A arte de restaurar e encadernar artesanalmente livros e documentos pode parecer uma técnica fadada ao esquecimento.

Mas, em Lisboa, em pleno Bairro Alto, essa atividade está «bem viva e recomenda-se». Carlos Guerreiro é um «dos culpados» pelo renascer dessa «muy nobre arte».

Os «Livros de Horas» e a «Bíblia dos Jerónimos», de «el-rey» D. Manuel I, foram duas das obras literárias restauradas por Carlos Guerreiro que, desde 1972, se dedica à arte de restauro e encadernação de livros na sua oficina/atelier na Rua de São Boaventura nº 4/6, Misericórdia (classificada como «uma loja com história»).

Antigo técnico da Torre do Tombo, Carlos Guerreiro, como o próprio refere, teve a honra de restaurar «Os Livros de Horas», um «livro utilizado pela nobreza europeia dos séculos XV e XVI», para estar a par do «calendário litúrgico e organizar o ritual diário da oração dos seus proprietários». E, também, como técnico da Torre do Tombo, restaurou a chamada Bíblia dos Jerónimos – uma Bíblia manuscrita em sete volumes, produzida na última década do século XV em Florença para o futuro rei D. Manuel I de Portugal. Decorada com iluminuras de extremo luxo e requinte, as suas qualidades ímpares têm levado especialistas a tecer os mais altos elogios a esta Bíblia, considerando-a um dos mais ricos exemplares alguma vez saídos das oficinas de iluminação florentinas do Renascimento. Foi legada pelo monarca em testamento ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, onde permaneceu até o século XIX.

O restauro destas duas obras, assim como do livro «A Leitura Nova» também do período manuelino, marcaram o início de carreira de Carlos Guerreiro «nos idos anos» de 1972, após ter saído da escola de aprendizagem Instituto Padre António Oliveira.

Escolheu a profissão por gosto e o fascínio mantém-se até hoje. Tudo começou há 48 anos, em 1971, com o mestre Diogo Noronha, que mais tarde o convidou a integrar a sua oficina de douração, no Instituto Padre António Oliveira, em Caxias, considerado na altura o melhor instituto da Europa e o quinto melhor do mundo, que fechou depois do 25 de abril de 1974.

Em 1973, começou a trabalhar para a Torre do Tombo onde se manteve durante 20 anos.

Desde os anos 80 no Bairro Alto

No início dos anos 80, adquiriu o espaço no Bairro Alto e dedicou-se, por conta própria, a «bem servir os seus clientes» que, sobretudo, são alfarrabistas, a Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, a Sociedade Portuguesa de Autores e particulares.

Ao todo, desempenha este ofício há 48 anos. Entre os seus trabalhos mais relevantes encontram-se: caixa em pele para a Carta de Pêro Vaz de Caminha; restauro do Livro das Horas; vários livros de honra, nomeadamente para a Assembleia da República, para a Presidência da República, para o Príncipe Alberto do Mónaco e para a Rainha de Inglaterra; pastas de protocolo para o Rei do Togo; pastas de secretária para a Assembleia Nacional de Angola.

Ao longo destas quase cinco décadas de trabalho, já passaram pelas suas mãos diversos livros e documentos históricos. O trabalho é extremamente minucioso e requer paciência e dedicação. Os tempos de restauro dependem de várias variantes, designadamente a qualidade do papel do livro, do formato do livro e do estado em que ele se encontra.

«Trabalho com papeis especiais para isso. No caso de encadernação com capa dura, desmonto todo o livro e refaço a costura de forma artesanal, a mão. Depois é passada uma camada de cola na lombada, colocamos uma folha de maculatura e a guarda, que é uma folha dobrada que fica na frente e nas costas do livro. E por aí vai”, detalha a restaurador.

Com tantos anos de ofício, Carlos Guerreiro já perdeu as contas de quantos livros restaurou. Ou seja, ao longo de décadas, Carlos Guerreiro conseguiu recuperar «muitas vidas, algumas histórias e um sem fim de memórias encerradas num só livro», preservando tudo isso em nome de uma nova vida. Do livro, claro.

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