PADRE LUCIANO VIEIRA A CAMINHO DE MOÇAMBIQUE COM CARNAXIDE NO CORAÇÃO

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Temos que capacitar os agricultores (moçambicanos) para iniciativas de produção, que garantam o sustento”, afirma o padre Luciano Vieira, que sai da Paróquia de Carnaxide.

O pároco da igreja de Carnaxide, padre Luciano Vieira, vai partir em breve numa nova missão em Moçambique, uma terra que lhe é familiar e onde, em tempos, «deu aulas». Agora, o objetivo é criar uma escola de agronomia, para ajudar a região a recuperar do atraso económico em que se encontra.

Deixa a paróquia com o sentido de missão cumprida, após vários anos à frente da congregação, onde deixou «obra feita» a nível social e religioso. Luciano Vieira, em entrevista a Olhares de Carnaxide e Queijas, afirma que, em Carnaxide, existe uma sociedade «que tem um nível de capacidade intelectual bastante grande, o que permite projetos interessantes». No entanto, lamenta, os problemas habitacionais existentes que contribuem para a exclusão de muitos, principalmente por causa dos baixos salários que auferem e que não lhes permite arrendar casas a preços acessíveis.

Mas, como realça, esta é uma situação que preocupa a Câmara Municipal de Oeiras que está a envidar esforços para resolver o problema.

Do ponto de vista do ainda pároco de Carnaxide, «é urgente criar condições para que as pessoas deixem de ter 60 ou 70% do seu rendimento a ser canalizado para as despesas de ter uma casa com o mínimo de condições».

Olhares de Lisboa – Qual o seu percurso até chegar à paróquia de Carnaxide?





Padre Luciano Vieira (PLV) – Sou natural da Madeira. Vim para o Continente muito jovem, para continuar os estudos no ensino secundário, em Coimbra. Depois, o noviciado – um tipo de formação para a vida religiosa – fi-lo em Aveiro. Logo a seguir comecei a faculdade e frequentei o seminário de Alfragide, enquanto estudante.

Nesse tempo, vinha aqui à Paróquia, como seminarista, apoiar o padre Jorge Alves. Mais ou menos na mesma altura, fui como missionário (estágio da vida religiosa) para Moçambique. Passados dois anos voltei a Alfragide para completar os estudos e ser ordenado diácono. Estive um ano no Porto.

OCQ – Qual a duração dos estudos?

PLV – Temos duas coisas distintas. A partir do 12º ano, temos a formação para a vida religiosa, normalmente são três anos de exclusividade, é o chamado ano de noviciado e mais dois anos de estágio, que pode ser feito dentro do país, num seminário, ou fora do país numa terra de missão. Eu e um colega fomos para Moçambique, os outros dois foram para Madagáscar.

Além disso, temos os seis anos da teologia e o ano pastoral, completando assim a nossa formação. Portanto dá nove anos depois do 12º ano para fazermos os estudos completos até sermos padres.

Após ser ordenado padre, voltei para Alfragide, como ecónomo. Nessa altura, fui responsável por preparar as obras de remodelação. Poucos meses depois da obra estar completa, fui convidado para a paróquia de Carnaxide.

OCQ – Qual a obra a que se está a referir?

PLV – A remodelação completa do seminário de Alfragide. Com estas obras, esta casa passou a albergar 30 seminaristas e a ter uma parte de acolhimento dos grupos para o centro de formação e centro de espiritualidade, com capacidade para 45 quartos.

Criamos condições para as pessoas se puderem reunir em várias salas. A capacidade máxima ficou em 136 pessoas. Aumentamos a capacidade de resposta para retiros.

Vim para a paróquia em 2008. O padre João Nóbrega, que era o pároco, ficou como vigário paroquial e acompanhou-me durante os primeiros dois anos.

OCQ– Quais foram os principais desafios que encontrou na paróquia de Carnaxide?

PLV  – Os primeiros desafios – ainda não resolvidos por completo – foram o restauro da Igreja Paroquial de São Romão, que é património de interesse municipal, que aconteceu em 2013/2014. Essa situação fez com que a câmara se envolvesse mais e financiasse a intervenção. As obras começaram nos últimos dias.

Por outro lado, alargámos a capacidade de resposta do Centro Social e, dessa forma, respondermos às necessidades da população, nomeadamente a nível da terceira idade. Esse serviço alargou-se ao centro de dia e ao apoio domiciliário ao fim-de-semana.

Da minha responsabilidade, algo mais inovador, foi a criação de uma escola de curadores que, numa fase inicial, levou tempo até se compreender como isto podia ser feito. Formamos todos os técnicos da casa, com o apoio da AESE, que é uma escola de negócios, que tem um programa próprio para a gestão das organizações sociais. E esse trabalho levou cerca de seis anos a ser posto em prática.

Hoje, interessa falar dos problemas que a terceira idade tem, não só do ponto de vista de quem trabalha com a terceira idade, mas também do ponto de vista de quem tem uma tarefa política para a terceira idade, mas, também, as famílias. Porque o grande desafio que nós temos é ser capaz de fazer com que a terceira idade viva melhor.

Está na hora de pensar de outra forma. Por exemplo, há quem tenha uma casa com seis ou sete assoalhadas, como há muitas casas em Carnaxide, e vive sozinha, podendo acolher outras pessoas, só para dormir. E o Centro Social, por ser uma instituição idónea, faria o acompanhamento das pessoas, colocando lá alguém e fazendo a gestão das entradas e saídas.

OCQ – Essa ideia tem tido acolhimento?

PLV – Não é fácil. Isso significa uma mudança radical da cultura instituída. Estou convencido que só quem tem a ousadia de levar um projeto desta natureza para a frente, é que vai conseguir ter bons resultados.

É impossível institucionalizar quatro ou cinco mil pessoas dentro de uma comunidade. Há que olhar para a realidade e perceber, do ponto de vista da capacidade, as mudanças que nós podemos fazer. Essas mudanças acontecem naturalmente.

Muitas pessoas vivem de forma autónoma o dia todo, mas chega ao fim do dia, e tem medo de ficar em casa sozinho. Porque pode cair ou ter alguma situação de saúde que incapacite.

Existe uma lacuna a nível da formação profissional nos chamados ajudantes de ação direta. São as pessoas que prestam os serviços no dia-a-dia aos idosos, quer nos lares, quer nos centros de dia, apoios domiciliários, quer nos centros de noite, ao nível da higiene pessoal, o cuidar e estar com as pessoas.

A ideia foi potenciar e valorizar estas pessoas, para que a sua formação possa ser mais bem qualificada.

Por outro lado, as instituições sociais têm também obrigação de fazer formação de forma continuada. Muitas vezes não há na sociedade civil, escolas profissionais que deem este tipo de resposta.

Neste sentido, para melhorar esta qualidade, foi feito agora um investimento, com o apoio e a colaboração da câmara municipal, para no próximo ano termos a certificação.

Outra situação que aguardamos, é a construção do segundo piso que tarda em chegar.

OCQ – Qual a finalidade desse segundo piso?

PLV – Tem a ver com o número de pessoas que estão inscritas à espera de ter um lugar no lar. Temos mais de 300 inscrições. Pararam as inscrições, porque não vale a pena fazer inscrições e criar uma expectativa, sabendo que só dentro de sete anos é que existem lugares.

Outra vertente interessente nesta área social, tem a ver com a formação no sentido lúdico dos mais novos. Diz respeito à animação cultural, como a pintura, a música.

Outro trabalho que fazemos nesta paróquia é a intervenção junto da comunidade. Uma resposta que se dá à comunidade no sentido da evangelização. E na dinamização cultural da própria comunidade. Por exemplo, intervenção junto da escola através dos missionários e missionárias que desempenham essa função e, neste momento, são coordenadas por mim, porque fui escolhido por eles.

Na prática são os grupos e congregações religiosas que estão a trabalhar nas missões e que, muitas vezes, não são só aqueles que vão para fora, mas que veem de outros países e trazem o testemunho da vivência.

Este ano, fizemos uma semana missionária cujo tema era “Cuidar da casa comum” e neste cuidar da casa comum falámos dos problemas ambientais, nutricionais. As questões da falta de cuidado na proteção da água. E também da defesa da floresta, aquela que existe. Foi interessante esta discussão, porque de repente tivemos uma série de pessoas interessadas em valorizar e conhecer a serra de Carnaxide. E fizemos um evento, dentro do contexto desta semana missionária, que foi a proteção da serra de Carnaxide. Isso envolveu a escola e a sociedade civil.

OCQ – Tendo uma visão privilegiada da sociedade de Carnaxide, quais são os principais problemas sociais que lhe relatam aqui desta freguesia?

PLV – Há aqui duas coisas que são muito evidentes. Por um lado, estamos numa sociedade que tem um nível de capacidade intelectual bastante grande e isso permite fazermos projetos interessantes. Mas, por outro lado, ficámos com uma lacuna grave que é aqueles que não têm habilitações tão credenciadas, ficam muitas vezes excluídos à custa disso. E essa exclusão vem, muitas vezes, pela falta de condições salariais.

O que nós vemos, e isso é transversal às pessoas que trabalham nas áreas mais humildes, é que estas pessoas recebem de tal maneira tão pouco que grande parte do salário que recebem está destinado à cabeça com os custos da habitação. E isso incapacita as pessoas de terem uma vida com o mínimo de dignidade. Uma das situações sociais que encontro, e que mereciam maior atenção, e sei que há algum cuidado da câmara municipal.

É urgente criar condições para que as pessoas deixem de ter 60 ou 70% do seu rendimento a ser canalizado para as despesas de ter uma casa com o mínimo de condições.

Se isso acontecer, penso que vamos ter uma capacidade de integração maior. Porque as pessoas também vivem melhor. Se as pessoas na grande parte do seu dia-a-dia é trabalhar para ter a casa, depois não há tempo para a formação pessoal. Há muitas pessoas a terem dois empregos.

Nós muitas vezes temos a tendência de nos compararmos aos países nórdicos. E dizemos assim: Temos 20% da nossa população que está no limite da pobreza. Mas, depois, não continuamos a investigar para saber. E, depois, vemos que apenas 2% destes 20% população é que têm capacidade de ter acesso à habitação social.

Ora, esses países nórdicos têm 35% da habitação como habitação social. A diferença está aqui.

Não é que lá existam assim tão poucos pobres. Mas o investimento que é feito na criação de condições para que estas pessoas possam ter um nível de vida diferente, porque têm habitação, é muito grande. Uma pessoa que ganhe 600 euros por mês, se der 400 euros para pagar uma casa, fica com o quê? Por isso, tem de procurar um segundo emprego ou encontrar soluções alternativas.

Outra situação que me parece ser crítica, tem a ver com o compromisso pessoal com uma relação humana com alguém. E isto é uma coisa que deixa muito a desejar. Verificamos que as pessoas mudam muito facilmente de parceiro/parceira e isso cria uma instabilidade muito grande nas pessoas em primeiro lugar e, depois, nos seus familiares, de modo muito particular os filhos.

Encontramos com alguma facilidade, famílias que se separaram não uma, mas, às vezes, duas e três vezes. Se há coisa que se deveria dar mais atenção e ser um pouco diferente, esta seria uma das temáticas relevantes.

OCQ – Qual é o objetivo da sua missão em Moçambique?

PLV – Esta missão é resultado de um trabalho feito nos últimos três anos, acompanhado por pessoas competentes nas áreas da educação e da agronomia. O que se pretende é, a partir do início do próximo ano, fazermos um trabalho de intervenção junto dos agricultores numa região do norte de Moçambique, na cidade de Gurué.

Esta zona é conhecida pela terra do chá.

Em toda aquela região, com a situação da guerra e o aumento da população, que tem sido imenso, tem estado sujeita a uma pressão cada vez maior. A juntar a isso, as populações estão a fixar-se em zonas mais citadinas. Porque a guerra obrigou-as a fugir das zonas mais rurais.

Então, de repente, todas aquelas zonas que estão à volta da cidade, que tem 30 mil habitantes, começaram a receber imensas pessoas. E estas pessoas muitas vezes nem falam português. Moçambique tem 11 milhões de pessoas que não falam a língua portuguesa.

Um dos desafios que temos para ajudar a população a sair da situação atual, é capacitar os agricultores para puderem terem iniciativas de produção, que não só garantam o sustento como, também ao mesmo tempo, garanta algo como excedente para ser vendido.

Entendemos que isso pode ser feito através de uma cooperativa. A primeira grande tarefa é criar uma cooperativa, que tenha em conta a área do ensino e agronomia. Este objetivo, para puder ser cumprido, requer que haja uma formação de base aos mais novos. Porque no campo da educação, aquela região tem problemas gravíssimos. As meninas ao fim de dois anos abandonam a escola, estamos a falar de 76% das raparigas que abandonam a escola, por falta de casa de banho na escola.

Aquela região tem 52% de crianças com subnutrição. Com um paradoxo, que é o chamado corredor de Nacala. Toda esta região é chamada o celeiro de Moçambique. E 52% das crianças tem má nutrição.

A razão para a escolha do município do Gurué, tem a ver com estes problemas que são muito evidentes: crianças malnutridas e que não vão à escola. As escolas que existem têm poucas condições.

O que resulta daqui é que o número de crianças que vão ter a possibilidade de ter acesso à escola, que nós padres dehonianos já temos que é uma escola profissional, vai ser reduzido. E, portanto, quando a amostra é pequena depois aquilo que vem a seguir é com aquilo que existe.

Vamos aumentar a capacidade económica daquela região e, por outro lado, vamos potenciar o número de alunos que podem ter melhores condições de vida para o futuro.

A juntar a tudo isto, pensamos na formação dos adultos, que já não estão na escola e alguns deles nem foram à escola. As zonas rurais, com o melhoramento das condições na cidade, provocaram um êxodo muito grande para as cidades. Se criarmos condições para que as zonas rurais se desenvolvam, a população vai fixar-se no ambiente rural. E os filhos, porque os pais estão bem a nível rural, alguns deles vão voltar.

A nossa aposta é na formação no sentido de potenciar e valorizar a escola profissional, que tem a agronomia, a eletricidade, a mecânica, – que agora se chama Instituto Agroindustrial do Gurué-, o que vamos fazer é pegar nestes alunos que acabam a escola e voltar com eles aos lugares onde viviam os pais, para ajudar estes, que não foram à escola, a desenvolverem-se.

A minha missão será ser presidente de uma cooperativa, que vamos criar com essa finalidade, para garantir que uns números alargados de jovens possam chegar à escola. A ideia é criar quatro escolas do nível da escolaridade obrigatória. Vamos procurar que todas as crianças daquela localidade possam ir à escola.

Desenhamos o projeto e quisemos ir ao terreno, verificar se ele era exequível ou não. E verificar se os números que nós tínhamos correspondiam aos números da realidade. Verificamos que os números correspondem com os números das Nações Unidas sobre aquela região.

OCQ – Como é que o Governo moçambicano reagiu a esta vossa iniciativa?

PLV – Nós vamos começar agora com toda a formalização da candidatura. Vamos potenciar este projeto com uma candidatura à União Europeia. O Estado, como está muito interessado em valorizar a área da educação, disponibiliza-se para pagar na integra os professores.

A ideia é apostar nas pessoas de lá. Serão os professores da terra a nossa aposta. A aposta nas pessoas é sempre a melhor garantia de sucesso para o futuro.

OCQ– Quais as suas motivações para interromper aqui o seu trabalho?

PLV – Desde muito jovem quis ser padre e nesta situação de ter de fazer uma opção, de repente dei-me conta, quando tinha nove anos, que havia missionários em Moçambique. E que um desses missionários era da minha terra, que é o Santo da Serra.

Quando acabei os dois primeiros anos da faculdade, em que trabalhei nesta paróquia, e depois fui para Moçambique, no Gurué, onde fui professor de matemática e de física.

E nesse tempo, apercebi-me da urgência e da necessidade de desenvolvermos a área da agricultura. Em certo momento, fui convidado a acompanhar uma quinta que temos lá, que é relativamente grande, para desenvolver alguma coisa na área da agronomia. Ainda fizemos a limpeza de uma área de 350 hectares, com 120 pessoas a trabalhar.

Quando fui ordenado padre em 2004, voltei a Moçambique no primeiro mês de padre. E, nessa altura, levei comigo um engenheiro em Agronomia (o engenheiro Rui, da Cooperativa leiteira de Vila do Conde). Naqueles 350 hectares que eu tinha trabalhado e criamos um plano de estudos para a constituição de uma escola de agronomia. Como a escola, naquela altura, era de nível básico (8 anos mais três anos), a sugestão foi criar uma escola que tivesse esses três anos.

Quando regressamos a Portugal, esse projeto ficou logo definido e em janeiro de 2005, foi para lá uma voluntária, que era engenheira florestal, para criar, com o ministério da educação, esse projeto. Em fevereiro foi apresentado ao Ministério da Educação e em abril foi aprovado.

Logo a seguir Portugal perdoa a dívida de Cahora Bassa a Moçambique, com uma contrapartida, que era eles deveriam investir esse dinheiro na educação. A ministra da Educação veio à nossa escola dizer que iriamos fazer um instituto médio. Esse projeto nasceu com este nome: Instituto Médio Agropecuário do Gurué (IMAPEG). Em 2007 começou a lecionar e hoje tem 300 alunos na área da agronomia.

Está divido em três anos. São cerca de 100 alunos ao ano que saem daquela escola, para o mercado de trabalho.

Entretanto, no final do ano passado, a Assembleia da República moçambicana decidiu passar a escolaridade obrigatória do 7º para o 9º ano. Ora, a Escola Básica Industrial do Gurué, que tinha o curso de mecânica e de eletricidade, foi forçada a subir o nível.

Como as duas escolas eram nossas e estavam instaladas no mesmo território, o Ministério da Educação sugeriu que fundíssemos as duas escolas profissionais e que passássemos a ter uma única escola profissional – o Instituto Agroindustrial do Gurué.

Neste momento, são quase 500 alunos que estão a frequentar estes três cursos dentro do Instituto Agroindustrial.

Este projeto ainda tem mais força, porque precisamos criar as bases com as condições para depois estes alunos poderem ter êxito.

Os meus colegas que estão no terreno dizem o seguinte: “Vocês esquecem uma coisa. Existe um outro lugar que se chama Noela e que também tem uma escola profissional geridas pelas irmãs do Amor de Deus. Estas irmãs fizeram a escola dentro de um terreno que nós tínhamos, que era o antigo seminário. Oferecemos 30 hectares para construírem a escola. Esta mudança do nível de escolaridade, obrigou as irmãs a subirem o nível para o 10º ano.

Portanto, em vez das três escolas previstas para aquela zona, vamos fazer uma quarta escola nesse lugar.

OCQ – O ciclo de Carnaxide acabou?

PLV – Sim, para mim acabou no dia 8 de setembro.

OCQ – Qual a mensagem que gostaria de deixar às pessoas que conviveram e trabalharam consigo?

PLV – Esta não é uma decisão de fuga de alguma coisa. O conforto que posso deixar às pessoas é que não me vou embora por não gostar de vocês ou não me sentir bem aqui, bem pelo contrário. Sempre fui muito bem acolhido nesta casa. Tenho as melhores relações com a quase totalidade da população.

Trabalhei estes anos a apoiar a Associação dos leigos Voluntários Dehonianos, que tem uma intervenção em vários países.

Quando vim para aqui, constituímos um grupo missionário paroquial e isso permitiu fazer uma experiência única. Em 2017 fui ao Quénia e estive com as 46 crianças órfãs que nós apoiamos aqui na paróquia lá no Quénia. Ajudamos grupos locais que cuidam das crianças, para que eles tenham as melhores condições possíveis para ir à escola.

Não promovemos de maneira alguma a adoção das crianças, porque isso implica pôr as crianças em risco. Vamos antes criar condições para que elas sejam proprietárias daquilo que os seus pais deixaram. A primeira coisa é passar aquilo que era dos pais para a propriedade destas crianças, para assegurar que nenhum outro familiar se vai apropriar daquilo que é delas.

Depois, procurar com que as crianças possam ir à escola e quando chega, as casas tenham alimentação e roupa.

Isso em relação à realidade de Carnaxide, é do dia para a noite. Há uma outra realidade distinta da nossa. Portanto isso foi o interesse dessa minha vontade de ir.

Esta ida para Moçambique não é da minha iniciativa, mas sim dos superiores de Moçambique, que pedem aos superiores em Portugal, para que alguém vá lá ver e analisar e deixar sugestões. Fui escolhido para isso.

Depois desenhamos um projeto ousado, virado para o futuro. E, nesse sentido, era preciso alguém que tivesse uma certa ousadia. E, como aqui o trabalho também foi bem feito, com muitas variantes, a um certo momento também percebi que poderia dar um certo contributo lá.

OCQ – Quantas pessoas existem nesta paróquia?

PLV – A população local é de 26 mil. Aqueles que se envolvem de uma forma mais continuada na vida da paroquia, são uns cinco/seis mil.

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