CORONAVÍRUS AFASTA CLIENTES DAS LOJAS CHINESAS

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O surto do novo coronavírus, que recentemente ganhou o nome de Covid-19, está na origem da campanha «Lisboa informada = Mais saúde e menos discriminação», lançada pela Câmara de Lisboa, Direção Geral de Saúde e Embaixada da China.

Para combater o estigma associado ao novo coronavírus (o Covid-19) que está a afetar a comunidade chinesa em Portugal, a Câmara Municipal de Lisboa, a Direção-Geral da Saúde e a embaixada da China juntaram-se esta manhã para um passeio pelos restaurantes e lojas chinesas do Martim Moniz, em Lisboa. O objetivo foi lançar uma campanha informativa sobre o COVID-19 e desmistificar a relação entre a comunidade chinesa e o vírus.

Num momento em que existem 51 casos identificados e que o SNS – 24 recebeu mais de 6.500 telefonemas de triagem, o receio de que o surto de coronavírus se propague em Portugal já tem efeitos visíveis no comércio chinês em Lisboa, que está a registar uma quebra de vendas. Para contrariar atitudes discriminatórias e mostrar a «solidariedade pela comunidade chinesa que vive e trabalha em Lisboa», o vereador Manuel Grilo, do pelouro dos Assuntos Sociais da Câmara Municipal de Lisboa, a diretora Geral de Saúde, Graça Freitas, e o Embaixador da China em Portugal, Cai Runa, «andaram» pela zona do Martim Moniz a «transmitir informação sobre o COVID-19 e desmistificar a relação entre a comunidade chinesa e o vírus», através da divulgação de uma brochura informativa em português e mandarim.

Amizade genuína

O embaixador Cai Run salientou, no decorrer da visita, que «durante o combate à epidemia, a China e Portugal têm mantido coordenação e colaboração estreitas, o que é uma forte prova da amizade genuína entre os dois povos».

A diretora geral de Saúde afirmou, perentoriamente, que a «associação deste vírus à comunidade chinesa é totalmente errónea», referindo que é «frequentadora assídua de restaurantes e lojas chinesas», por considerar que os produtos chineses são seguros.





A ideia deste passeio, que terminou com um almoço num restaurante chinês, partiu do vereador Manuel Grilo por ter notado que os lisboetas se estavam a afastar de estabelecimentos geridos ou frequentados por chineses. «Tem havido um abrandamento dos negócios da comunidade chinesa, nomeadamente nos restaurantes chineses», pelo que surgiu a necessidade de «dar um sinal público contra a discriminação», defende Manuel Grilo, sublinhando que «é seguro consumir os produtos chineses, é seguro estar com pessoas chinesas e, também, é seguro apertar a mão a pessoas chinesas».

A mesma opinião é partilhada pela vereadora Paula Marques, que se juntou posteriormente à comitiva na visita à Unidade de Saúde Familiar da Baixa, «esta ação, a distribuição destes folhetos, visa informar tanto os portugueses como os chineses sobre as medidas de prevenção e contenção que estão a ser implementadas».

Já para Graça Freitas e Manuel Grilo, «não devemos discriminar de forma alguma as pessoas pela sua origem e não é seguramente isso que fará diferença alguma».

Além disso, reforçam, esta comunidade «tem tido uma atuação irrepreensível» no combate à propagação do surto do Covid-19. Os chineses em Portugal que viajam para a China e regressam ao país estão a cumprir períodos de quarentena de forma voluntária.

A diretora-geral da Saúde elogiou a postura da comunidade chinesa, revelando que há 50 cidadãos chineses em isolamento voluntário. «Mais do que uma medida de saúde pública, esta é uma medida de generosidade», destaca. «O que estes cidadãos estão a fazer é mais do que proteger os outros de uma doença. Estão a proteger os outros do alarme social, do medo, do desconforto», afirma.

Eveline Jin, neta de Xiao Ying Xu (de Xangai), proprietária do «The Milktea», é uma das jovens chinesas que «levam a comida» aos seus conterrâneos em quarentena, tendo adiantado a Olhares de Lisboa que, curiosamente, tem «vindo a notar uma quebra nos clientes chineses que frequentavam o estabelecimento. Os portugueses continuam a vir».

A jovem, que diz desconhecer casos de coronavírus na comunidade, lembra que os primeiros chineses que voluntariamente entraram de quarenta já saíram e que os segundos vão sair brevemente.

Tranquilizar portugueses

No entanto, independentemente das medidas de prevenção e contenção que estão a ser tomadas pela comunidade, Eveline Jin defende que é necessário explicar aos clientes portugueses que é seguro frequentar restaurantes e lojas da comunidade.

Ping Chow, presidente da Liga dos Chineses em Portugal, «desdramatiza» o clima de pânico que se vive. «A prevenção, por enquanto, é a única forma de controlar a epidemia. Por isso, aconselhamos os chineses que chegam da China a isolarem-se durante 14 dias», frisa, acrescentando ainda que quem não tem condições económicas para ficar esse período sem trabalhar, não fica para trás. Está disponível um fundo, angariado pela comunidade chinesa, para prestar apoio financeiro aos casos mais vulneráveis. «Estas medidas são importantes para transmitir um sinal de tranquilidade aos portugueses», conclui Y Ping Chow.

O embaixador chinês, por seu turno, salienta que as ações preventivas têm sido essenciais para afastar o «preconceito e o afastamento do público das lojas e restaurantes chineses», lembrando que a Embaixada chinesa em Lisboa «comunicou atempadamente às autoridades portuguesas a evolução da epidemia do novo coronavírus «e que continuará a «assumir as obrigações internacionais para assegurar a segurança das pessoas».

China e Portugal estreitaram cooperação

O embaixador Cai Run, reconhece que, «durante o combate à epidemia, a China e Portugal têm mantido coordenação e colaboração estreitas, o que é uma forte prova da amizade genuína entre os dois povos», recordando que o Governo chinês tem procurado ajudar as autoridades «no repatriamento de portugueses de Wuhan, que regressaram a Portugal sãos e salvos».

Para reiterar esse espírito de cooperação entre os dois países, o embaixador da China referiu a carta de solidariedade enviada pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ao seu homólogo chinês, Xi Jinping.

«A fraternidade sempre fica mais patente nos tempos difíceis», afirma o embaixador, recordando o apoio de «mais de cem personalidades políticas de dezenas de países», fazendo uma menção particular ao secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, a quem agradece a confiança «na vitória da China neste combate à epidemia».

A China elevou esta sexta-feira para 636 mortos e mais de 31 mil infetados o balanço do surto de pneumonia provocado por um novo coronavírus (2019-nCoV) detetado em dezembro passado, em Wuhan, capital da província de Hubei (centro), colocada sob quarentena.