A partir do terceiro trimestre de 2027, a ETAR de Frielas vai ter um funcionamento uma unidade de tratamento de lamas pioneira em Portugal. A infraestrutura terá capacidade para tratar cerca de 72.924 toneladas de lamas por ano e deverá permitir produzir mais 13,3 GWh anuais de energia renovável. Nuno Brôco assegura que a instalação da unidade não terá impacto ambiental para o território de Loures.
Na cerimónia de apresentação da primeira unidade de hidrólise térmica do país, realizada no dia 19 de março, o presidente do conselho de administração da Águas do Tejo Atlântico anunciou que esta tecnologia “é pioneira em Portugal” e permitirá reduzir de forma significativa o volume de lamas resultantes do tratamento de águas residuais e melhorar a sua qualidade.
Antes da assinatura do protocolo, Nuno Brôco salientou que a hidrólise térmica é um processo aplicado ao tratamento de lamas que recorre a altas temperaturas para as tornar mais fáceis de degradar. Este método é utilizado em instalações com digestão anaeróbia – um processo em que a matéria orgânica é decomposta sem oxigénio – e “permite aumentar a eficiência do tratamento e valorizar os subprodutos gerados”.
O administrador defende que esta tecnologia assume um papel “fundamental” para a Águas do Tejo Atlântico na promoção da “economia circular” levada a cabo pela companhia nas várias intervenções que estão no centro das decisões, sendo objetivo “assumirmos o papel centro de competências da economia circular no setor da água em Portugal, liderando de forma inovadora a transformação que procura identificar um recurso em cada resíduo”, como é caso das lamas.
Para Nuno Brôco, a reutilização das águas tratadas, a valorização de lamas e a recuperação de energia “são vetores estratégicos, particularmente relevantes num contexto de escassez hídrica, crise energética”, mas também para reaproveitar as lamas tratadas na transição para fertilização orgânica das terras de cultivo, vulgo, agricultura.
O responsável anunciou ainda que “somos a empresa de saneamento em Portugal com a menor pegada carbónica no exercício da sua atividade”, contribuindo ativamente para as metas nacionais e europeias de descarbonização da atividade industrial.
Redução de 52% do volume de lamas
Nuno Brôco destaca que a introdução desta tecnologia deverá tornar o processo mais rápido e eficaz, ao mesmo tempo que reforça a produção de biogás e de energia elétrica. Com a sua implementação, prevê-se uma redução de cerca de 52% do volume de lamas provenientes das Fábricas de Água de Alcântara, Alverca e Frielas, além da produção de biosólidos de “elevada qualidade”.
O presidente da Águas do Tejo Atlântico sublinha que estes materiais, designados por biolamas+, podem ser utilizados diretamente na agricultura, fornecendo nutrientes aos solos e diminuindo a necessidade de fertilizantes químicos, como o fósforo e o azoto. A solução contribui, assim, para a economia circular e para a sustentabilidade ambiental.
Para além dos benefícios ambientais, esta solução apresenta vantagens económicas relevantes, ao contribuir para a redução dos custos operacionais da infraestrutura e da Águas do Tejo Atlântico.
Este investimento representa uma mudança de paradigma na gestão de subprodutos, estando alinhado com objetivos estratégicos europeus e nacionais, como o Pacto Ecológico Europeu, o Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 e o Plano de Ação para a Economia Circular. A valorização de recursos, a descarbonização do ciclo urbano da água e o aumento da produção de energia renovável endógena — através do reforço da produção de biogás — contribuem para a redução da pegada carbónica e para uma operação mais eficiente e sustentável.
Sem impactos ambientais para o concelho de Loures
Quantos aos impactos ambientais desta tecnologia no território de Loures, Nuno Brôco salientou que a operação vai envolver o trânsito diário de “9 camiões” nas estradas do concelho, não havendo sobrecarga de tráfego, até porque os meios de transportes vão circular de noite – sendo de referir que os reboques dos camiões de transporte serão fechados, não libertando cheiros para a atmosfera.
O responsável adiantou ainda que este novo sistema de “digestão de lamas” vai produzir energia excedentária para alimentar todo o complexo da ETAR de Frielas, bem como, futuramente, “produzir energia para a vizinhança” – Brôco revelou que há um acordo com a Câmara de Loures para fornecer água tratada na ETAR ao novo Estádio Municipal de Loures, no Infantado, para além de estar previsto o aproveitamento das biolamas+ nos terrenos de cultivo do concelho.
O administrador salientou que o novo sistema, que será desenvolvido em circuito fechado, em cubas de inox, prevê uma tecnologia de desodorização do ar, pelo que não haverá riscos de libertação de maus odores para a atmosfera.
A empreitada foi adjudicada ao consórcio AQUAPOR / Luságua por 28,7 milhões de euros. A infraestrutura terá capacidade para tratar cerca de 72.924 toneladas de lamas por ano e deverá permitir produzir mais 13,3 GWh anuais de energia renovável. A conclusão da obra está prevista para o último trimestre de 2027.
Para homenagear o carácter pioneira e os quase 60 anos de funcionamento da ETAR de Frielas, Nuno Brôco salientou a importância desta estação de tratamento no panorama do tratamento de águas a nível nacional, tendo sido a primeira estação a ser criada em Portugal. Aquando da sua criação, servia uma população de 50 mil pessoas. Hoje, está preparada para servir 700 mil habitantes e tem sido “essencial” na despoluição do Rio Tejo.
Elogio generalizado da nova unidade industrial
A assinatura do protocolo contou com a presença secretário de Estado do Ambiente, João Manuel Esteves, do vereador da Câmara Municipal de Loures, Nuno Dias, do vice-presidente da Águas de Portugal, Carlos Braziel David, para além dos administradores da Águas do Tejo Atlântico, Nuno Brôco e Sandra Chambel e de António Cunha e Carlos Rodrigues da Aquapor/Luságua.
O governante João Manuel Esteves considerou que este projeto representa a concretização da passagem do “sonho à realidade”, do sonho à execução de uma tecnologia que vai representar “ganhos consideráveis para aquilo que são os aproveitamentos para a economia, para a passagem do rendimento de despojos, transformando-os em recursos, aproveitando e transformando as lamas numa solução energética, que é também a política do ministério do Ambiente, mostrar que é possível criar economia valorizando recursos e criando sustentabilidade”.
Por turno, Carlos Braziel David defendeu que a nova solução, que transforma lamas e energia, é muito bem-vinda para a casa-mãe (Águas de Portugal), uma vez que a companhia “é a terceira que mais gasta em consumo energético em Portugal”, cerca de 100 milhões de euros anuais. O administrador da Águas de Portugal disse que, com esta tecnologia, a empresa prevê “não penalizar a tarifa dos municípios e dos consumidores”, mantendo as tarifas nos níveis atuais.
O vereador Nuno Dias recordou que o avanço desta solução na ETAR de Frielas foi precedido que “longas negociações” entre a Câmara de Loures e a Águas do Tejo Atlântico. Mas avança que as “exigências” da autarquia, em assegurar que não haveria a libertação de maus odores para a atmosfera, foi inteiramente respeitada e que, por isso, aplaude a postura dialogante da companhia.
“Introduzimos algumas alterações ao projeto, relativas ao controle dos odores, mas as indicações que demos foram todas aceites. Vai haver uma zona desodorização que assegura o bom ar no território”, defende, acrescentando que que “Loures está no centro, está no centro também da ecologia ambiental”.




