BOXE DE MÃOS DADAS COM O ESTUDO

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A escola de boxe António Ramalho Boxing Spirit, no ginásio da Outurela, tirou crianças da rua e colocou-as de luvas em riste para «enfrentarem a vida fora dos ringues» e serem «seres humanos diferentes» e «grandes campeões nos estudos» e na modalidade.

Neste momento, esta instituição desportiva está a promover uma «espécie de ATL» para os 20 miúdos que frequentam o seu Centro de Apoio Escolar e pretende implementar, em agosto, o programa «Boxe para Todos», destinado às pessoas que estão interessadas em manter atividade física, independente de sexo ou idade.

Em tempo de férias de verão, a escola de Boxe António Ramalho Boxing Spirit, sediada a União de Freguesias de Carnaxide e Queijas, mais propriamente na Outurela, proporciona às 20 crianças do seu Centro Apoio aos Estudos diversas atividades de lazer e desportiva, nomeadamente Cinema com pipocas, banho de mangueira, jogos didáticos e piqueniques, sem nunca esquecer as suas necessidades de «acompanhamento escolar».

Apesar de ter que realizar os treinos ao «ar livre», porque o recinto que ocupam no pavilhão Carlos Queiroz confina com o centro de vacinação de Carnaxide, a escola de boxe tenciona alargar, em agosto, as suas atividades a todas as idades. Assim, durante o programa «Boxe para Todos», vão existir treinos e ginástica para todos os que queiram continuar a sua atividade física, às segundas, quartas e sextas feiras a partir das 18 horas.

Para António Ramalho, treinador de boxe da «António Ramalho Boxing Spirit», os seus «atletas miúdos» são uns vencedores dentro e fora dos ringues, tanto em termos desportivos como na sala de estudo, onde um grupo de voluntários os ajuda com os trabalhos de casa.

Desta forma, o treinador António Ramalho, que se iniciou no boxe aos 14 anos, após ter experimentado o futebol, tenta encaminhar os jovens mais rebeldes, dando-lhes «uma oportunidade de crescer e transformarem-se em ‘óptimos seres humanos’» e pelo caminho formar campeões na modalidade.




Adepto fervoroso do respeito pelas regras do Marquês de Queensberry, publicadas em 1867, e que «transformou» os combates de rua numa modalidade praticada por «cavalheiros», António Ramalho, um ex-praticante de boxe e de futebol, considera que é através «do estudo e do desporto» que se «consegue criar melhores pessoas» e, por isso, o chamado «padrinho» dos miúdos da União de Freguesias de Carnaxide e Queijas, que o «olham» como o «mestre que também os obriga a estudar» e a pensarem no futuro, defende que, «ao conseguir transformar um único jovem, já ganhou um ‘importante campeonato’».

António Ramalho que, antes de «andar ao soco» nos ringues nacionais, praticou futebol no Belenense, até aos 14 anos, iniciou-se na modalidade de boxe no Atlético de Algés e, aos 19 anos, já era «ajudante» do treinador Carlos Leitão, tendo chegado a conquistar como praticante uma medalha de prata num torneio internacional, o Boxan». «Foi talvez a maior vitória que tive. Em miúdo via os maiores nomes do boxe no ringue, adorava-os, e só pensava em subir para lá e ser como eles. Acho que nunca cheguei àquele nível dos meus ídolos. Mas, na verdade, era um dos melhores da categoria no meu peso e, por diversas vezes, fui internacional», afiança António Ramalho que, apesar de ser um bom atleta, optou pela carreira de treinador.

Ajudar os miúdos

Treinou alguns dos melhores boxeurs do país e, como treinador de boxe profissional, foi campeão mundial por três vezes. Hoje, dedica-se a tempo inteiro à escola que fundou no bairro da Outurela, cujo nome foi escolhido pelos seus alunos. «A vida nem sempre foi fácil. O boxe fez de mim um homem. Não me interessa se tenho aqui campeões ou não. Claro que gostaria de ter um leque de bons competidores e vencer tudo. Mas não é isso que mais me importa hoje em dia: o que quero é ajudar os miúdos como o meu treinador me ajudou», explica este treinador que foi fã, nos seus tempos de “menino e moço”, de um boxeur sul-americano, o Dino Fletas.

É, por tudo isto, que a escola de boxe de António Ramalho é mais do que isso: é um projeto de inclusão social, com mais de vinte anos de existência, que através do Boxe tenta incutir nos jovens os valores éticos e as boas práticas desportivas. Hoje, é uma escola de «formação de pessoas», onde para, além dos treinos, os alunos (mais carenciados ou menos) que ainda estudem têm, por exemplo, direito a explicações, uma sala de estudo e até refeições.

«Isto era um sonho que tinha há muito tempo, o de ser mais do que só um clube. Os miúdos, antes do treino e depois de saírem da escola, costumavam ficar na rua a ver passar as horas. Sem fazer nada. Agora podem vir estudar. Temos uma sala com computadores, por exemplo, onde eles podem fazer trabalhos da escola. E, antes disso, têm também um lanche, que é oferecido por nós», explica.

Aos melhores, a escola de boxe da Outurela garante um «incentivo». Aos que não conseguem bons resultados escolares, “castigos”. «Primeiro, converso com eles e tentamos perceber o que é que não correu bem. E o castigo é treinar mais. Mas também há incentivos. Ou seja, criámos bolsas de estudo para os melhores alunos. Se tiverem bom aproveitamento escolar e desportivo, é-lhes entregue uma verba. Somos nós que a gerimos. O que queremos é que eles aprendam o valor do dinheiro e como o devem utilizar mais tarde, quando trabalharem. Se precisam de uns ténis, de cadernos, de comida, nós compramos tudo com aquele dinheiro», explica António Ramalho.

Criar «hábitos de vida com uma forte ligação ao desporto e ao Boxe em particular», é o trabalho desta associação que, essencialmente, pretende «passar valores éticos porque ajuda a prevenir a violência no desporto, o racismo, a xenofobia e a discriminação social, fazendo-os crescer enquanto pessoas e enquanto cidadãos».

São estes valores que levaram a Associação António Ramalho-Boxing Spirit, uma IPSS (Instituição Particular de Solidariedade Social), sem fins lucrativos, a ser reconhecida pela World Boxing Council (WBC).

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