A propósito de uma exposição sobre o 1º de Maio em Odivelas, Pacheco Pereira alertou para uma realidade atual em que o mundo trabalho passou a ser “invisível”, pondo a tónica da sua reflexão na necessidade de a sociedade não cair no engodo de aderir à desvalorização generalizada do trabalho e dos trabalhadores.
A Câmara Municipal de Odivelas inaugurou dia 6 de maio, na Biblioteca Municipal D. Dinis, a exposição “O 1º de Maio e as Representações do Trabalho”, promovida em parceria com a Associação Ephemera, biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira, contando com a presença do historiador para fazer uma retrospetiva sobre o mundo do trabalho.
A exposição evoca a longa luta dos trabalhadores de todo o mundo pelos seus direitos a uma vida mais digna. Realizada a partir do espólio do Arquivo Ephemera, recupera alguns elementos evocativos dessa mobilização e dos movimentos da época, ampliando o seu significado por uma grande diversidade de modos de representação do trabalho, em fotografias, gravuras, autocolantes, cartazes, estatuetas e outros objetos.
O trabalho humano é representado de modo mais simbólico, mais evocativo ou mais descritivo, através de atos comuns de execução de tarefas, de ostentação de ferramentas ou símbolos profissionais ou de invocação da condição de trabalhador, em várias épocas, situações e áreas de trabalho.
IA e a eliminação de postos de trabalho
A vereadora da cultura do Município de Odivelas, Ana Isabel Gomes, lembrou que o ponto de partida da colaboração entre o Município e o Arquivo Ephemera teve como objetivo fazer uma reflexão sobre as primeiras eleições livres depois da ditadura do Estado Novo.
A responsável referiu que esta exposição se enquadra num programa cultural mais vasto, ao longo de todo o mês de maio, que tem como objetivo celebrar o 52º aniversário do 25 de Abril e as sequentes manifestações de liberdade advindas da implementação da democracia no país.
Numa altura em que a Inteligência Artificial (IA) está já a mudar os paradigmas do mercado de trabalho, Ana Isabel Gomes sublinhou ainda que as questões do mundo laboral subjacentes à exposição assumem hoje uma relevância acrescida e são já “uma realidade à qual não podemos fugir”.
“Em países como a China ou EUA, a condução autónoma é já uma realidade. Nestes países, as pessoas apanham um táxi sem condutor. Esta realidade decorre do processo de automação e da IA que tem impacto efetivo no mundo do trabalho”.
Também já hotéis (em Singapura) que “não têm um único ser humano a assegurar o serviço e o funcionamento do hotel”, num cenário em que a limpeza dos quartos “era assegurada por robots”, ou seja, já não se trata de filmes de ficção científica, mas de um presente que não pode ser varrido para debaixo do tapete.
“A IA existe e terá um impacto evidente na eliminação de postos de trabalho. Por isso, temos de nos preparar, sobretudo nas camadas mais jovens da população, para se defenderem e adaptar a esta nova realidade efetiva”, defendeu a vereadora, acrescentando que a melhor forma de enfrentar um mundo dominado pela IA “é aprender a lidar com ela”, criando mecanismos de resiliência e de adaptação.
Imposição do “tempo industrial”
A propósito da exposição, Pacheco Pereira fez um retrato histórico do trabalho, sustentando que o mundo laboral foi substancialmente alterado com a entrada em cena das fábricas, que passaram a pautar a contagem do tempo, pondo relógios nas instalações, para os operários, “vindos do campo e que eram sobretudo crianças e estavam habituados a trabalhar de sol a sol”, terem as noções certas do tempo.
“A imposição do tempo industrial é algo que ainda hoje perdura. Nós organizamos a nossa vida em função desse tempo industrial, que está no fundamento da sociedade contemporânea”.
Para o historiador e ensaísta, por muito que hoje se releve a importância do teletrabalho, da IA, a maioria dos portugueses “trabalha em fábricas”, num “mundo invisível” para grande parte da população, mas que continua a vigorar, sobretudo na zona Norte e nos arredores de Lisboa.
Foi também neste contexto operário que os trabalhadores portugueses tiveram as primeiras experiências das celebrações do 1º de Maio. De resto, disse o intelectual, as primeiras participações dos trabalhadores da Europa no 1º de Maio ocorrerem em contextos repressivos, tendo que “enfrentar as barreiras da polícia e o exército”, bem como as “milícias de extrema direita ligadas ao nazismo e ao fascismo”.
Pacheco Pereira recordou que o objetivo primeiro da luta dos trabalhadores, “oito horas de descanso, oito horas de trabalho, oito horas de lazer”, podem parecer hoje como algo “adquirido”, mas fizeram derramar muito sangue.
Em Portugal, as primeiras comemorações do 1º de Maio surgiram pelas mãos dos primórdios do Partido Socialista, por influência das ideias de Marx, Engels e o próprio Bakunine (um dos “pais” do movimento anarquista), segundo o historiador.
Esta tradição de celebração da data, anotou Pacheco Pereira, durou até 1926, a data do início da ditadura, que passou a encarar o dia como uma afronta e mandaria a polícia “varrer” as manifestações dos trabalhadores, com prisões e violência sobre as multidões. Nos anos de 1960, no auge repressivo da era salazarista, “morreram pessoas” às mãos da violência repressiva policial.
Pacheco Pereira lembrou ainda que, no pós 25 de Abril, a celebração do 1º de Maio transformou “o golpe militar num movimento de massas populares”.
O historiador, assumido ateu, confessou que, em Portugal, as organizações (mais progressistas) da Igreja Católica, como a Juventude Operária Católica (JOC), levaram para o terreno a Doutrina Social da Igreja, e tiveram um papel decisivo na luta pela melhoria das condições de trabalho dos operários durante o período do Estado Novo. “Por exemplo, estas organizações católicas foram as primeiras a denunciar as condições de trabalho das mulheres da indústria conserveira, que ficavam com as mãos desfeitas por trabalharem dentro de água salgada durante horas a fio”.
Citando as teorias da Doutrina Social da Igreja, Pacheco Pereira sublinhou que, para esta corrente filosófica dentro da Igreja, o trabalho “é não só identitário, como é a fonte das pessoas serem capazes durante a sua vida de terem um paraíso terrestre”, sendo este elemento “uma fonte fundamental nos nossos dias para compreender que a invisibilidade do trabalho é uma forma de combater o movimento operário”.
“Invisibilidade do trabalho”
Onde e como se manifesta a “invisibilidade do trabalho” na atualidade? “É na terminologia. Em vez de trabalhadores, são colaboradores, mas não são colaboradores coisíssima nenhuma! Se fossem colaboradores, tinham capacidade de decisão num conjunto de matérias para as quais jamais serão consultados. A expressão colaboradores é destinada a diminuir o papel do trabalho”.
De resto, essa agenda já terá tomado conta da narrativa oficial e do quotidiano da sociedade. “Quando nós vamos na rua, os trabalhadores já são invisíveis para nós. Os motoristas de autocarro, as pessoas que trabalham nos hotéis, nos supermercados, já para não falar aquelas que trabalham nas fábricas, tendem a ser invisíveis no mundo do trabalho.”
Mas, para Pacheco Pereira, já vai sendo hora de a sociedade mudar a forma como olha para os trabalhadores. “Esse trabalho deve ser dignificado e olhado com um respeito muito próprio, porque essas pessoas não vivem uma boa vida. As suas expetativas não eram aquelas, na maior parte dos casos. Gostariam de ter uma melhor habitação, um melhor emprego para os seus filhos, gostariam de poder gozar as férias, uma das grandes conquistas do movimento operário, mas não podem nem conseguem”.
Por tudo isto, nunca é tarde de mais para “nós olharmos com um respeito diferente daquilo que é nos dias de hoje o mundo do trabalho”, sublinhou, apontando para um dos cartazes da exposição que assinala a seguinte frase: “Nunca te esqueças que és um trabalhador”.
A exposição retrata a luta dos trabalhadores, ao longo da história, pelo direito a condições de vida mais dignas. Estará patente ao público até ao dia 11 de julho, podendo ser visitada de terça a sexta-feira, das 9h30 às 18h45, e aos sábados, das 9h30 às 16h45.










