A Semana Santa é um dos pontos altos da devoção religiosa dos católicos. As três paróquias da União de Freguesias de Carnaxide e Queijas vivem a época pascal de modo intenso, mas com realidades distintas. Fomos conhecer as ideias dos três padres que lideram as paróquias de Queijas, Carnaxide e Outurela sobre a Páscoa e as formas de celebração da ressurreição de Cristo.
A Páscoa é uma das celebrações religiosas com mais devotos entre a população portuguesa e uma das mais importantes do calendário cristão. As origens da Páscoa remontam há milhares de anos, enquanto ritual celebrado por povos ancestrais que a consideravam como uma época que anunciava o fim do inverno e a chegada da primavera, com a transição de um tempo de escuridão para outro de luz e esperança.
Com um sentido semelhante de libertação das “trevas” e esperança, a Páscoa cristã surgiu posteriormente com o intuito de celebrar a ressurreição de Jesus Cristo e a sua passagem da morte para a vida, simbolizando a esperança de um novo caminho, da ressurreição para o “bem”.
Paróquia de Queijas
Os católicos do território da União de Freguesias de Carnaxide e Queijas (UFCQ) vivem a época pascal com intensidade e a religiosidade própria de uma época de renascimento e de introspeção, mas também de reencontro com o lado sagrado da comunidade.
O Pe. Alexandre Ferreira dos Santos, responsável pela Paróquia de São Miguel Arcanjo, em Queijas, assume que a Páscoa “é a data mais importante da Igreja Católica”, sendo a Semana Santa celebrada com todas as prebendas na freguesia. Durante a Semana Santa, que começa com a Missa de Domingo de Ramos e conclui com a Missa da Ressurreição no Domingo de Páscoa, os fiéis “fundem-se” com as atividades da paróquia de Queijas.
Por esta altura, O Pe. Alexandre vive num ritmo frenético. Depois de contactar com várias pessoas, tomar um café com pároco de Paço de Arcos (Pe. José Gonçalves da Costa), atender alguns telefonemas, o religioso conduz o nosso jornal para o interior da igreja de Queijas. Faz questão de mostrar a instalação cénica feita pelos jovens da paróquia que representa a Via-Sacra de Cristo, junto ao altar.
O Pe. Alexandre, como é conhecido em todo o concelho, lembra a ligação umbilical da comunidade de Queijas à Igreja, destacando que o aglomerado urbano desta vila “nasceu depois da igreja ter vindo para este território. O centro da comunidade é a nossa igreja”.
Questionado sobre a perda de fiéis católicos e o putativo “divórcio entre os jovens e a Igreja”, que é comum em praticamente todas as paróquias, o reverendo responde prontamente com uma pregunta retórica: “Qual afastamento da Igreja?! As pessoas de Queijas continuam a participar ativamente em todas as nossas atividades litúrgicas e sociais”. E exemplifica que a missa de Domingo de Ramos “teve certamente mais de 1000 pessoas a assistir. A igreja, que é bastante grande, não teve capacidade para acolher tantos e tantos fiéis que quiserem vir comungar desta experiência sagrada”.
O sacerdote sublinha que a celebração do Domingo de Ramos “durou mais de 2h10, mas ninguém arredou pé”. No final da comemoração de Domingo de Ramos, que há mais de 25 anos “é entregue aos jovens”, os crentes juntaram-se para celebrar o Festival de Sopas, confecionadas generosamente pelos 19 grupos da paróquia (jovens, da catequese, escuteiros, entre outros). “Este momento de partilha do alimento, de fraternidade entre a comunidade, foi muito bonito e contou com os nossos jovens a animarem todas as atividades”, anota.
A receita desta iniciativa reverte integralmente para os grupos de juventude que integram as atividades da paróquia.
“O dinheiro angariado com esta iniciativa reverte para os jovens que irão participar na próxima Jornada Mundial da Juventude, na Coreia do Sul, onde os nossos jovens pretendem marcar presença para estarem com o Papa”.
O Pe. Alexandre diz, de resto, que em Queijas a juventude é um dos alicerces do dinamismo que a paróquia tem tido na comunidade. “Temos muita juventude, muitos jovens que animam as atividades e dão colorido e vida à comunidade. E o pároco tem de estar sempre com eles, como forma de reconhecer toda a vida que trazem para a Igreja”, reconhece.
O sacerdote acredita que a Missa de Ressurreição, no Domingo de Páscoa, vai ter a mesma moldura humana, por ser “o ponto alto do ano litúrgico” e o culminar das celebrações pascais e da fé nos valores e ensinamentos de Jesus Cristo, que “se sacrificou por todos nós” e “ressuscitou e ascendeu para junto de seu Pai”, tendo dado origem à Páscoa. “Vamos, certamente, ter um número de fiéis igual ou superior ao Domingo de Ramos”, sendo um dos pontos altos o momento do “lava-pés”, que simboliza um dos últimos atos em vida de Jesus Cristo – em que lavou os pés aos 12 apóstolos – e é representado por 12 jovens de Queijas.
O religioso destaca ainda a organização da Via Sacra, na Sexta-Feira Santa, que percorre as ruas da paróquia, e conta com a participação de juventude de Queijas na recriação da Via Crucis (o Caminho da Cruz) na vila. “A nossa Via Sacra será realizada em simultâneo com a realizada em Roma. Estaremos em comunhão com a cerimónia do Papa em Roma”, sublinha.
Em mensagem sobre a Páscoa para os crentes, num tempo em que o mundo está sob o sobressalto da guerra, o Pe. Alexandre aproveita para apelar para “união de todas as pessoas”, por que “quando unimos a comunidade, ficamos todos a ganhar”.
Para o sacerdote, as divisões “são a consequência das divisões no interior do coração do Homem. Por isso, Cristo morreu por todos e por cada um de nós. As guerras são uma consequência da divisão interior de todos e cada um de nós. Não é com armas nas mãos que cumprimentamos um irmão. Todos falhamos. Por isso, neste tempo quaresmal, Cristo chama-nos à conversão interior. É preciso estabelecer pontes de concórdia e de paz para toda a Humanidade”.
Paróquia de Carnaxide
Apesar de também ter muitos fiéis, em Carnaxide, o fervor religioso estará mais diluído pelos hábitos de vida urbanos da população.
Porém, o Pe. Pedro Coutinho, líder da Paróquia de São Romão, Carnaxide, ressalva que a paróquia tem em seu redor uma comunidade católica “bastante unida” e que participa ativamente nas atividades da Igreja, assumindo a época pascal o culminar da devoção religiosa dos crentes.
Nascido e criado na zona nortenha de Trás-os-Montes, o religioso lembra com saudade das tradições das celebrações pascais nas aldeias transmontanas.
“Nos meios mais rurais, a Páscoa era uma verdadeira festa, com as procissões, as bandas filarmónicas, com a criançada a acompanhar, as visitas às casas para provarmos os folares. Nas aldeias o sentido de comunidade era muito grande. E todos partilhavam com todos aquilo que havia e a devoção e amor ao Senhor Jesus Cristo”.
Em Carnaxide, e nos meios urbanos em geral, muitas destas tradições esfumaram-se por conta dos hábitos citadinos e do afastamento das pessoas, admite.
Mas nem tudo se perdeu em termos de celebrações religiosas. O líder da paróquia de Carnaxide entende o tríduo pascal como o “centro das celebrações religiosas pascais”, que marcam a transformação da natureza (passagem do inverno para a primavera), mas também “o coração dos crentes”.
“A primavera é um tempo realmente belo. A natureza renova-se, surgem as flores e a intensidade da luz aumenta, simbolizando um tempo de renovação”, numa alegoria perfeita para as crenças católicas na ressurreição de Cristo.
O pároco admite, no entanto, que o cenário atual do mundo não é muito animador, mas o tempo de Páscoa “é, por natureza, o tempo da vida e da esperança e não da morte”.
Pese embora os horrores dos conflitos que alastram no globo, no entender do religioso, a esperança deve sobrepor-se à negritude e à maldade humana, pois é, grosso modo, o significado maior desta época.
“Quando Jesus ressuscita e aparece aos seus discípulos diz: ‘a paz esteja convosco’. E esta é a nossa esperança: que oiçamos a voz de Cristo, que, depois de morto pela maldade humana, fez-se solidário com todos”, perdoando, inclusivamente, aos que o haviam crucificado. “Depois de ressuscitado, Jesus apela ao perdão e traz uma mensagem de paz ao mundo. Este Homem, estava inocente e foi terrivelmente injustiçado, ressuscitou e perdoou a todos aqueles que lhe fizeram tanto mal. Acredito que a mensagem de paz de Cristo deve prevalecer acima de tudo”.
O Pe. Pedro Coutinho crê que, mesmo aqueles que praticam o mal absoluto, como aquele que está a ser praticado no Médio Oriente, “têm direito ao perdão”, se se arrependerem dos seus atos.
Para o religioso, Jesus Cristo crucificado “é o irmão” de todos aqueles que sofrem os horrores da guerra, do ódio e da descriminação. “No fundo, somos todos humanos, e capazes de perdão e compaixão. Ao olharmos para a Cruz de Cristo, despertam em nós os sentimentos da compaixão e da misericórdia”.
O pároco tem presente que, mesmo aqueles que crucificaram o Filho de Deus, depois de olharem para aquilo que haviam feito, “se arrependeram do mal infligido” a Jesus Cristo.
Também as “crianças mortas, sem qualquer razão, os civis, os manifestantes, abatidos e alvejados sem dó nem piedade, as pessoas que perdem toda a sua dignidade perante a onda violência que se desencadeia”, personificam a crucificação de Cristo. Ainda assim, todas estas atrocidades “são passageiras”, por que “só o amor é eterno, só a paz consola o coração dos homens”, sublinha, acrescentando que o ódio, por muito que seja avassalador, “não é mais forte do que o amor de Deus”.
O pároco de Carnaxide disse, no mesmo sentido, que a Páscoa simboliza os valores da “compaixão e da paz” que devem ser sublimados ao expoente máximo. “A mensagem que Jesus trouxe ao mundo depois da sua morte é trazer a paz aos corações dos que estão em sofrimento, porque aquele Homem crucificado representa todas as vítimas do ódio e da intolerância. Estão todos naquela Cruz!”, reitera.
Ser tolerante na banalidade do quotidiano
Em mensagem para os nossos leitores, o Pe. Pedro Coutinho lembra a necessidade de “todos seremos mais tolerantes uns com os outros”. Mesmo nas situações mais banais, como o trânsito automóvel, deve imperar a tolerância e a não-agressão verbal, muito menos a física, para que a paz “flua por todos e por todos os lados”.
“Se alguém der passagem a outro condutor num cruzamento, devemos evitar apitar, discutir com o outro por dá cá aquela palha. Violência gera violência e não resolve nada, só agrava o clima de crispação geral e provoca ódio e discórdia. Se cada um de nós for mais tolerante e tiver compaixão pelo próximo, a sociedade ganha uma nova harmonia, que começa em mim e se propaga aos outros, ao mundo.”
Paróquia da Outurela
Na Paróquia da Outurela, também em Carnaxide, a Páscoa tem um brilho muito próprio. Sedeada num bairro municipal onde o grosso da comunidade é composta por uma população oriunda de Cabo-Verde, as celebrações pascais iniciam-se no Domingo de Ramos, onde realiza uma procissão e a bênção dos ramos, terminando com uma missa em honra da Ressurreição do Senhor Compasso e a visita pascal às famílias que se inscrevem antecipadamente.
O Pe. José Manuel Vicente, conhecido por Pe. “Zé Manuel”, confessa ao nosso jornal que, quando chegou à Outurela, estranhou a forma de celebração “efusiva” da população em todas as cerimónias religiosas. Os moradores, com raízes africanas, surpreenderam o religioso com o clima de festa que levavam para dentro da igreja.
No início da sua vinda para a Outurela, há mais de 20 anos, o pároco teve um choque de realidade que lhe causou “grandes conflitos internos”, pois não “estava habituado a ter de lidar com a mentalidade africana”, mesmo na celebração da eucaristia e demais cerimónias religiosas.
“Ao princípio, custou-me muito adaptar a esta terra. Vim diretamente de Roma para aqui e nem sabia onde ficava a Outurela (…) O povo cabo-verdiano tem uma forma muito particular de celebrar missa. Cantam, tocam batoques, mostram o lado mais descontraído de viver a Igreja. Fiquei um pouco surpreendido, mas percebi logo que os meus paroquianos eram diferentes. E consegui adaptar-me a eles e eles a mim. Se se sentiam mais felizes por exteriorizar a sua alegria na missa, que mal tinha por cantarem na eucaristia?”.
Na Outurela, reconhece, as celebrações pascais têm a solenidade própria da época, centram-se na vivência comunitária e religiosa, destacando-se a tradicional Via-Sacra organizada pela paróquia, que mantém viva a tradição da quaresma e paixão de Cristo. As atividades incluem celebrações litúrgicas na Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Mas, a soma da solenidade com a alegria dos crentes de origem africana, convertem a época numa “verdadeira festa do renascimento de Jesus Cristo e da esperança no coração dos homens”, sustenta o religioso.
“Páscoa é vida e ressurreição. Vamos todos rezar pela paz no mundo”, exorta o Pe. José Manuel Vicente.


