MARCHAS DE LISBOA – PRIMEIRO A SAÚDE E DEPOIS A FESTA

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«Ó meu rico Santo António, em junho ninguém te vai ver marchar» e o tradicional «pãozinho de Santo António» este ano tem de ser requisitado online. Mas, as coletividades com marchas populares realizaram várias ações a recordar a data.

O Santo António une as pessoas e os bairros lisboetas. Quase «toda a gente» se envolve nestes dias, seja com as suas «barraquinhas», seja ajudando a enfeitar as ruas ou participando nas marchas. Todos fazem sacrifícios. Mas fazem-no pelo gosto pelo bairro e pelo orgulho de dizer que a festa aqui é melhor e que a nossa marcha «é a maior do mundo».

Hoje, seria a noite dia e «o momento» em que a Avenida da Liberdade recebia as marchas a concurso e onde, finalmente, seriam apreciadas pelos alfacinhas e forasteiros as coreografias, as músicas, as roupas, os arcos e as marcações de cada coletividade.

Mas, este ano, não é assim. A chegada do novo coronavírus veio baralhar tudo e pela cidade: não há marchas nem arraiais e não se «sente o cheiro» da sardinha assada. Também, este ano, a noite de Santo António não se vai pintar com as cores da habitual festa. Não vai haver o tradicional desfile na Avenida da Liberdade e nem vai haver grupos de foliões a «bailar e a cantar» pelas ruas dos bairros alfacinhas, com um copo de cerveja ou de vinho na mão.

Marchantes tristes, mas esperançados em melhores dias

Hoje, no dia em que a cidade deveria encher-se de música, cor, brilho e emoção, naquela que é para muitos a noite mais esperada do ano, os responsáveis das marchas, contactados pelo Olhares de Lisboa, mostram tristeza por não verem arcos e cor a desfilar pela Avenida da Liberdade, mas dizem que é por um bem maior, a saúde.





A maioria das coletividades afastam a realização de festas presenciais, optando pelas redes sociais para recordarem esta noite «tão desejada» pelos lisboetas.

Pedro Jesus, responsável pela marcha vencedora em 2019, a do Alto do Pina, não esconde a sua tristeza «por não haver estes festejos, pois Lisboa e os bairros vivem disto, mas algo maior se tem de proteger que é a saúde de todos».

Este responsável revela que a Associação Ginásio do Alto do Pina vai aproveitar para lançar memórias de tempos antigos nas redes sociais como forma de assinalar a data, lembrando que, durante o dia de hoje, o Alto Pina esteve em todos os canais generalistas.

Também desolado, Marco Silva, da Sociedade Musical 3 de Agosto, entidade que organiza à Marcha de Marvila, anuncia que alguns marchantes, fardados com as roupas do ano passado, «vão andar de autocarro pelas ruas e bairros da freguesia cantando alguns dos temas mais conhecidos da marcha».

Esta iniciativa, apoiada pela Junta de Freguesias de Marvila, não consegue «fazer esquecer» que já «havia trabalhos em curso, nomeadamente letras e arranjos musicais, coreografia projetada e até já tinham começado os ensaios de canto».

O Teatro de Carnide, organizador da  Marcha de Carnide também optou por andar, numa carrinha de caixa aberta, pelas ruas da freguesia. Trajando com as mesmas vestes do ano passado, esta marcha levou também aos habitantes da freguesia um pouco «do cheiro e da cor das festas de Lisboa».

Pedro Santos, do Grupo Desportivo da Mouraria, organizador da marcha da Mouraria, não esconde a sua desolação, salientando que vão cumprir a decisão de não haver festejos. Contudo, lá para o fim do mês, em função da evolução da pandemia, podem organizar qualquer «coisa com os músicos e os marchantes nas ruas» deste típico bairro.

O mesmo pensa o coordenador da marcha de Alfama, organizada pelo Centro Cultural Magalhães Lima, João Ramos adianta que todos «vamos estar em casa a recordar online os momentos mais marcantes das marchas», mostrando-se esperançado que no próximo ano os desfiles na Avenida e a festa voltarão.

A mesma posição é assumida por José Caroço, da marcha de Belém (do Belém Clube), porque «estes não são tempos de festejos» e todos devemos cumprir as regras da direcção Geral de Saúde.

Segundo Bruno Santos, da Academia Recreativa dos Leais Amigos de S. Vicente, entidade responsável pela marcha de S. Vicente, «as festas vão ser comemoradas através da publicação de memórias, nas redes sociais».

Mas, como «recordar é viver», Catarina Esteves anuncia que a marcha da Bela Flor Campolide (organizada pela Associação Viver Campolide) tem marchantes, em grupos muito reduzidos, nas ruas a distribuir T-shirts e a oferecer flores na freguesia.

Também a marcha de Alcântara, da Sociedade Filarmónica Alunos Esperança, segundo David Ferreira, em conjunto com a Junta de Freguesia, tem cinco pares de marchantes a «dar manjericos aos mais velhos» e a oferecer T-shirts, estando a realizar diretos nas redes sociais a relembrar as marchas e, paralelamente, estão a desafiar os moradores a enfeitarem as janelas e varandas com «flores» alusivas às festas de Lisboa.

Na Ajuda, o Ajuda Clube Recreativo e Desportivo Armadorense, segundo Adolfo Barão, optou por pedir a todos os marchantes que «vestissem» qualquer «coisa alusiva à marcha da Ajuda».

Relembrar que «hoje a festa ia ser rija» é o grande objetivo da marcha da Bica, organizada pelo Marítimo Lisboa Clube, que amanhã vai estar no programa da RTP, transmitido a partir do Pátio Alfacinha, em Lisboa. Américo Silva, responsável da marcha da Bica, anuncia que o tema a ser apresentado na televisão é «A marcha que não existe».

Primeiro a saúde e depois a festa

Os nossos interlocutores foram unânimes em sublinhar a atitude cívica dos lisboetas que, em pleno período festivo, estão a cumprir as regras de distanciamento social, mostrando-se esperançados que as festas regressem, em pleno ao convívio dos lisboetas, no próximo ano.

Contudo, reconhecem que atitude da Câmara Municipal de Lisboa de atribuir uma verba de 7.500 euros, a fundo perdido, às coletividades vai reduzir o impacto financeiro negativo da «não realização das festas». Até porque as despesas «já estavam feitas, os marchantes escolhidos, as letras e músicas feitas, a orquestração, tirámos medidas para a roupa, já material comprado para confeção dos trajes e arcos». Enfim, um «100 número de pequenas despesas que «tiveram de ser pagas».

Amália volta em 2021 e festividades religiosa online

Entretanto, a Câmara Municipal e a EGEAC decidiram que o tema «Amália Rodrigues» transitará para a edição de 2021, «permitindo que todo o trabalho realizado (arcos, cenografia, figurinos), possa ser rentabilizado no próximo ano». As candidaturas para 2020 são automaticamente consideradas para a edição do próximo ano.

Por outro lado, o tradicional «pão de Santo António» deverá, este ano, ser requisitado online e recebido em casa, através do correio normal. «Mas só depois das festas», avisa já frei Jorge Marques, o reitor da Igreja de Santo António de Lisboa. Mas, como manda a tradição, os lisboetas podem recolher naquela Igreja, no Dia de Santo António, um «pãozinho benzido» que deve ser guardado em casa durante um ano inteiro para assegurar que a família não passa fome. O valor do pão reverte a favor dos pobres, o resto é mesmo devoção popular.

Todavia, em tempos de pandemia, as tradições não podem ser o que eram e, por isso, a Igreja desaconselha a aglomeração de fiéis, por respeito às regras sanitárias de distanciamento físico e quer evitar a partilha de bens, seja qual for o pretexto.

Todavia, Frei Jorge diz que «as pessoas podem sempre ir à igreja», mas para evitar multidões, «é melhor recorrerem ao site. É mais seguro».

No dia 13 de junho, data em que se celebra o Santo António, a Missa festiva vai decorrer às 12h00 e será presidida pelo Bispo Auxiliar de Lisboa D. Joaquim Mendes. No final da celebração, haverá a bênção à cidade, a Portugal e ao Mundo com Relíquia de Santo António. Nesse mesmo dia, às 11h00 e às 17h00, estão previstas as Missas com Responsório de Santo

Junta de Alvalade adia iniciativa agendada para 13 e 14 de junho

A Junta de Freguesia de Alvalade, após comunicado do Conselho de Ministro datado de 4 de junho, tornado público pelas 20H07, decidiu reavaliar a programação delineada e desde já anunciada para os próximos dias. Nesse sentido,  informamos que a iniciativa Há Vida No Bairro, com concertos agendados de Avô Cantigas, Fado Lelé e Pedro Moutinho, foi alvo dessa reavaliação, após a qual foi tomada a decisão de adiamento dos concertos itinerantes programados para os próximos dias 13 e 14 de junho.

O anúncio é, obviamente, consequência da situação volátil de saúde pública em que nos encontramos, e que tem vindo a agravar-se na Área Metropolitana de Lisboa. Assim, e procedendo de forma a evitar qualquer tipo de ajuntamento público ou situação que possa provocar a proliferação do vírus Sars Cov-2, a Junta de Freguesia de Alvalade está a reunir esforços para que a iniciativa Há Vida No Bairro possa sair à rua imediatamente após a estabilização da situação, e em altura que não coloque em causa a segurança de todos os fregueses.

Descarregue e leia OLHARES DE LISBOA Nº 1 Marchas Populares de Lisboa 2017 no seu computador ou equipamento móvel

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