Município de Lisboa garante que as crianças dos bairros municipais possam “ver melhor o mundo”

A Câmara Municipal de Lisboa vai garantir rastreios visuais, consultas e óculos gratuitos a crianças de todos os bairros municipais até 2028, no âmbito do projeto “Ver Melhor o Mundo”. A apresentação do programa arrancou no Bairro da Boavista e juntou os responsáveis municipais, representantes das escolas e os moradores que ouviram Carlos Moedas e Fernando Angleu anunciarem o reforço do “estado social local” de Lisboa.  

Destinado a crianças e jovens entre os 6 e os 18 anos, o programa tem como principal objetivo a deteção precoce de dificuldades visuais e a eliminação de barreiras ao sucesso escolar, assegurando o acesso gratuito a cuidados de saúde visual.

A apresentação deste projeto, que resulta de uma parceria entre os Serviços Sociais da autarquia, a empresa municipal Gebalis e o Fundo de Apoio à Óptica e Optometria António e Cecília Câmara, decorreu ontem, dia 8, na Escola EB1 Arquiteto Ribeiro Telles, no Bairro da Boavista, onde o primeiro rastreio está marcado para sexta-feira e deverá abranger cerca de 150 alunos.

Coube à apresentadora de televisão Maya, que antes de se tornar uma figura conhecida dos portugueses foi professora nesta escola do Bairro da Boavista, usar da palavra para enaltecer “o projeto magnífico” que vai “ajudar as crianças de todos bairros municipais” a terem uma vida académica com menos entropias.

“Quem está no ensino, sabe da importância da visão e da audição para as crianças terem sucesso escolar. Este projeto é muito importante para se alcançarem resultados escolares”, recordou.

A diretora do Agrupamento de Escolas de Benfica, Rosária Alves, agradeceu ao presidente da CML e ao presidente da Gebalis terem implementado um projeto que vai ajudar as crianças “a verem melhor o mundo”. A responsável lembrou que, desde a primeira hora, o agrupamento de escolas “abraçou o projeto” que vai melhorar substancialmente o rendimento escolar dos alunos.


“Entendemos este projeto como prioritário porque vai ajudar a ver melhor o mundo em todos os seus ângulos”, sublinhou, agradecendo aos responsáveis autárquicos “por terem iniciado este grande projeto no Agrupamento de Escolas de Benfica”.

Gebalis assume “compromisso” de continuar coesão social

O presidente do conselho de administração da Gebalis, Fernando Angleu, considerou-se “honrado” de apresentar um projeto “simples”, mas com um impacto “muito concreto” de garantir que as crianças “vejam melhor o mundo”.

Para o administrador, ter boa visão “não é apenas uma questão de saúde”, representa uma “condição essencial” para se aprender a ler, a escrever, mas, acima de tudo, “para haver igualdade de oportunidades” para quem vive num contexto social “de dificuldades económicas que acabam por adiar ou impedir ter acesso a cuidados de saúde visuais”.

Segundo Fernando Angleu, este projeto “vai responder às necessidades concretas” das crianças dos bairros municipais. “Ao assegurar rastreios, consultas e oferta de óculos, estamos a eliminar barreiras reais no percurso escolar das nossas crianças e jovens”.

A Gebalis, reforçou Angleu, assume o compromisso de continuar a promover “soluções que promovam a coesão social e a igualdade de oportunidades nos bairros municipais de Lisboa”.

O projeto “Ver Melhor o Mundo” é acima de tudo “dar melhores condições para que estas crianças possam construir o seu futuro”, concluiu.

Crianças saudáveis e com igualdade de oportunidades

O diretor dos Serviços Clínicos Sociais da CML, o médico Rui Julião, lembrou o papel de Margarida Barata, representante europeia da Fundação OneSight Essilor Luxottica, a maior entidade no mundo relacionada com a visão, na concretização desta iniciativa social. “Quero fazer-lhe um agradecimento em público, porque, desde o primeiro momento que foi desafiada para integrar este projeto, disse imediatamente que sim. Graças a si vamos concluir este projeto, que é fundamentalmente para as crianças dos bairros municipais”.

Rui Julião garantiu que, graças à Essilor, as crianças terão modelos de armações e lentes “modernas e com a certificação de qualidade” da referida companhia ótica, bem como o acompanhamento posterior de todas as crianças abrangidas pela medida. “Não interessa fazer apenas o diagnóstico, pois, infelizmente, iremos encontrar patologias que terão de ser seguidas pelos técnicos de saúde dos serviços sociais e a equipa oftalmologia”.

Os critérios de elegibilidade das crianças, que serão abrangidas por este programa, serão conduzidos pela Gebalis, passando depois para a fase de rastreio e, se for caso disso, avançam para uma consulta de optometria ou oftalmologia ao dispor nos serviços sociais da CML. O programa é composto por três fases: alunos do primeiro ciclo, ensino básico e secundário.

O responsável aproveitou para chamar a atenção dos números de falta de acuidade visual no mundo. Citando os dados da OMS, Rui Julião revela que 1/3 da população mundial “vê mal ou tem dificuldades na visão”, isto é, representa um “sério problema de Saúde Pública” no mundo.

Neste contexto, Rui Julião pediu sensibilidade social aos fabricantes de materiais óticos. “Os óculos são caros e as lentes são muito caras. Faço um apelo para que as organizações diminuam as margens de lucro e alguma parte delas seja destinada para compensar os rastreios nas diferentes partes do mundo”.

Rui Julião defende que, no caso das crianças, a visão assume “capital importância” e as dificuldades visuais entorpecem a aprendizagem escolar, mas também a inclusão social e até no esmorecimento da autoestima na infância daqueles que padecem de patologia ocular. “Não é por acaso, que encontramos muitas destas crianças com dificuldades visuais desmotivadas para a aprendizagem”.

Segundo o mesmo, os rastreios da saúde ocular nas crianças jogam um papel preponderante na deteção de dificuldades na visão e podem fazer toda a diferença num sistema de saúde que “cria crianças mais felizes e com maior qualidade de vida” para que no futuro “possam ter uma dimensão na sua vida que as ponha em pé de igualdade com todas outras crianças”, conclui.

Moedas defende “estado social local”

Já o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, começou por recordar a sua “conexão especial” com o Bairro da Boavista, tendo sido o primeiro território visitado aquando da sua primeira eleição como líder do Município.

O autarca agradeceu à vereadora Ana Simões, que foi eleita pelas listas do Chega e se desfiliou do partido Ventura para integrar o Executivo de Moedas, por ter trazido a sua “sensibilidade” de médica dentista e de profissional de saúde para robustecer o “estado social local” levado a cabo pela autarquia.

De resto, Carlos Moedas sublinhou que esta iniciativa “traduz de forma concreta o modelo de intervenção social do Município”.

“O Estado social local é uma realidade em Lisboa. Está presente onde o Estado central não chega, apoiando quem mais precisa, diretamente nos bairros e junto das pessoas”, afirmou o autarca, acrescentando que o estado social local “tem de ser executado de forma pragmática”, juntando o público, o privado, as fundações e o Estado, competindo à Câmara “fazer”, sendo este projeto “o exemplo perfeito” deste pragmatismo.

Carlos Moedas explicou que o programa “Ver Melhor o Mundo” se destina a crianças e jovens entre os 6 e os 18 anos e que será implementado até ao ano letivo 2027/2028, incluindo rastreios visuais nas escolas, consultas de optometria e oftalmologia e a atribuição gratuita de até 500 óculos por ano.

“Este protocolo concretiza essa proximidade, levando rastreios visuais gratuitos, consultas e óculos diretamente às escolas dos bairros municipais”, acrescentou o autarca, sublinhando que a medida “permite detetar problemas que muitas vezes passam despercebidos”, apontou.

A Gebalis vai assegurar a identificação dos beneficiários e a articulação com escolas e famílias, os serviços sociais da autarquia vão garantir a resposta clínica especializada e o Fundo de Apoio ao Desenvolvimento da Ótica e Optometria António e Cecília Câmara disponibiliza os meios técnicos e assegura a entrega dos óculos.

Estão já previstos rastreios de sexta-feira a 30 de junho e de 14 de setembro a 18 de dezembro deste ano.

Defesa das clínicas de proximidade

O edil aproveitou para revelar que “gostaria de ter aqui (Boavista) um outro projeto que já está em vigor no Bairro do Armador e na Alta de Lisboa, que são as clínicas de proximidade”, que funcionam como solução para quem não consegue ter um médico de família. Moedas ressalvou que os médicos destas unidades de saúde “estão reformados e conhecem bem a população dos bairros, onde já trabalharam”, para além de terem ao seu serviço um enfermeiro e um nutricionista. O autarca reforçou que, em 2 anos, estas clínicas já prestaram o acompanhamento de 4 mil moradores sem médico de família.

Para mostrar a proclamada ligação de Carlos Moedas ao Bairro da Boavista, o autarca lembrou o programa Talentos do Bairro, um projeto cultural que tem como objetivo ajudar a singrar profissionalmente os moradores com talentos artísticos, enaltecendo a atuação de Igor D’Araújo, residente no bairro e que mostrou os seus dotes musicais no evento.

O autarca lembrou ainda o “trabalho incansável” de Anabela Rebelo, conhecida por Bela da Boavista, figura carismática do bairro, na construção de um território que se tem vindo a afirmar no panorama dos bairros municipais de Lisboa.

A iniciativa foi concluída com a assinatura do acordo, firmado pelo presidente dos Serviços Sociais da Câmara, Rui Cordeiro, o presidente de Gebalis, Fernando Angleu e Margarida Barata, representante europeia da Fundação OneSight Essilor Luxottica.

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