COVID OBRIGA A PENSAR NO «DIA DE AMANHû

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O Covid-19 provocou mudanças profundas nos hábitos de consumo e de aferrolhar dos portugueses. Hoje, todos pensam «no dia de amanhã». Estão a mudar os padrões de vida e procuram serviços que permitam aumentar o conforto e a qualidade de vida.

Os portugueses estão a poupar mais. Até à pandemia do Covid-19 as despesas inesperadas e as viagens eram os principais motivos de poupança dos portugueses nos últimos quatro anos. Agora, tudo mudou e todos pensam «no dia de amanhã». Por isso, hoje mais do que nunca, estão a alterar os hábitos e apostar na melhoria do conforto dos lares e a aferrolhar «algum» para o «que der e vier».

Até aqui, «viajar era o segundo maior motivo de poupança para os portugueses (42%), valor superior à média europeia que se situou nos 40%. O principal motivo, tanto para os portugueses (76%) como para os restantes inquiridos europeus (67%) é a poupança para despesas inesperadas», refere um estudo da Intrum.

O ‘European Payment Consumer Report’ revelou ainda que 59% dos portugueses consegue poupar dinheiro mensalmente, uma percentagem similar à média europeia.

Assim, a poupança média dos portugueses é de 193 euros mensais, «valor substancialmente superior ao do ano passado que foi de 80 euros», enquanto a poupança média mensal dos europeus fixou-se em 255 euros.

Compras a crédito

A compra de viagens a crédito, com um plano de pagamentos ou dinheiro emprestado não são opções que agradam à maioria dos inquiridos, sendo que apenas 16% concorda com este método e 66% diz que discorda, valores que estão alinhados com a média europeia que é de 16% e 64%, respetivamente.

«Os portugueses, cada vez mais, poupam dinheiro para situações inesperadas do dia-a-dia, mas também se preocupam com o seu bem-estar físico e psicológico e, por isso mesmo, viajar é um dos principais motivos de poupança tanto para os portugueses como para os restantes países inquiridos», sublinhou, citado no mesmo documento, o diretor-geral da Intrum Portugal, Luís Salvaterra.

De acordo com este responsável, saber gerir as poupanças e criar prioridades de pagamento são medidas essenciais para evitar constrangimentos financeiros nos orçamentos familiares.

Poupar «só debaixo do colchão»

Mas, com as taxas de juro negativas a penalizar os depósitos a prazo, dando-lhes uma rentabilidade praticamente nula, há quem prefira meter as poupanças «debaixo do colchão» em vez de no banco Em concreto, um em cada dez portugueses que poupam guarda o dinheiro em casa, diz por seu turno o Banco de Portugal.

O Inquérito à Literacia Financeira da população portuguesa, realizado pela Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, o Banco de Portugal e a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) destaca a «pouca proatividade na aplicação da poupança, uma vez que 60,8% dos que poupam afirmam deixar o dinheiro na conta de depósito à ordem e 14,5% referem guardar o dinheiro em casa».

Mas, segundo o Banco de Portugal, os consumidores portugueses estão a poupar mais do que em 2010. Perto de 60%% tem comportamentos de poupança. Uma percentagem que supera os 52% registados no inquérito anterior. Mas apenas 30,3% diz poupar com regularidade. Entre aqueles que não poupam, 87,8% referem que o rendimento não o permite, enquanto 9,1% afirmam não ser prioritário.

Quase 45% dos inquiridos que poupam, dizem ter como principal objetivo fazer face a despesas imprevistas, enquanto 23,9% procuram cobrir despesas futuras não regulares e 20,8% poupam para a aquisição ou substituição de bens duradouros.

Pandemia mudou «regras de jogo»

Contudo, mais de 70% dos portugueses admite que as suas prioridades financeiras mudaram com a pandemia do Covid-19, de acordo com um estudo realizado pelo banco digital N26. «Todos vemos o impacto que o vírus Covid-19 tem tido na nossa rotina do quotidiano, mas talvez seja menos óbvio o enorme impacto que tem tido, também, nas nossas finanças quotidianas», afirmou Sarunas Legeckas, diretor-geral da Europa da N26.

«A nossa pesquisa demonstra claramente o stress e as preocupações financeiras trazidas por esta pandemia global, e como os portugueses mudaram não apenas a sua forma de viver, mas também de realizar operações financeiras».

Em Portugal, 78% dos inquiridos afirma que as suas prioridades financeiras foram alteradas como resultado da situação atual. «As preocupações com a saúde própria (55%) e a dos entes queridos (47%) estão em primeiro plano no nosso país, seguidas pelas preocupações com a família (46%) e financeiras (38%) e ainda as relativas à segurança do emprego (26%)», refere o estudo.

No entanto, mais de um terço (33%) admite não estar a poupar mais, agora, do que antes desta crise. «Já os respondentes que dizem estar a poupar mais dinheiro neste momento, partilhando que essas poupanças têm sido, em média, na ordem dos 146 euros por mês», refere o estudo da N26.

Mudança de hábitos de consumo

O estudo também lança luz sobre a mudança de hábitos de consumo dos portugueses: 85% admite ter alterado o tipo de compras que faz a cada mês. «E se as compras de supermercado continuam em primeiro lugar na lista, tanto antes como durante a pandemia, os gastos com refeições fora de casa e aquisição de roupa, anteriormente em segundo e terceiro lugares, são agora substituídos por serviços de streaming/subscrições e refeições para levar/entrega em casa, respetivamente”, informa o banco digital.

As opções onde gastar o dinheiro também se alteraram, com cerca de metade (49%) a afirmar que, de agora em diante, passará a optar pelos pagamentos contactless, enquanto outros 25% admitem que provavelmente também o farão. Neste momento, este tipo de pagamentos está indicado como uma possível forma de prevenir a propagação do vírus.

Quem ganhou com o confinamento

Todavia, durante o confinamento, sentiram-se fortes alterações nos padrões de procura e consumo dos portugueses e, de acordo com a SIBS, registou-se um aumento de 18% no valor médio das transações online durante o período do Estado de Emergência, estima-se, em simultâneo que o e-commerce tenha crescido em 40% a 60% com o confinamento.

O mercado da contratação de serviços online não passou despercebido aos consumidores e de 22 de Março a 02 de Maio de 2020 (período do Estado de Emergência), tendo sido registado, na plataforma Fixando, um crescimento médio na procura de serviços de 120%, com um aumento médio estimado do valor total de transações em pelo menos 75.000 euros quando comparado com o período homólogo do ano anterior.

No mesmo período, verificou-se uma quebra na ordem dos 90% em serviços relacionados com eventos (que em valor de transação estimado significa perdas mínimas de 370.000 euros no sector), os serviços relacionados com a casa conseguiram aumentar o seu nível médio de transação, resultando num aumento do valor total de transações de pelo menos 875.000 euros.

Já os serviços de entregas, tratamento de animais ao domicílio, reparação de eletrodomésticos e equipamentos eletrónicos, e serviços de melhoria da habitação foram os mais procurados, o que inflacionou os preços. Nas entregas, o valor médio de transação que, em 2019, era de 18 euros passou, durante o período de confinamento, para 44 euros.

Já no que diz respeito ao desconfinamento, registou-se um crescimento exponencial na procura de serviços nos primeiros dias e que se tem vindo a manter até à data. Os portugueses estão agora, não só a procurar os serviços que adiaram devido ao isolamento, mas também a mudar os seus padrões de consumo e de vida, na medida em que procuram, cada vez mais, serviços que permitam aumentar o conforto das suas casas e a sua qualidade de vida.

Aconselhamento matrimonial

Mas a crise também trouxe novas «oportunidades de negócios», destacando-se o expandir exponencial dos solicitadores, com um crescimento de 1100% e o aconselhamento matrimonial, com um crescimento de 667%., revela a Fixando, uma plataforma online de origem portuguesa que facilita a contratação de serviços locais.

No que diz respeito às categorias mais procuradas, sublinhamos a Certificação Energética de Edifícios, que revela um retorno à normalidade, a Limpeza da Casa (serviço recorrente) e o Hotel para Cães, demonstrando um sinal de esperança por parte dos portugueses quanto às férias de Verão para 2020.

O confinamento fez também com que muitos profissionais alterassem os seus hábitos de trabalho: para uns, bastou a transição para o digital, contudo, para outros, a única alternativa foi a reinvenção do seu trabalho, experimentando outras áreas e indo em busca de soluções que lhes permitissem manter os seus rendimentos, registando-se um aumento de 940% dos profissionais na área das entregas de refeições (resultado da adaptação das empresas de catering e restaurantes), aumento de 790% nos serviços de estafetas (visto ser uma área onde não é necessária uma formação exaustiva e onde é fácil aferir rapidamente bons rendimentos), um aumento de 620% nas áreas de Coaching Pessoal e de Bem-Estar e um aumento na ordem dos 490% em diversas categorias ligadas à área do ensino (aulas de português, explicações de história, entre outras).

AML estuda mobilidade da população

Entretanto, a Área Metropolitana de Lisboa está a participar num estudo sobre o impacto da Covid-19 e a mobilidade da população, que vai ser realizado pelo Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, da Universidade de Lisboa, e que terá também a parceria da Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade Nova Lisboa, Faculdades de Farmácia e de Medicina da Universidade de Lisboa, Administração Central do Sistema de Saúde, e ainda o apoio das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto.

Designado por COMPRI_MOv, o estudo permitirá não só identificar as áreas de risco a partir da intensidade de fluxos, motivações e padrão geográfico, e a sua relação com as dinâmicas demográficas, socioeconómicas e epidemiológicas, mas também construir um sistema de monitorização para apoio à decisão da evolução da pandemia. Uma das componentes do estudo consiste na identificação das alterações dos modos de utilização dos transportes públicos e na identificação dos principais nós de concentração de passageiros após a primeira vaga da pandemia.

A ser desenvolvido durante seis meses, o estudo revela-se de particular importância, uma vez que a análise da mobilidade da população, com a retoma gradual das atividades, é fundamental para conhecer a propagação da pandemia, adianta a AML.

 

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