Marchas de Lisboa | NEM O SANTO ANTÓNIO PAROU O ALTO PINA

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Em vésperas de Santo António, Lisboa é uma explosão de cores e alegria. As Marchas Populares descem a Avenida, os espetadores olham e apreciam os fatos e as marcações de marcha de cada um dos participantes.

Nota de Redação: Como era previsível e como Olhares de Lisboa tinha anunciado, a Câmara de Lisboa e a EGEAC puseram termo às dúvidas: em 2020 não haverá marchas populares, arraiais e casamentos de Santo António, ficando tudo adiado para 2021.

Em 2019, ano em que se comemorou a 87ª edição, as Marchas Populares de Lisboa saíram à rua sob o tema «Santo António e Lisboa e do Mundo», homenageando o santo mais popular dos alfacinhas, que é também adorado um pouco por todo o mundo.

Aliás, o refrão da Grande Marcha de Lisboa é bem claro sobre o culto «ao nosso querido Santo António»: «…Que pede, suplica ao passar/É marcha popular/Oh meu querido Santo António/De Lisboa e do mundo…»

E se a sabedoria popular diz que a descer todos os santos ajudam, em 2019, as 24 Marchas Populares pediram ajuda ao santo de todos os lisboetas para descerem a Avenida e mostrarem o esforço de quase um ano de trabalho.

Encostados às grades que «proíbem a passagem para a Avenida», as claques esperavam ansiosamente a passagem da sua marcha. Cada um acredita na sua: «hoje é que têm de dar o litro para ver se ganham». Pelo meio lá vão lançando o «grito de guerra»: «Ié, ié, ié a minha marcha é que é».

No ano passado, para além do Alto do Pina, vencedor incontestável, no pódio das Marchas Populares ficaram Alfama, que conseguiu o segundo lugar depois de vencer em 2018, e a Penha de França, que ficou em terceiro.

«O Alto do Pina chegou, a todos encantou» e foi tudo à sua maneira cantava, de uma forma premonitória, a Marcha do Alto Pina, durante o desfile na Avenida da Liberdade. De facto, o Alto do Pina confirmou as previsões e venceu as Marchas Populares de Lisboa 2019.

Esta é a quarta vez que o bairro do Alto do Pina ganha esta competição. No segundo lugar ficou Alfama, depois de ter ganho no ano passado, e no terceiro ficou a Penha de França.





A nossa marcha é que é …

Aos gritos de “Ié, Ié, Ié” e “A nossa marcha é linda”, milhares de lisboetas dão, anualmente, as boas-vindas às marchas populares que se exibem na Av, da Liberdade.

No ar, sente-se o cheiro a gente determinada a tentar levar o seu bairro à vitória. Entre um «veja lá que o nosso bairro tem a melhor marcha» e as letras das marchas cantadas em coro a uma só voz, não se pode negar que dá vontade de fazermos parte daquele mundo.

Em 2019, a Marcha convidada veio de Ribeira de Frades, uma pequena aldeia do concelho de Coimbra, com um bairrismo muito próprio. A Marcha de Ribeira de Frades abriu o desfile no «Tempo Mais que Perfeito», numa referência a um passado e presente que se cruzam para formar memórias profundas.

De seguida, nada melhor que «um sorriso de uma criança», com «muitas brincadeiras e travessuras» para mostrar que «Lisboa menina e moça desperta e vai à janela espreitar o amanhecer», depois sai «com um ar namoradeiro e a saia cor do mar» para ver passar a Marcha Infantil da Voz do Operário que apenas pede: «Queremos o verde que tem a natureza/À nossa volta para não haver tristeza/Queremos ter tempo para ver e aprender/A ser amigos, amigos a valer».

Fado, sempre presente

Intimamente ligado às marchas populares está o fado, representativo de um património único lisboeta. Numa «viagem de descoberta contínua», a saudade e o Fado uniram-se para consolidarem a nossa identidade e, como disse Fernando Pessoa, o Fado «é o nada que é tudo», cuja «lenda se escorre / A entrar na realidade».

E foi precisamente o fado que a Marcha dos Mercados elegeu como tema, afiançando que «os mercados de Lisboa, onde muitos fadistas nasceram, trazem o fado no coração». E, como dizem na canção: «Maria Flor/Junto aos cravos encarnados/Escutei a sua canção/E sei agora/Que há em Lisboa, Mercados/Com fado no coração».  Mas, a Marcha do Mercado não esqueceu os típicos elétricos lisboetas e, dessa forma, canta: «Estava à cunha, o amarelo/Mesmo antes de ali passar/Mas respondendo ao apelo/Teve logo que parar».

As marchas populares conservam uma vitalidade invejável graças às centenas de pessoas que se empenham em manter a tradição viva, passando o testemunho de geração em geração, como lembrou a Marcha da Santa Casa que, orgulhosos dos seus mais de 500 anos, ainda dizem à cidade que «estão aí para as curvas» e vão marchar «até que o pé e a voz doam».

 

Amores perdidos

Já o bairro do santo padroeiro de Lisboa, S. Vicente, o primeiro a concurso a desfilar, contou a «estória de amor» entre um cocheiro, o Tozé, e uma criadinha espevitada de seu nome Filó, revivendo, desta forma, a época dos coches e dos carros engalanados que, constantemente, cruzavam as ruelas de S. Vicente, recordando: «São vicente tem a sua fidalguia/Com palácios, carruagens e brasões …/Entre os aios e os lacaios de uma casa/A criada e o cocheiro … estão a ver/Ela é linda, põe-lhe o coração em brasa/E ele afasta o alazão só para a ter…»

A Marcha de Carnide, além de apregoar que já existem arraiais no coreto, apelou: «Dança comigo, Carnide/Dança comigo/Que é neste bailarico/Que o mestre ou o maçarico/Passam a noite a dançar», lembrando: «No arraial de Carnide/Fazemos com precisão/Tantas fitas e enfeites/Bandeirinhas e deleites/Nas ruas desta canção».

E, como por entre ruas e ruelas, jardins, escadinhas, becos e fontes já se sente o cheiro da sardinha assada dos arraiais, a Marcha da Bica afinou as vozes e cantou: «Toda a gente já saiu para o arraial/Por lá se encontram mulheres ditas de má vida/E outras senhoras que a má língua não comenta/Que a nossa marcha quando desce a Av./Baralha o  tempo e volta aos anos 60».

E falar de Lisboa sem falar do Tejo é como ir «a Roma e não ver o papa», a Marcha de Alfama lembra que o «Tejo sempre abraçou Alfama antes de se lançar ao mar, proporcionando o sustento diário às suas gentes. E, daí o refrão: «Quero abraçar Alfama/Antes de me lançar ao mar/Teu povo muito te ama/sempre que canta te chama/Não há nada a recear».

O 60º aniversário de Campolide, que cresceu com a criação da Calçada dos Mestres e do Bairro da Serafina, foi recordado na Avenida. A Marcha da Bela Flor/Campolide homenageou o seu património, na figura do aqueduto das Águas Livres e das suas gentes, evocando os seus pátios, as suas vilas e o seu espírito bairrista e, como não poderia deixar ser, o «regressar do tilintar do Elétrico 24»: «Tantos pátios centenários/Tantas vilas e cenários/De uma revista de outrora/A mudar a toda a hora/E o vinte e quatro que passa/A tilintar a sua graça/Põe ares de coisa mundana/Na saia de uma cigana».

Em mês de sardinha assada e arraias, a Marcha da Ajuda decidiu lembrar os assadores dos arraiais que saem para a rua neste mês de santos populares. Na prática, a Ajuda quis homenagear aqueles que trabalham nas grelhas dos arraiais e, com amor e paixão pelos bairros e marchas, dedicam grande parte do seu tempo para que tudo decorra «segundo os conformes…».

Lisboa das tascas e da ginja

A baixa das tabernas e tascas, da ginginha e dos pregões populares da Lisboa antiga que a Marcha da Baixa não quer deixar morrer e, por isso, ainda «bate o pé» ao recordar: «O importante, o importante/Era o vinho o importante/A caneca ia acima/Depois logo vinha a baixo» e, talvez devido a isso: «Andavam de esquina, em esquina/A partilhar felicidade/Pelo povo e a gente fina/Que povoava a cidade/ Não havia ‘telélé’/Não havia o ‘fast food’/Eram pregões do Zé/Era toda uma atitude».

A Lisboa dos nossos dias, à semelhança do que sucedia num passado distante, sempre foi uma capital multi-cultural e, pelo bairro da Madragoa, onde desde sempre existiu gente de todos os tipos e credos, passaram muitas culturas que contribuíram para a sua expressão e identidade. Tendo isso em conta, a Marcha da Madragoa «recriou» o Sítio do Mocambo – local onde, até finais do sec. XIX, se concentrava um maior número de africanos que habitavam em cubatas. Assim, a Madragoa entoava, alto e bom som: «Olha a Madragoa vai tão engraçada/Baila na cubata – Desavergonhada/Veio de visita para ver o Mocambo/Vestida bonita com um belo mambo/Tirar uma rodilha em tranç’africana/Misturou missangas com a filigrana/Só peca numa coisa que não vai levar a mal/Não meteu o avental de tecido capulana».

As chaminés a fumegar, as colinas salpicadas nos mais diversos tons, a multiplicidade de odores e a presença daqueles que delas cuidam, os limpa-chaminés, tornam Lisboa numa tela de Bual, Júlio Pomar ou Maluda. E, «voando sobre os telhados de Lisboa» e com o apelo: «Ó Maria, olha os limpa chaminés», a Marcha da Penha de França retratou a Lisboa de outros tempos, cantando: «Sobe aos telhados, limpa-chaminés/e grita quem és/… de lá de cima tens Lisboa aos teus pés/… de lá vês tudo de lés a lés».

As vilas operárias de Lisboa, criadas nos princípios do século XX, fazem parte integrante do património arquitetónica de Lisboa, também «desfilaram pela mão» da Marcha da Graça que, desta forma, homenageou esses bairros que já se tornaram ex-libris da capital. Mas, como não poderia deixar de ser, a Marcha da Graça «puxou a brasa à sua sardinha» e homenageou a Vila Berta, dedicando-lhe o seu tema: «Anda Berta/Vem saltar uma fogueira/E dançar a noite inteira/Vem dai para o bailarico/Vila Berta/És esperta e ladina/E com o teu ar de menina/Vais arranjar namorico».

O espírito bairrista voltou a «assentar arraiais» com o Zé do Beato, figura típica das festas de Lisboa que, de bailarico em bailarico, andava à procura de namorada. E, como boa casamenteira, a Marcha do Beato arranjou-lhe namorada: a Maria Lisboa. Pelos diferentes bailaricos andaram entoando: «Vamos lá/bater o pé/pelas ruas de Lisboa/a Maria e o José/são figuras de proa/… nesta noite/de alegria/cá nos bairros lisboetas/baila o Zé/e a Maria/até os velhos marretas».

Também fiel às suas tradições e querendo homenagear profissões tradicionais de Lisboa, que ainda fazem parte de um imaginário da cidade que se pretende manter viva, a Marcha de Marvila levou à Avenida os «heróis da fuligem», os operários e operárias que nas mais diversas indústrias contribuíram para o progresso do bairro. E, assim, «Na oficina ou na fornalha/Para ganhar o seu salário/Fato-macaco ou bata de cotim/Noutros tempos era assim/Que vestia o operário».

Todavia, como «cada bairro é um noivo que com ela quer casar», a Marcha do Bairro da Boavista cantou, a quatro ventos: «Só pelo meu bairro/Sinto esta paixão/Que me conquista/E é de Lisboa/É boa, tão boa/Boa…vista».

A globalização e a «internacionalização cultural» da capital portuguesa vieram «à baila» com a Marcha dos Olivais que contou, através da música e coreografia, «uma história onde também o Santo António é uma figura central», pois os turistas e o pessoal de bordo chegam a Lisboa para … «ver como ela é linda na noite de Santo António». Assim: «Ao chegar e ao partir/De onde vens, p’ra onde vais/Sempre, vais e hás de vir/Do bairro dos Olivais/Diziam-se da Portela/Mas ninguém o diga mais/O aeroporto, coisa bela/É mesmo dos Olivais».

No entanto, como a noite já ia longa e os foliões precisavam de matar a sede, a Marcha da Mouraria levou, à Avenida, as olarias e os aguadeiros, que em tempos passados carregavam as bilhas de água de cerâmica e, por isso, a Mouraria convidava os presentes e os telespectadores a: «Vem comigo desfilar/Ó minha oleira bonita/Dá-me um braço, vem amar/…Traz o teu vestido novo/Vem arraial empolgar/Sou uma mulher do povo/Basta dançar e cantar».  O fado também esteve presente: «Oleiros de par em par/Vêm lembrar a Severa/E contar como ela era/Num fado que vão cantar».

Mas, como salienta a Marcha do Parque das Nações, o sonho também fez parte dos «grandes portugueses que, ao longo dos séculos, fizeram dos descobrimentos a grandeza de Portugal. «As princesas dos Oceanos», enquadradas por marinheiros, trouxeram: «A princesa estouvadinha/lá vem ela/… a pensar ser rainha», mas «trazes bem o retrato/do oceano guerreiro». Apesar de novo, o Parque das Nações levanta bem alto os seus pergaminhos bairristas, recordando: «És cidadela a fervilhar/por onde passam multidões/com o sol sempre a brilhar/Só no parque, só no parque/só no Parque das Nações».

Através da história também andou «altaneira» a Marcha do Castelo que, a toque de caixa, desceu a velha colina para desfilar na Avenida da Liberdade e, qual milagre de Santo António, «ressuscitou» os «velhinhos» uniformes de bandas e fanfarras militares e os tambores do Castelo de S. Jorge. Mas para que isso tivesse acontecido: «abriu-se a porta ao castelo/saiu marcha triunfal/no seu porte altivo e belo/tem encanto natural/as raparigas airosas/são como alegres flores/corações a arder/até fazer crer/que todo o bater/são alegres tambores».

 

 

Alto lá com o Alto do Pina

«Alto lá com o Alto Pina», foi o mote do desfile triunfal da Marcha do Alto Pina que, desta forma, fez jus ao seu bairrismo e também ao amor que as suas gentes nutrem pelo bairro que, como uma Fénix renascida,  tenta manter as suas tradições vivas, envolvendo-se na modernidade dos tempos que correm. Assim, e «A Volta do Alto do Pina» lá foi dizendo: «Um bairro com gente/Bem fiel e crente/Do seu próprio poder/Que do Alto desceu/E depois renasceu/Com ganas de vencer».

A Marcha de Alcântara, por seu turno, recordou que Lisboa é, provavelmente, a última das principais cidades europeias onde ainda é possível encontrar pelas ruas profissões em vias de extinção como engraxadores, cauteleiros ou amoladores. Num fiel «retrato» à profissão de amoladores, os marchantes cantavam: «Gira, roda gira/Como o mundo vai girando/… Que a vida vai-se amolando/… A gaita volta a tocar/… Nada agora o faz parar», porque «Há amolador à porta/De novo a voz apregoa/Roda a roda que transporta/Saudades desta Lisboa».

Mas, como junho é mês de folia, o Bairro Alto lá vai cantando: «Bate palmas/trás, trás, trás/bate o pé/tem tum, tum/a marchar/para a frente e para trás/como bairro/não há mais bairro nenhum/mão no ar/oeo/sem cansaços/oeo/abre os braços/alguém te ensinou/… o Bairro Alto é que é».

A Marcha do Bairro Alto também fez questão de lembrar o típico engraxador «que andava e morava» no bairro que «O Sol viu sob o seu doirado manto/sair à rua o velho engraxador/com uma caixa cheia de espanto/de quem o vê passar com tal esplendor».

Jornalista Augusto Madureira vence Grande Marcha de Lisboa 2019

 

 

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