O presidente da Câmara Municipal de Loures, Ricardo Leão, disse que esta possibilidade já estaria prevista, mas entende que, sem reforço de profissionais de saúde no Hospital Beatriz Ângelo, a unidade de saúde entrará em “colapso” e obrigará o serviço a fechar portas, algo “inaceitável” para a Câmara de Loures.
A reorganização dos serviços de urgência dos hospitais levada a cabo pelo ministério da Saúde continua a levantar mais dúvidas do que certezas. O recente encerramento do serviço de urgência de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de Vila Franca de Xira causou a “revolta” da população e dos autarcas do concelho, levando a população a manifestar-se à porta do hospital há poucos dias.
Como alternativa, a tutela entendeu deslocalizar os utentes que antes eram atendidos em Vila Franca de Xira para o Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, tornando- se na primeira urgência regional de Ginecologia e Obstetrícia do país, que abriu portas esta segunda-feira no Hospital Beatriz Ângelo. Às utentes de Loures vão juntar-se as que eram atendidas em Vila Franca de Xira.
Medida “maturada há muito tempo”
O presidente da Câmara Municipal de Loures, Ricardo Leão, refere que esta possibilidade “já estava maturada há muito tempo”, dizendo que já tinha dito à ministra da Saúde, Ana Paula Martins, e ao diretor executivo do SNS, Álvaro Almeida, que o Hospital de Loures “tinha instalações” para acolher uma urgência regional, até porque o Beatriz Ângelo “deve muito à Câmara de Loures”, que “cedeu os terrenos para a sua construção” e “investiu muito na sua orçamentação”, pelo que “tem de ser aproveitado na sua plenitude”.
Em entrevista à CNN, apesar de saudar a vinda desta primeira urgência regional para a unidade hospitalar de Loures, o autarca defende que importará aquilatar “se há ou não há reforço do pessoal médico” da unidade. “Se não houver, temo que o congestionamento que pode originar, acabe por colapsar também este modelo”, obrigando a um encerramento forçado da nova urgência em Loures, que “é algo que não aceito”, sublinhou o edil de Loures.
De resto, o serviço de Obstetrícia do Beatriz Ângelo realizou, em 2025, 429 partos de utentes provenientes da área de influência do Hospital de Vila Franca de Xira. Por isso, Ricardo Leão reforça que teve “o cuidado de reunir com o diretor executivo do SNS”, dando-lhe nota das suas preocupações relativamente à necessidade de reforçar o corpo clínico desta nova valência hospitalar. “O problema central (dos vários modelos de urgências) está diretamente relacionado com a falta de médicos (no SNS). Não vale a pena rodearmos a questão com outros argumentos”.
Revisão das carreiras médicas
Para mitigar a escassez de médicos no SNS, Leão apela para que todos os atores da Saúde, mas também autarcas e Governo, se “sentem à mesma mesa” para encontrarem soluções conjuntas para “atrair mais médicos para o SNS”, designadamente a revisão das carreiras médicas no setor público.
Para o edil de Loures, a resolução deste problema “exige medidas concertadas (…) sem sectarismos e ideologias políticas” por que, de facto, será a única forma criar atratividade para os médicos que saíram para o privado.
Por outro lado, Ricardo Leão mostra-se solidário com as “dores” dos autarcas que perderam serviços ao abrigo desta reorganização das urgências, nomeadamente de Vila Franca de Xira, pondo de lado a hipótese de “haver fricção entre autarquias”, mas dá como certo que o diretor executivo do SNS se comprometeu a reforçar a nova urgência regional com mais profissionais de saúde.
Sindicato aconselha médicos em condição de sobrecarga a “pedirem escusa de responsabilidade”
Por seu turno, Carlos Veríssimo, diretor do serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de Loures, afirma que “isto é a oficialização de uma realidade que já vínhamos a ter desde o ano passado. Não prevejo que haja um grande aumento da nossa atividade.
O ano passado esta unidade hospitalar fez 2700 partos, 429 eram já de Vila Franca de Xira, mas a direção admite que não há espaço nem meios para muito mais.
Para os sindicatos, sem o reforço prometido de profissionais a concentração de serviços só trará mais constrangimentos.
“Aconselhamos todos os médicos que estiverem nesta condição de sobrecarga, sem reforço das equipas, que coloquem as escusas de responsabilidade”, apontou Joana Bordalo e Sá, da Federação Nacional dos Médicos (FNAM).
O caso neste hospital não será único. Já se sabe que a próxima urgência regional vai funcionar no Hospital Garcia de Orta, em Almada.
Encerramento afeta cinco municípios
O encerramento das urgências de Ginecologia e Obstetrícia em Vila Franca de Xira, afeta também os municípios de Azambuja, Arruda dos Vinhos, Alenquer e Benavente. Os autarcas reunidos com a ministra pediram que fosse revertida a decisão, que foi tomada sem serem ouvidos.
A maternidade do hospital de Vila Franca deverá continuar a funcionar, com partos programados e consultas abertas.
A urgência no Beatriz Ângelo funcionará todos os dias durante 24 horas. O novo modelo do Governo será avaliado dentro de seis meses.




