“Escutar e jejuar. Quaresma como tempo de conversão” é o título da mensagem do Papa Leão XIV para a Quaresma de 2026, que foi distribuída nas paróquias portuguesas. Na celebração da Páscoa, o Pontífice convida os fiéis a um “jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro”. O Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, lembra a importância da caridade e de os fiéis abriram o coração a quem mais sofre.
Papa Leão XIV apela aos fiéis que se preparam para viver a Quaresma interiorizando a necessidade de levarem a cabo um “jejum de palavras ofensivas” ao próximo, numa época em que a Igreja “nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro da nossa vida”.
Para que a fé ganhe novo impulso e o coração não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano, o Pontífice recorda que é preciso empreender o caminho de conversão, “que começa quando nos deixamos alcançar pela Palavra e a acolhemos com docilidade de espírito”.
A importância de escutar e jejuar
Este ano, o Papa destaca, em primeiro lugar, a importância de dar lugar à Palavra através da escuta, “pois a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro”.
Escutar a Palavra na liturgia, escreve o Pontífice, ajuda a educar os sentidos para uma escuta mais verdadeira da realidade. “Entre as muitas vozes que passam pela nossa vida pessoal e social, as Sagradas Escrituras tornam-nos capazes de reconhecer aquela que surge do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta.”
Se a Quaresma é um tempo de escuta, prossegue o Papa, o jejum constitui uma prática concreta que nos predispõe a acolher a Palavra de Deus. Por implicar o corpo, é útil para discernir e ordenar os “apetites”, para manter vigilante a fome e a sede de justiça, subtraindo-a à resignação e instruindo-a a fim de se tornar oração e responsabilidade para com o próximo.
No entanto, adverte o Santo Padre, para que o jejum conserve a sua autenticidade evangélica e evite a tentação de envaidecer o coração, deve ser sempre vivido com fé e humildade e deve incluir também outras formas de privação.
Abstinência de ofensas ao outro
Leão XIV convida os fiéis a uma forma de abstinência “muito concreta e frequentemente pouco apreciada”, ou seja, a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo. “Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias.”
Em vez disso, o “pastor da Igreja Católica” propõe aprender a medir as palavras e a cultivar a gentileza na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social e nas comunidades cristãs. “Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz.”
O Pontífice conclui recordando que a Quaresma realça a dimensão comunitária da escuta da Palavra e da prática do jejum. “As nossas paróquias, famílias, grupos eclesiais e comunidades religiosas são chamadas a percorrer, durante a Quaresma, um caminho partilhado, no qual a escuta da Palavra de Deus, assim como do clamor dos pobres e da terra, se torne forma de vida comum e o jejum suporte um verdadeiro arrependimento.”
O Papa encerra sua mensagem exortando os fiéis a pedirem a graça de uma Quaresma que abra o coração dos fiéis e para estarem mais atentos aos “sinais” de Deus e, também, aos que sofrem.
“Peçamos a força de um jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro. E comprometamo-nos a fazer das nossas comunidades lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido e a escuta abra caminhos de libertação, tornando-nos mais disponíveis e diligentes no contributo para construir a civilização do amor. De coração, abençoo todos vocês e o seu caminho quaresmal.”
Mensagem do Cardeal-Patriarca de Lisboa para a Quaresma
Por seu turno, D. Rui Valério, Cardeal-Patriarca de Lisboa, lembra a mensagem do Papa, que convida os cristãos a encontrarem-se com Jesus Cristo, contemplando o Seu rosto de crucificado: “hão de olhar para Aquele que trespassaram. Convido os cristãos da Diocese de Lisboa a seguirem a palavra do Papa, porque somos uma Igreja em comunhão com o sucessor de Pedro, e queremos sê-lo mais profundamente neste tempo santo da Quaresma, na celebração pascal deste ano”.
Para o Patriarca, olhar o rosto de Jesus crucificado “é abrir-se ao insondável amor com que Deus nos ama. Porque a morte de Jesus, o Filho de Deus, é a mais radical expressão do amor de Deus por nós, contemplar o Crucificado é o caminho mais direto para nos abrirmos a esse amor infinito. Também aí, sobretudo aí, Cristo é o caminho para o Pai”.
“Viver a Quaresma é uma escolha espiritual clara: renunciar ao que é sombra para caminhar na luz; afastar-se do ruído que dispersa para acolher a Palavra que orienta; deixar as trevas da confusão interior para permitir que a luz de Deus ilumine o coração. Não se trata de um tempo de tristeza, mas de um tempo de verdade. A luz pode ferir os olhos habituados à penumbra, mas só ela salva, cura e liberta”, exorta D. Rui Valério.
Quaresma, tempo de caridade
“O nosso Programa Diocesano de Pastoral está repassado de um desejo: fazer de toda a ação da Igreja uma expressão da caridade. A Quaresma é um tempo privilegiado para darmos concretização a este desejo”, lembra o religioso, recordando as próprias palavras do Papa “a indicar-nos o caminho: ‘contemplar aquele que trespassaram estimular-nos-á desta forma a abrir o nosso coração aos outros, reconhecendo as feridas provocadas à dignidade do ser humano; impulsionar-nos-á, sobretudo, a combater qualquer forma de desprezo pela vida e de exploração da pessoa e a aliviar os dramas da solidão e do abandono de tantas pessoas’.
Qua a Quaresma seja para cada cristão, exorta D. Rui Valério, uma experiência renovada do “amor de Deus que nos foi dado em Cristo, amor que todos os dias devemos, por nossa vez, “dar novamente» ao próximo, sobretudo a quem mais sofre e é necessitado. Só assim poderemos participar plenamente da alegria da Páscoa”.
Foto: Santa Sé


