Dono da Mercadona pede IVA Zero no cabaz alimentar face à escalada do conflito no Médio Oriente

A cadeia espanhola de supermercados Mercadona teve lucros de 26 milhões de euros em Portugal em 2025 e mais do que triplicou o resultado do ano anterior, anunciou o presidente da empresa. O retalhista espanhol defende que, face à escalada do conflito do Médio Oriente, os Governos de Portugal e de Espanha deveriam voltar a estabelecer o IVA Zero no cabaz alimentar de bens essenciais.

Com um aumento recorde dos seus índices de produtividade, gestão e eficiência, a Mercadona alcançou, em 2025, “o seu melhor resultado em termos de rentabilidade e aumentou o seu lucro líquido em 25%, para 1.729 milhões de euros”, declarou Juan Roig, em conferência de imprensa, o presidente do conselho de administração do grupo Mercadona, em Valência, onde a empresa tem a sede, os resultados anuais referentes ao exercício de 2025.

Mercado português triplicou lucros

O patrão deste retalhista espanhol, que é líder de vendas no setor dos supermercados no país vizinho, declarou que no ano passado a empresa atingiu, em Portugal, um volume de vendas de 2.092 milhões de euros e registou um lucro de 26 milhões de euros.

A nível do grupo, a empresa atingiu, no ano de 2025, um volume de vendas de 41.858 milhões de euros e um lucro de 1.729 milhões de euros.

Desta faturação consolidada, 2.092 milhões de euros correspondem ao negócio em Portugal, um mercado no qual o retalhista tem dado especial atenção, tendo criado 500 postos de trabalho em Portugal, em 2025, num universo ibérico que alcança os 115.000 funcionários entre Portugal e Espanha, com os quais partilhou mais de 1.000 milhões de euros em melhorias na jornada de trabalho, prémios variáveis e aumento salarial de acordo com o IPC. A Mercadona tem agora 7.500 pessoas a trabalhar no país, o único em que está presente fora de Espanha.

Desde 2019, ano que marca a abertura da primeira loja em Portugal, a empresa já investiu um acumulado de mais de 1.230 milhões de euros e, neste segundo ano em que registou resultado positivo no país, atingiu os 26 milhões de euros de lucro líquido, triplicando os lucros relativamente ao ano anterior.

Além de 70 lojas, a Mercadona tem dois centros logísticos em Portugal e um deles, em Almeirim, inaugurado no ano passado, é o maior de todos os que a empresa tem em toda a Península Ibérica.

No ano passado, o investimento total em Portugal ascendeu a 140 milhões de euros e, desde 2019, já superou os 1.230 milhões, segundo dados hoje, dia 10, divulgados pelo CEO da empresa.

A Mercadona tem cerca de 1.000 fornecedores em Portugal, a quem comprou 1.500 milhões de euros no ano passado, segundo a empresa, que assegura comprar 85% de todos os produtos a fornecedores da Península Ibérica.

Juan Roig revelou que a empresa estima passar a lucros de entre 45 e 50 milhões de euros este ano em Portugal e vai inaugurar 12 supermercados novos no país ao longo do ano, expandindo-se a quatro novos distritos — Até 2022 as contas foram negativas, tendo os prejuízos desse ano atingido os 50 milhões de euros. Só em 2024 é que a cadeia de supermercados ganhou dinheiro pela primeira vez em Portugal.

Portugal com resultados “extraordinários”

Em comentário aos resultados de 2025 em Portugal, Joan Roig admitiu: “São resultados extraordinários”, referindo estar “muito satisfeito” com os resultados em Portugal, embora, considere que “ainda falta conhecer muito mais sobre país”.

A Mercadona vai chegar este ano ao Algarve, “depois do verão”, afirmou Juan Roig, que confirmou não estar previsto, para já, aberturas de supermercados nas ilhas.

Quanto a lojas online, a Mercadona pondera avançar para este segmento em Portugal, mas não tem ainda uma data.

O investimento previsto para Portugal este ano são 150 milhões de euros.

Depois de admitir que a companhia tem no horizonte “ser mais portuguesa”, Juan Roig sublinhou que a atividade e expansão da Mercadona em Portugal é “cada vez melhor”, mas que a empresa precisa ainda de “conhecer mais e melhor” o país e a sociedade portuguesa, para consolidar a presença no mercado nacional, tendo ainda “muito trabalho” a fazer no país.

Por este motivo, descartou a possibilidade de expansão para um novo mercado fora da Península Ibérica.

Sobre o crescimento maior do que esperado dos lucros em Portugal no ano passado (a previsão há um ano era de uma duplicação do resultado), o presidente da Mercadona afirmou estar relacionado com um conhecimento cada vez maior do mercado nacional, tanto a nível das preferências dos clientes como do domínio de algumas cadeias de abastecimento, como a dos frescos, por exemplo.

“Custa muito tempo começar num país” e “até fazer as coisas bem”, afirmou.

Segundo a empresa, a Mercadona foi pioneira na adoção de iniciativas para consolidar uma equipa com empregos estáveis e de qualidade. Exemplo disso é a melhoria da jornada de trabalho, com mais uma semana de férias, a consolidação do poder de compra, com o aumento salarial segundo o IPC e a sua política de remuneração variável, com a distribuição de 780 milhões de euros em prémios por objetivos, dos quais 25 milhões correspondentes a Portugal. Este valor para o trabalhador traduz-se em dois vencimentos mensais para os que têm menos de 4 anos de antiguidade e em três vencimentos para os que que ultrapassam esta antiguidade, tendo em fevereiro, neste último caso, recebido 7.000 € brutos, onde se inclui, neste montante, o seu salário mensal.

IVA Zero para fazer face ao aumento dos preços

Os impactos do atual conflito geopolítico no Médio Oriente ainda não se fizeram sentir nos preços dos produtos da cadeia de supermercados. “Ao dia de hoje ainda não subimos nenhum preço”, garantiu o fundador e principal acionista da Mercadona.

Ainda assim, Juan Roig afiançou que caso o preço das matérias-primas suba haverá impactos no bolso do consumidor. “Se as matérias primas subirem ou baixarem, os produtos sobem ou baixam, por consequência. O que se irá passar a partir de hoje ou de amanhã, não sabemos. Não ficamos nada contentes por ter de subir preços, naturalmente”, assegurou.

Admitindo um cenário de escalada da inflação, como aconteceu após o conflito armado na Ucrânia, Juan Roig referiu que gostaria que os Governos de Portugal e de Espanha respondessem de forma idêntica, como fizeram à época, através da adoção de medidas como o IVA Zero no cabaz alimentar de bens essenciais.

“Gostaríamos muito que amanhã tanto o Governo português como o espanhol adotassem o IVA zero, mas não depende de nós”, disse.

O responsável referiu que a estratégia da empresa será alinhada ao decorrer dos acontecimentos nos próximos tempos. “O futuro é incerto. Quem poderia imaginar, há uns anos, que iria haver uma guerra da Ucrânia? Os empresários têm de se adaptar. Não sei o que se irá passar agora no Médio Oriente, não podemos adivinhar”, admitiu.

Evolução para o novo modelo de “Loja 9”

A Mercadona vai investir, nos próximos anos, 3.700 milhões de euros para transformar os seus supermercados em “Loja 9”, um modelo organizado por processos em vez de por negócios, com mais espaço para produtos frescos e que facilita uma compra mais ágil e simples para os clientes, aumentando a produtividade, a rentabilidade e a eficiência. Entre as principais novidades, este modelo otimiza os processos de corte, de cozedura e de embalar, unificando-os numa única zona denominada Cozinha Central, o que irá gerar uma poupança de 10% em energia e de 40% em água. Além disso, inclui uma atualização técnica da sala de máquinas.

 

 

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