António José Seguro é o novo Presidente da República portuguesa, segundo as projeções da Universidade Católica para a RTP divulgadas ao início da noite deste domingo. A sondagem à boca das urnas dá 68 a 73% dos votos a Seguro e 27 a 32% a André Ventura. Se as projeções se concretizarem, é uma votação histórica: Seguro será o candidato mais votado de sempre (mesmo com 68%) num primeiro mandato, à frente mesmo de Ramalho Eanes, em 1976, aproximando-se do resultado conseguido por Mário Soares.
António José Seguro será o novo Presidente da República de Portugal, indo ocupar a partir de 9 de março o Palácio de Belém. As três sondagens à boca das urnas da segunda volta das eleições presidenciais de 2026 estimam a vitória do ex-líder socialista com mais de o dobro da votação de André Ventura.
O candidato apoiado pelo PS lidera todas as estimativas, podendo ultrapassar os 70%, segundo as projeções.
Enquanto a projeção dos resultados da segunda volta foi recebida com uma explosão de entusiasmo no Centro Cultural das Caldas da Rainha, onde decorre a noite eleitoral do António José Seguro, na sede de campanha de André Ventura, a reação à projeção da RTP foi de silêncio quase sepulcral, muito distinto de qualquer outra noite eleitoral do Chega, onde as projeções são por norma seguidas de aplausos e entusiasmo.
Pedro Pinto, líder parlamentar do Chega, reagiu às projeções assumindo que “esta segunda volta não vai ter grande história” e “está praticamente decidida”, embora tenha congratulado Ventura por ir “à segunda volta” e pelo partido ter sido “o grande vencedor da direita em Portugal”. “Os resultados são o que são, cabe a nós aceitá-los. Os portugueses perderam uma grande oportunidade de mudança”, afirmou o deputado.
Quem é António José Seguro
António José Martins Seguro nasceu a 11 de março de 1962 em Penamacor. Licenciado em Relações Internacionais, pela Universidade Autónoma de Lisboa, e mestre em Ciência Política, pelo ISCTE-IUL, é casado e tem dois filhos.
Em criança gostava de brincar ao peão e com berlindes, e com um jogo de futebol, numa tábua de madeira com pregos, feita por um marceneiro de Penamacor.
Ainda hoje mantém ligações à terra natal que lhe atribuiu a Medalha de Ouro da Vila de Penamacor e o estatuto de Cidadão Honorário do Concelho de Penamacor. Depois de fazer parte do jornal da escola, fundou e foi diretor do jornal “A Verdade de Penamacor” e com o primo Jorge Seguro Sanches, criou a associação cívica, Geração 2000.
Foi ainda colunista do semanário Expresso, cujos artigos estão compilados num dos seus livros – “Compromissos para o Futuro” -, e é também autor do livro “Reforma do Parlamento Português – O controlo político do Governo”.
Influência de Guterres
Líder da Juventude Socialista (JS) entre maio de 1990 e março de 1994, Seguro começou a aproximar-se da cúpula do poder socialista quando, no início de 1992, António Guterres bateu Jorge Sampaio na corrida ao lugar de secretário-geral do PS.
“Com António Guterres, o PS será mais fixe”, declarou a 10 de janeiro de 1992, vincando a sua preferência entre os dois candidatos.
E foi, precisamente, pela mão de Guterres, que se deu a ascensão do jovem ‘trintão’: desempenhou as funções de chefe de gabinete do secretário-geral, foi eleito diretamente deputado nas legislativas de 1991 e, a partir de 1994, fez parte da Comissão Permanente do Secretariado Nacional – o núcleo duro do “guterrismo”.
Com a vitória do PS nas legislativas de outubro de 1995, Seguro assume as funções de secretário de Estado da Juventude, cargo do qual sairia para se candidatar, no segundo lugar da lista dos socialistas, às europeias de 1999, atrás do cabeça-de-lista, Mário Soares.
Os mais próximos são unânimes em considerar que as influências de dez anos de convivência permanente com Guterres marcaram a sua forma de estar na política e a explicar o facto de Seguro perder horas em conversas com militantes anónimos, falar nos afetos (contra a racionalidade estrita) nas relações políticas e apresentar uma visão telúrica da vida.
A sucessão a Sócrates
Em 2004, esteve em vias de disputar a liderança do partido com José Sócrates, mas, segundo relatos de socialistas de várias correntes, Jorge Coelho, o então homem forte do aparelho, pediu-lhe para esperar.
Durante a governação de Sócrates, Seguro esteve sempre na segunda linha, apesar de ter sido cabeça-de-lista por Braga nas eleições legislativas de 2005, 2009 e 2011 e presidente das comissões parlamentares de Educação e de Economia, além de ter coordenado a reforma do Parlamento em 2007.
Esperou pela saída de cena de Sócrates, grande parte do tempo em silêncio, evitando fazer críticas em público à direção em funções, embora fossem conhecidas as suas divergências.
Em 2011, avançaria mesmo para a campanha interna para a liderança do PS que o levou ao lugar de secretário-geral ao vencer a disputa com Francisco Assis. No cargo se manteve até setembro de 2014, na sequência da derrota das eleições primárias contra António Costa.
“Qual é a pressa?” é uma das frases que mais colada à pele lhe ficou, uma resposta aos jornalistas em janeiro de 2013 sobre quando é que a sua direção tencionava propor uma data para a realização do congresso do PS.
Interregno de uma década
Depois dos vários cargos políticos e partidários que ocupou, a derrota frente a Costa abalou Seguro e este decidiu afastar da vida política ativa e remeter-se apenas à condição de “militante de base”.
Durante a última década, esteve – e continua – dedicado às aulas na universidade, mantendo-se praticamente em silêncio sobre questões políticas. Ainda assim, abriu algumas exceções.
Ao longo dos últimos meses, Seguro nunca quebrou o tabu, foi afirmando apenas que a ponderação continuava e recusou que lhe impusessem prazos, mas fazia já várias palestras e conferências um pouco por todo o país, tendo lançado em janeiro o “Movimento UPortugal” para “contribuir para a participação cívica dos portugueses”.
E, chegados ao dia em que o novo Parlamento iniciou funções, Seguro desfez as dúvidas e anunciou que iria ser candidato à sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa, sem esperar pelo apoio do PS que haveria de chegar meses mais tarde.
Apoio do PS
Moderação, consenso e compromissos são palavras que usa frequentemente para qualificar a sua forma de estar na política e na vida e, quando confirmou que ia ser candidato, defendeu que Portugal precisa de “mudança e esperança numa vida melhor” e deixou um recado a um adversário em particular.
“Afastei-me quando podia dividir, volto agora para unir. Sei o que está em jogo e sei como defender Portugal com firmeza e respeito. Não preciso de aprender no cargo, chego preparado”, assegurou no discurso de apresentação da candidatura à Presidência da República.



