Para não se diluir a cultura popular associada às marchas e fortalecer estas tradições nas crianças, uma associação informal, constituída por quatro coletividades de Lisboa, quer implementar um novo modelo para as marchas infantis na cidade, que replique as tradicionais Marchas Populares a concurso. Sublinham a importância da passagem do testemunho para as crianças e a necessidade de lhes incutir o orgulho de pertencerem a uma marcha e de serem os futuros guardiões da cultura popular alfacinha.
As tradições alfacinhas já conheceram melhores dias e sentem-se hoje acossadas pela massificação do turismo em Lisboa e uma nova realidade onde cabem cada vez menos os filhos da terra.
À medida que os preços das habitações sobem e a cidade torna-se um destino turístico massificado, muitas das comunidades bairristas são forçadas a abandonar a cidade. Este êxodo resulta num esvaziamento cultural, onde tradições como as marchas perdem as raízes locais. A transmissão destas práticas culturais torna-se cada vez mais difícil.
No mesmo âmbito, as gerações mais novas vão demonstrando cada vez menos interesse pelo manter das tradições e do sentir da alma popular associadas às marchas da cidade de Lisboa. Foi nesse sentido que quatro coletividades estabeleceram o objetivo de trabalhar intensamente para combater esse afastamento dos mais jovens.
Estas quatro coletividades da cidade de Lisboa entendem que há o perigo real de as marchas serem descaraterizadas ou mesmo desaparecer. O grupo de fundadores, constituído pelos “Os De Baba”, Beato, a Sociedade Musical 3 de Agosto, “Marvila Kids”, “Os Fidalgos da Penha”, Penha de França, e Lisboa Clube Rio de Janeiro, Bairro Alto (“Os Altinhos”), continuam a batalhar para se afirmarem como bastião de resistência na preservação dos valores populares e bairristas.
Mudar o modelo das marchas infantis
Este grupo constitui hoje o núcleo duro desta associação informal, mas determinada em alterar o figurino do modelo atual das marchas infantis de Lisboa. Entretanto, em sinal de afirmação cultural e da defesa acérrima dos valores culturais associados às marchas dos bairros, juntaram-se outras vozes a esta batalha, agregando-se mais dois grupos de marchantes infantis à causa: Alcântara, “Os Putos de Alcântara, e Alto de Pina, “Os Altos Pininhas”, que vão participar na Marcha Infantil das Coletividades de Lisboa como marchas convidadas.
Com o objetivo de “não deixar cair o espírito genuíno das marchas”, quatro dirigentes puristas das marchas organizaram-se para refundar um novo modelo de futuro para as marchas infantis. “Temos um olhar diferente sobre as marchas em relação ao trabalho que é feito nas escolas, uma vez que são feitas por professores e auxiliares que não têm esta vivência e não conseguem identificar os pormenores culturais que, para nós, são muito importantes”, frisa Marco Silva, porta-voz do grupo.
É objetivo máximo não deixar morrer o espírito bairrista e as tradições de cada bairro. Os organizadores acreditam que, este ano, as Marchas Infantis das Coletividades de Lisboa, a realizar no Pavilhão Casal Vistoso, no Areeiro, no dia 14 de junho, vão ser “um grande evento alternativo” de marchas dos mais pequenos.
Cristiana Silva, da “Marvila Kids”, diz que este projeto tem vindo a ser um sucesso ao longo dos anos e tem cativado crianças cada vez mais novas, mas sublinha que, dadas as circunstâncias do rumo que a cidade está a tomar, importará reforçar a “urgência” de as coletividades se arregimentarem em torno da necessidade “imperiosa de manter o espírito cultural das marchas”, que se está a esbater pela descaracterização crescente da cidade.
“As coletividades estão a braços com falta de marchantes. Há cada vez mais dificuldade em convencer os homens a marcharem na Avenida (da Liberdade)”, sustenta, acrescentando que é objetivo “passar a cultura das marchas para os mais novos”, por que, se assim não for, “corremos o risco de perder as nossas tradições e modos de vida”.
Foi nesse sentido que as Marchas Infantis das Coletividades de Lisboa nasceram. No ano passado, e para surpresa da organização, esta iniciativa teve mais de 700 pessoas a assistirem ao desfile das crianças das coletividades lisboetas. “O Pavilhão do Casal Vistoso estava praticamente cheio. O povo de Lisboa deslocou-se em massa para assistir às nossas marchas infantis”, assevera Paulo Fonseca, dos “De Baba”, do Beato.
Cristiana Silva volta a recentrar a conversa e reitera que a Marcha Infantil das Coletividades de Lisboa nasceu para incutir nas crianças a “cultura popular” que é passada de geração em geração, mas anota que a marcha das coletividades replica na íntegra as Marchas de Lisboa (dos adultos), ao contrário das Marchas Infantis de Lisboa, organizadas pelas escolas e o Município, “em que vemos crianças a marchar com fatos de plástico e sem critério algum”.
Replicar o modelo de desfile das marchas dos adultos
No entender de Paulo Fonseca, parafraseando a expressão popular, é de pequenino que se torce o pepino, e a cultura das marchas “não pode ser desvirtuada” pela “falta de rigor” na hora de se apresentarem marchantes a representarem a “alma de Lisboa” perante milhares de espectadores.
“As crianças, que não têm culpa nenhuma, apresentam-se a fazer figurinhas (…) os figurinos são feitos nas escolas e pelos professores, que não têm a mesma vivência desta festa que os marchantes e as coletividades. Para nós, que vivemos as marchas com intensidade, é difícil ver isto a acontecer à frente dos nossos olhos”.
E é por razão “que organizamos as Marchas Infantiis das Coletividades, que é preparada durante muitos meses e com toda a atenção aos detalhes. Os figurinos são reais e dão muito trabalho a fazer, a encenação é preparada durante muitas semanas. Queremos dar palco às nossas crianças, que já demonstram uma emoção muito grande na hora de marchar. Mas só assim se pode dizer que estamos a fazer algo que se assemelhe a uma verdadeira marcha”.
Os impulsionadores das Marcha Infantis das Coletividades de Lisboa levam a iniciativa muito a sério, até porque entendem que as marchas infantis devem replicar o modelo ortodoxo das Marchas dos adultos. Acreditam que só assim se conseguirá cativar os mais pequenos para serem os futuros guardiões das tradições populares associadas às marchas. Na sua visão, as marchas infantis serão uma espécie de tirocínio que servirá de meio de treino e de porta-estandarte de toda uma cultura popular.
Marco Silva aproveita para apontar o dedo à Câmara Municipal de Lisboa. “A Câmara deve começar a olhar para nós com outros olhos. Apesar da falta de apoios oficiais, temos vindo a encher o Pavilhão Casal Vistoso e a persistir na realização de um grande evento de marchas infantis para toda a cidade. O nosso evento obedece a todas regras de segurança: temos bombeiros, staff de segurança, etc.”, lamenta – o dirigente sublinha, no entanto, que talvez pela sensibilidade de já ter sido dirigente do Ginásio de Alto de Pina, Pedro Jesus, presidente da Junta de Freguesia do Areeiro, desde a primeira hora, se mostrou disponível para apoiar o evento, financiando a contratação do sistema de som e na divulgação da marcha nos canais de comunicação da autarquia”.
O dirigente assevera que a organização “não quer dinheiro da Câmara”, pretende apenas que as crianças das coletividades tenham a oportunidade de mostrar a toda a cidade o “trabalho sério que é feito” na manutenção das tradições à risca, sem conceções ou facilitismos que subvertam a alma das marchas.
Marchas inclusivas e para todas as crianças
Manuel Madeira “Dos de Baba” diz, a este propósito, que as crianças das coletividades merecem integrar a parte nobre das comemorações oficiais das Festas de Lisboa, pois são já o “futuro das marchas” e da alma lisboeta.
Cristiana Silva reitera, por outro lado, que o atual modelo “deixa de fora muitas crianças que gostariam de marchar”, ficando excluídas porque o desfile infantil da Voz do Operário, integrado oficialmente nas Festas de Lisboa, seleciona algumas crianças de cada estabelecimento de ensino da própria instituição, ficando todas as outras impedidas de fazer parte da festa. De resto, tal como acontece nas marchas infantis das escolas de Lisboa, onde se repete o padrão de muitas crianças serem excluídas das Festas.
Ora, segundo a dirigente, este modelo “não contribui” para o avivar a cultura das marchas entre as crianças da cidade, sendo inclusivamente “desmotivante” e nada consentâneo com a urgência de incluir as crianças nas marchas para que as tradições culturais populares não se esfumem nas próximas gerações.
Os depoimentos de todos os dirigentes apontam no mesmo sentido. As marchas infantis devem ser reconfiguradas e obedecer às mesmas regras que as dos adultos. Defendem ainda que o modelo de organização deve ser descentralizado e dinamizado pelas associações populares para que não seja corroído nem tão-pouco desvirtuado pela falta de rigor, prosseguindo com as tradições seculares e saber acumulado sobre este fenómeno popular lisboeta.
É também objetivo mor que o desfile das crianças ganhe um espaço próprio e o protagonismo necessário, devendo a marcha infantil ser realizada num local de desfile e apresentação individual (em desfile corrido), para que as crianças brilhem com luz própria e sintam que já fazem parte de uma tradição maior, desfilando num espaço nobre da cidade.
As Marchas Infantis das Coletividades de Lisboa realiza-se no dia 14 de junho, um dia depois das Marchas de Lisboa, no Pavilhão Casal Vistoso. A organização espera casa cheia para assistir ao desfile de 300 pequenos marchantes de seis bairros da capital.
Esta entrevista foi realizada nas instalações da Sociedade Musical 3 de Agosto de 1855, em Marvila, e a organização não pôde contar com a presença dos dirigentes dos “Fidalgos da Penha”, Penha de França, Lisboa Clube Rio de Janeiro, Bairro Alto (“Os Altinhos”), que também fazem parte deste movimento.







