Morreu António Lobo Antunes, o escritor que arrastou o Portugal dos naperons e do pechisbeque para dentro da literatura. António Lobo Antunes morreu esta quinta-feira, 5 de março, aos 83 anos. Crónico candidato ao Prémio Nobel, poisou as canetas e os lápis com que escrevia à mão sem ter vencido o mais importante prémio da literatura mundial. Mas os seus 30 romances e centenas de crónicas ficam para o legado da Humanidade.
O Presidente da República lamentou hoje a sua morte, anunciando que vai depositar junto dele o grande-colar da Ordem de Camões.
Em reação à morte do escritor, Governo decretou luto nacional para sábado e o Presidente da República homenageia escritor com grande-colar da Ordem de Camões, a título póstumo.
Considerado como um dos maiores escritores da literatura contemporânea, António Lobo Antunes publicou mais de três dezenas de romances e é considerado um dos maiores escritores da literatura portuguesa contemporânea.
Autor de “Os Cus de Judas” e de uma das obras mais marcantes da ficção portuguesa, foi durante décadas apontado como candidato crónico ao Nobel da Literatura. Numa tirada feita ao jornalista João Céu Silva, que escreveu a sua biografia, o escritor desvalorizou “os prémios nóbeis”, dizendo mesmo, insistindo para “pôr na entrevista”, que se “estava a cagar para os prémios nóbeis…”
O veterano da Guerra Colonial
Depois de concluir o curso de medicina, António Lobo Antunes teria a experiência mais marcante da sua vida: a participação na Guerra Colonial do Ultramar. Muitos dos seus livros e dos seus tormentos públicos, confessados em crónicas publicadas na imprensa ao longo de décadas, refletiam os traumas (e as injustiças) da Guerra Colonial, vivida na primeira pessoa em Angola, entre 1971 e 1973, como médico de uma companhia do exército português. Destes dois anos, vividos longe da família e de tudo o que conhecera até então, nasceriam algumas das suas principais obras literárias, como o Memória de Elefante, publicado em 1979, e que funcionou como uma verdadeira pedrada no charco no panorama intelectual do pós-25 de Abril por falar de soldados semianalfabetos, combatentes perdidos numa guerra sem sentido, morte, amputações a sangue frio, solidão, mas também de camaradagem castrense.
Móveis que rangem à noite e naperons de renda
Com o escritor permanentemente debruçado numa janela donde podia observar a alma portuguesa, os livros de Lobo Antunes (e as crónicas) estão cheios de móveis que estalam à noite, de naperons em cima da televisão, de prostitutas desdentadas, de ex-legionários com placas de metal na cabeça, de personagens cujo mais fiel aliado é a solidão.
“A solidão mede-se pelos estalos dos móveis à noite, quando a poltrona em que me sento de súbito desconfortável, enorme, e os objetos aumentam nos napperons, inclinados para mim, a escutarem (…)”, escreve ALA no seu último livro O Tamanho do Mundo.
Lobo Antunes era também conhecido pela proverbial arrogância com que (des)tratava os seus pares e o mundo da “pequena” intelectualidade lusa.
O homem que admitia “falar com o Santo António”, quando estava aflito, foi homenageado inúmeras vezes e ao longo de toda a sua longa carreira. Recebeu o Jerusalem Prize 2005, pelo conjunto da sua obra, mas também o Prémio Ibero-Americano de Letras José Donoso (Chile, 2006), o Prémio Camões, o mais importante em língua portuguesa (2007) e, em 2008, os prémios Terenci Moix (Espanha) e FIL de Literatura/Juan Rulfo, um dos mais importantes do panorama literário latino-americano.
Lisboa está de luto
A cidade de Lisboa acordou com a notícia do desaparecimento de um dos seus filhos pródigos e já reagiu à morte do escritor lisboeta. Em comunicado, a Câmara Municipal de Lisboa manifesta “o seu mais profundo pesar pelo falecimento de António Lobo Antunes, um dos maiores escritores de língua portuguesa e da literatura contemporânea”, e decreta Luto Municipal em sua homenagem.
“Tivemos a sorte e o privilégio de viver no tempo de António Lobo Antunes. Tivemos a sorte e o privilégio de ver o fruto da sua obsessão pela escrita. Tivemos a sorte e o privilégio de ver nele o maior intérprete do Portugal do nosso tempo: do fim do império, da experiência da guerra, da psicologia tão complexa deste nosso velho país”, afirma o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, na sua mensagem de condolências.
“Não tenho dúvidas de que Lobo Antunes faz hoje parte da rara aristocracia da literatura mundial, onde estão os grandes mestres que nos habituámos a admirar. Hoje só podemos dizer, com orgulho, que fomos a cidade e a pátria de António Lobo Antunes”, conclui Carlos Moedas.
O Luto Municipal é decretado para o dia 7 de março, com a consequente colocação da Bandeira do Município a meia haste em todos os edifícios e equipamentos municipais.
Com o seu desaparecimento, cala-se a voz dos vencidos da vida, dos que se aninham nos cantos tristes da pátria, daqueles que usam pechisbeque e têm naperons de renda em cima dos televisores e da cama.
Foto: Editora Dom Quixote



