É aqui que se sente o frenesim maior da cidade. Entre o Largo do Chiado e à Rua da Madalena «concentram-se» as massas de turistas que, dia e noite, não se cansam de calcorrear as colinas e «espreitarem» as «very typical» lojas. O comércio agradece.Cada largo e rua tem a sua história e, em cada esquina, existe um motivo diferente para parar e observar, escutar os milhares de sons diferentes. São «sintonias» de músicos que preenchem as calçadas com as suas performances artísticas, escutados por audiências da ocasião.

Descer o Chiado até à rua do Carmo é uma experiência multicultural. Todos os dias diferente.

São as lojas do costume, que todas as grandes cidades têem. Mas, também, são aqueles pequenos negócios tradicionais que resistem à dezena de anos, desde a retrosaria à loja das luvas ou de antiguidades. São cheiros antigos que permanecem e dão cor e textura à história da cidade.

Mas, também são a confusão constante dos tuk-tuk, dos carros de turismo, do trânsito intenso, e do barulho que não para. São as obras de reabilitação de muitos prédios, que têm dado uma nova cara a esta zona da cidade, mas que provocam muitos transtornos aos habitantes e comerciantes.

É a falta de limpeza nas ruas, sejam as beatas ou outro lixo, insistem em permanecer.

Quem nos visita não se cansa de subir as ruas mais íngremes, para tirar as melhores fotos e conhecer os recantos mais escondidos. Como aqueles pequenos restaurantes familiares, onde se juntam turistas de ocasião e trabalhadores na hora de almoço.

Agregando doze freguesias que partilham um longo passado comum, a freguesia de Santa Maria Maior está intimamente ligada à Sé de Lisboa, inicialmente Igreja de Santa Maria Maior, mandada construir em 1150 por D. Afonso Henriques, três anos depois de ter conquistado Lisboa aos Mouros.

As duas primeiras freguesias de que há notícia, após a reconquista da cidade, são S. Vicente e Santa Maria dos Mártires, locais onde os cruzados acamparam e fizeram cemitérios durante o cerco, daí a designação “mártires”.

Santa Maria Maior reúne as freguesias do Centro Histórico de Lisboa – Castelo, Madalena, Mártires, Sacramento, Santa Justa, Santiago, Santo Estevão, São Cristóvão e São Lourenço, São Miguel, São Nicolau, Sé e Socorro.

Nesta freguesia, com 12.822 habitantes, o típico e o moderno estão unidos em perfeita comunhão.

São os múltiplos os monumentos e locais de interesse a visitar. Comecemos pela Sé de Lisboa, passando pelo Largo do Chiado, Teatro Nacional de S. Carlos e Teatro Municipal de S. Luís, terminando no Teatro Nacional D. Maria II; Chiado.

Menos turistas

Apesar de ter a sua pequena loja de cupcakes instalada num local privilegiado do Chiado, Vanessa Santos, da Calçada Nova de S. Francisco, nota que “o turismo tem vindo a quebrar um pouco. Comparativamente com o ano passado. Este ano, está mais fraco até a nível de vendas”.

Esta comerciante, de 40 anos, entende que esta zona “está um pouco esquecida em termos de limpeza e manutenção. As casas precisam sempre de limpeza, por causa das pragas de baratas e ratos, especialmente nesta altura do ano, que está muito calor”. Ou seja, “não vimos funcionários da limpeza. Temos que telefonar para a junta de freguesia a pedir para virem limpar”.

No seu entender: “Lisboa está repleta de baratas e nesta zona, com as galerias subterrâneas, é necessária limpeza. Senão, os clientes fogem”.

Quanto à segurança refere: “no inverno tivemos aqui alguns assaltos e foi a primeira vez que houve assaltos nesta zona”. Há dois anos a trabalhar na zona, Vanessa Santos salienta que, no inverno, “é uma zona que fica muito escura. É uma zona que está um pouco esquecida”.

30 anos a vender

As obras na vizinhança tem tornado o quotidiano de Lucília Santos, comerciante na Rua de São Nicolau, num inferno: “É a reabilitação de dois prédios. É muito complicado estar a trabalhar aqui na loja, com toda esta panóplia de obras, todas ao mesmo tempo, ainda por cima numa rua estreita”. Ainda assim, esta comerciante, de 69 anos e há mais de 30 anos a vender réplicas de antiguidades, tem a “esperança que seja para melhorar. Portanto, os prédios também precisavam de ser reabilitados”.

Como em muita coisa na vida, também o fluxo de turistas “é um pau de dois bicos”. Para Lucília Santos “os turistas são uma mais-valia. Ou seja, asseguram 70% da nossa faturação. E depois temos as pessoas que vêm aqui queixar-se por terem de mudar e ir para outro sítio. São pessoas que estão aqui toda uma vida e acho isso desumano”.

Cidade acolhedora

Para El Betta, de 22 anos, empregada de balcão, “esta é uma zona muito animada. A coisa mais interessante é ver passar os tuk-tuk e os carrinhos de golfe, toda a gente a cantar. Só me faz querer que Lisboa fosse toda assim”.

“Temos muita sorte em termos esta liberdade. Tendo estado no estrangeiro, apercebo-me disso. Temos uma liberdade que não se vê em mais lado nenhum. Liberdade de expressão, de tempo, fazermos o que quisermos”, adianta.

Tendo uma visão privilegiada sobre a rotina da Baixa a partir da loja onde trabalha, El Betta considera “Lisboa uma cidade muito acolhedora, com sentido de comunidade, o que não se vê em mais nenhum lado”.

Apesar destes atributos, esta empregada de balcão considera, “até em conversa com pessoas que aqui vivem, que é uma zona muito barulhenta. São as sirenes, o barulho dos carros”.

Um dos maiores “pecados” desta freguesia “é o lixo na rua. Nesta zona mais central vêm-se as beatas no chão e, tendo Lisboa um sistema espetacular de limpeza, é estranho ver tanto lixo. Isso, desvaloriza Lisboa”.

Vivência de bairro

Eva Mendes, de 22 anos, nasceu no mesmo bairro onde agora habita, com alguns anos de interrupção pelo meio. “Para mim este bairro foi sempre o lugar onde quis viver. Faz parte de mim”.

Para esta lojista, da Rua de São Cristóvão, “o que atrai as pessoas ao bairro é a simpatia, a facilidade de fazer amigos, a facilidade que os turistas têm de falar com qualquer pessoa. É a pessoa chegar ao café e estar à conversa. Ficar na rua a conversar a tarde toda. De repente, parece que estamos na aldeia”.

No entender de Eva Mendes há uma situação que mancha um pouco este ambiente de bairro: “a quantidade de alojamento de curta duração na Airbnb. É demasiado. Consigo viver na freguesia porque os meus pais têm casa aqui. Mas há pessoas que querem vir para aqui, não conseguem alugar casa. Agora uma casa custa 2500 euros, quando antes pagavam 450 euros”.

Melhorias várias

“Gosto de viver aqui. As pessoas são muito simpáticas”, sublinha Baskar, um comerciante de origem indiana e com negócio de minimercado há sete anos na Rua dos Cavaleiros.

Considera que “houve muitas melhorias nesta rua. Por exemplo, os passeios arranjados, a limpeza das ruas está melhor. Também noto que há mais espaços de lazer”.

A segurança nas ruas do bairro é uma das características que Baskar mais aprecia, pois “posso sair a qualquer hora sem problemas”.

 

 

 

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