Oeiras foi capital internacional da capoeira

Oeiras acolheu o VI Festival Internacional de Capoeira, realizado nos dias 13, 14 e 15 de março. Este evento internacional reuniu a comunidade de capoeiristas de vários países para celebrarem uma “viagem” ao mundo de uma arte marcial nascido das entranhas dos escravos africanos que se rebelaram contra os seus opressores.  

Oeiras acolheu o VI Festival Internacional de Capoeira. O evento decorreu na Escola Básica Gomes Freire de Andrade e na Cooperativa de Habitação Económica Nova Morada, em Oeiras, e teve como objetivo o intercâmbio cultural global de capoeiristas de vários pontos do globo, transformando Oeiras, nesse fim de semana, na “capital mundial” da modalidade, num ponto de encontro internacional.

Em declarações ao nosso jornal, a professora Catarina Andrade, da direção do Grupo Alto Astral, refere que o evento acolheu cerca de 200 participantes, mestres e praticantes vindos de vários países, designadamente Brasil, Espanha, Itália, França e Alemanha, unindo a comunidade capoeirista para a partilha de saberes desta arte que é Património Imaterial da Humanidade.

“O encontro focou-se na transmissão de ensinamentos ancestrais dos grandes mestres para as novas gerações, envolvendo cerimónias de graduação que demonstram o rigor, a música e a filosofia por trás desta expressão cultural única”.

O evento teve um espetáculo com diversos momentos de danças tradicionais e performances culturais, trazendo toda a cor, ritmo e energia das raízes populares que acompanham a história da capoeira — uma arte “marcial” nascida nas fazendas brasileiras e que começou por ser uma expressão de resistência cultural e física dos escravos africanos.

Homenagem a Emília Bacardi

Catarina Andrade considera como “um dos momentos altos” do evento a homenagem à professora Emília Bacardi, etnomusicóloga e investigadora da música folclórica brasileira, considerada como figura central e pioneira da divulgação da capoeira, e que dedicou décadas à promoção desta arte e à formação de inúmeros praticantes, “sendo uma referência incontornável na afirmação desta modalidade”.

A professora destaca o “excelente ambiente” ocorrido ao longo de todo o evento, com espetáculos “com muita assistência”, sublinhando o “envolvimento de todos os capoeiristas” na realização dos vários acontecimentos realizados no festival.

Catarina Andrade releva ainda o debate realizado sobre a cultura da capoeira, no âmbito da presença do responsável pelo Museu da capoeira, onde se focou a discussão em torno dos aspetos culturais e sociais desta arte marcial ancestral, que combina música, dança e movimentos marciais de defesa pessoal.

“É de lembrar que a capoeira é arte marcial, mas os praticantes têm de perceber que é necessário envolverem-se em toda uma prática cultural: têm de saber tocar todos instrumentos, cantar, para além dos movimentos de defesa. Esta prática é a expressão cultural dos antigos escravos africanos no Brasil, que, através da capoeira, aprenderam a defender-se. A capoeira é uma luta, mas disfarçada sob a forma de dança. Os escravos dissimulavam dos capitães-de-mato as suas práticas, tocando música e ‘dançando’ para não serem castigados. Na realidade, eles estavam a treinar uma luta para se defenderem dos seus opressores”.

Na visão da mestre, os pais que queiram que os seus filhos comecem a praticar esta arte (de sublevação) terão de interiorizar que os filhos serão obrigados a “mergulharem” numa cultura que engloba o canto, a música e os movimentos de defesa, sendo, por isso, “uma prática muito completa” e holística, que é benéfica para o corpo, “mas também para a mente”.

“A parte emocional é importantíssima. Como as outras artes marciais, trabalha muito a disciplina e o respeito pelo próximo”, valores centrais desta arte.

Sanar as injustiças do passado

Nascida entre os escravos africanos que foram levados à força pelos portugueses para o Brasil, a Capoeira é, desde os primórdios, uma expressão de rebelião contra o esclavagismo – uma ferida histórica que ainda hoje continua por sarar. Catarina Andrade refere que o contexto histórico do surgimento desta prática ocorreu durante o auge da época dos Descobrimentos, que “foi espetacular”, mas também “provocou muito sofrimento” entre as vítimas.

“Acredito que é importante não se esquecerem as consequências (negativas) dos Descobrimentos para muitas pessoas. Hoje em dia, a relação de Portugal com o Brasil é uma relação de paridade, mas não nos podemos esquecer que fizemos (os portugueses) as coisas de uma maneira bem agressiva e injusta. Este aspeto tem de ser aflorado para apaziguarmos o nosso passado. É importante recordar o passado para lembrar a importância de não pisar tanto o outro, como foi feito em épocas passadas”.

Catarina Andrade sublinha que a capoeira é hoje, também por isso, uma atividade que esgravata os erros do passado para poder construir uma sociedade mais justa, em que o respeito pelo próximo está no centro de toda a dinâmica coletiva.

Por outro lado, a mestre não tem dúvidas de que o evento “transformou Oeiras na capital internacional da capoeira”, durante o passado fim de semana, reforçando que Oeiras tem sido pioneira em vários quadrantes, estando também na vanguarda da defesa dos “direitos humanos”, nomeadamente no combate ao racismo e na defesa dos direitos das mulheres, valores que estão hoje enquadrados na filosofia da capoeira.

“É muito positivo que Oeiras seja um ponto de preocupação e de luta contra o racismo, do posicionamento da mulher na sociedade e da luta pela igualdade. É muito importante que a sociedade perceba que o nosso território tem associações que se batem por estas causas”, como é o caso do Grupo Alto Astral, conclui a mestre e “ativista” dos direitos humanos do concelho.

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