (um dos moradores “tem 90 anos”) e com um quadro clínico de várias doenças crónicas e incapacitantes, vendo-se na obrigação de subir as escadas para chegar a casa.

“No dia 29 de outubro de 2025, a minha mãe foi parar ao hospital de ambulância com um princípio de AVC e foi obrigada a descer as escadas com os bombeiros. Na semana anterior tinha acontecido exatamente a mesma coisa. Ficou 2 semanas internada com um quadro de doença pulmonar, esteve ligada ao oxigénio durante o internamento. E, por mais que eu tenha reportado à Gebalis, a minha mãe foi obrigada a subir de escadas até ao 8º andar”, lamenta.

Na mesma altura do internamento da mãe da denunciante, um vizinho do 8ºA também esteve no hospital e foi operado, “e teve que subir as escadas”.

Segundo as palavras da moradora, há várias casas com infiltrações que estão a alastrar “por todas as paredes”, como é o caso da habitação de Fabiana Gonçalves, há prédios com “janelas a cair”, pelo que a moradora do 8ºA do lote 540 pede “encarecidamente” ao presidente da Câmara de Lisboa, “que faça alguma coisa antes que haja um acidente”.

“Os moradores então cansados de esperar que a Gebalis faça alguma coisa, pois a mesma ignora todos os pedidos de socorro que recebe. Peço encarecidamente que faça alguma coisa antes que haja um acidente. Estou a pedir ajuda para a segurança de todos”, sublinha.

Elevadores parados

Apesar dos apelos e dos argumentos apresentados pela moradora ao Executivo da CML durante a reunião de câmara, aparentemente, a situação continua por resolver.

Fabiana Gonçalves contatou hoje o “OL” para fazer novas advertência, alegando que no dia 31 de janeiro de 2026, “voltámos a ficar sem elevador no lote 540 na Avenida João Paulo II”.

“Durante a minha intervenção na Câmara Municipal de Lisboa, eu disse que a qualquer momento iríamos ficar sem um único elevador no prédio, pois a validade dele era muito curta. Ontem, dia 31, foi o último dia dele. Durante a manhã, dois dos meus vizinhos usaram o elevador, mas, infelizmente ficaram lá dentro presos, pois o elevador simplesmente deixou de trabalhar”.

Fabiana Gonçalves explica que o seu vizinho do 7°B viu que o elevador parou e chamou de imediato os bombeiros para retirar as pessoas lá de dentro.

“De momento estamos sem elevadores. Um encontra-se desligado e avariado e o outro encontra-se sem trabalhar à espera da inspeção. Até quando é que vamos continuar assim? Até quando é que vamos ser obrigados a chamar os bombeiros por conta das avarias e ‘arranjos’ recorrentes?”, questiona.

“Remendos” não resolvem problemas estruturais dos prédios

A Comissão de Moradores de Marvila defende que “tem o dever de dar a conhecer realidades sociais que se querem ocultar”. Em conversa com o “OL”, o presidente da Comissão de Moradores de Marvila, José Martins, confirma a avaria de ambos os elevadores, sublinhando que a população “já está há demasiado tempo à espera de uma intervenção da Câmara nos prédios de que o Município é o próprio senhorio”.

À semelhança da moradora denunciante, José Martins salienta que “há riscos vários” para os vizinhos e que os “arranjos” encomendados pela Gebalis “são meros remendos”, que não consertam “coisíssima nenhuma”, já que os problemas relatados estão relacionados “com a idade dos prédios e da falta de manutenção” a que estarão a ser votados ao longo dos anos.

Num caso semelhante ocorrido no ano passado, a Gebalis, contactada pelo “OL”, alegaria que as críticas dos moradores não corresponderiam à realidade, uma vez que estaria a fazer um forte investimento na habitação camarária da cidade de Lisboa. No caso concreto dos elevadores, a Gebalis explicaria que estes já eram bastante antigos e que não haveria a disponibilidade desejada de peças no mercado para os reparar.

José Martins assume que até entende a “explicação da Gebalis” relativamente à falta de peças para substituir as danificadas, mas não aceita “mais desculpas”, apontando o dedo diretamente à inoperância reiterada da empresa que gere o parque habitacional municipal. “A Gebalis recebe-nos e diz que vai resolver os nossos problemas. Manda para cá alguém, que faz uns remendos, que, obviamente, são sol de pouca dura, porque os prédios precisam de uma requalificação de fundo e não de pequenos consertos para disfarçar problemas estruturais”, anota.

O dirigente sustenta, no entanto, que a “maior responsabilidade” pelo reiterar dos danos nos prédios de Marvila “é do senhorio, a CML”. “Falam que vão investir milhões e milhões, mas a situação continua sem resolução. O senhorio tem a obrigação de zelar pela manutenção das casas. Até porque as pessoas (de fora) pensam que as rendas são muito baixas, mas há muita gente a fazer o esforço de pagar mensalidades de 400 ou 500 euros, que já é assim tão pouco, e que merecem viver em casas com dignidade”, conclui.

Gebalis diz que o prédio é alvo de “atos de vandalismo”

Em resposta a um pedido de esclarecimento enviado pelo “OL”, a Gebalis refere que as ocorrências dentro do lote 540 serão derivadas de “atos de vandalismo”.

“Confirmam-se situações frequentes de má apropriação dos espaços comuns, nomeadamente depósitos de monos e lixo doméstico em patamares, recantos e zonas técnicas. Existem registos de atos de vandalismo, incluindo arrombamento de gradeamentos”, defende a empresa municipal, acrescentando que “há registo de 6 queixas crime relativas a vandalismo e má apropriação”.

Segundo a Gebalis, têm sido realizadas intervenções regulares para garantir a correta apropriação e uso dos espaços, “assegurando recolha de objetos, limpeza e higienização”.

O prédio, juntamente com o Lote 542 (devido à entrada comum), integra desde este ano o Programa Lotes ComVida, cujo objetivo principal é promover a organização coletiva dos lotes municipais, envolvendo moradores, a Gebalis e parceiros locais na gestão dos lotes.  O programa promove a participação ativa e corresponsabilização dos moradores na manutenção e valorização dos espaços comuns, limpeza, conservação e melhoria dos edifícios e lotes.

Os moradores alegam que os elevadores deixaram de funcionar. Mas a Gebalis contradiz esta informação, alegando que o “elevador 1 está em funcionamento”, sendo que o elevador que não está a funcionar “apresenta atos de vandalismo, que inviabilizam o funcionamento das botoneiras (painel de controle interno do elevador)”.

“Teve todos os botões colados com supercola e ainda dois botões de patamar igualmente colados”, situação que, entretanto, “ficou resolvida”.

A Gebalis confirma que, no dia 2 de fevereiro, o elevador nº 1 ficou parado por resgate efetuado pelos Bombeiros, tendo sido posto em funcionamento após o incidente, mas a “botoneira de patamar no 7º piso sem funcionamento por curto-circuito”.

No dia 4 de fevereiro, o elevador nº 1 esteve parado no 7º piso, por um problema da botoneira, “danificada por contacto com água (curto-circuito)”, mas a avaria terá sido retificada e o elevador nº 1 “ficou em funcionamento”, segundo a Gebalis.

Quanto ao elevador nº 2, a companhia municipal confirma que o equipamento “está selado” e que “já se encontra em intervenção”, estando a previsão de reparação apontada para “o dia 13 de fevereiro”.

Quanto à falta de uma porta na entrada do prédio, referida pelos moradores como uma das causas principias do estado de degradação geral do lote 540, a Gebalis não emitiu qualquer esclarecimento.

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