SEARA NOVA: 100 ANOS DE AÇÃO E PENSAMENTO CRITICO AO SERVIÇO DA REPÚBLICA

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A revista Seara Nova está a celebrar o seu 100.º aniversário, sob o lema Seara Nova – 100 anos de Ação e Pensamento Crítico e que irão decorrer até outubro de 2022. Os fundadores da Seara Nova, entre outros, Aquilino Ribeiro, Azeredo Perdigão, Jaime Cortezão, Raul Brandão e Raul Proença, pugnavam pelos valores da inteligência, da cultura, da ética, da justiça e do progresso.

As comemorações dos 100 anos da Seara Nova iniciam-se terça-feira, 11 de maio, com uma Sessão Pública, na Sala de Arquivo dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lisboa, de apresentação do Programa Comemorativo do Centenário, que contará com a presença de João Luiz Madeira Lopes, Diretor da Revista Seara Nova, de Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa, de Catarina Vaz Pinto, vereadora da Cultura.

O Programa Comemorativo do Centenário conta com uma exposição itinerante, vários colóquios, um documentário da RTP, uma medalha comemorativa, uma emissão de selos comemorativos e uma conferência de encerramento, entre outras iniciativas.

A Seara Nova foi um dos mais importantes títulos da imprensa periódica portuguesa do século XX, pela sua excecional longevidade, pelas sucessivas gerações de colaboradores e de leitores que teve, pelo seu papel doutrinário e pela diversidade dos seus interesses e das suas rubricas (política nacional e internacional, economia, administração, História, literatura, crítica literária, teatro, cinema, ballet, música, educação, Universidade, cultura, filosofia, sindicalismo, direitos do Homem, ciência, saúde, habitação, situação da mulher, etc.).

Nascida em Lisboa, em outubro de 1921, a Seara Nova foi, inicialmente, constituída por Aquilino Ribeiro, Augusto Casimiro, Faria de Vasconcelos, Ferreira de Macedo, Francisco António Correia, Jaime Cortesão, José de Azeredo Perdigão, Câmara Reys, Raul Brandão e Raul Proença. A princípio quinzenal, depois semanal, a primeira série da revista teve mais de mil e quinhentos números (o último foi o número duplo 1598/1599, de dezembro de 1978/janeiro de 1979); entre outubro de 1980 e dezembro de 1984, foram saindo anualmente números simbólicos, a fim de manter o título; uma segunda série teve início em 1985, por iniciativa de Jacinto Baptista, Fernando Piteira Santos, Luiz Francisco Rebello, Rui Grácio, Salgado Zenha, Ulpiano do Nascimento e Aquilino Ribeiro Machado.

Em 1921, Seara Nova afirmava a sua tendência republicana, o seu propósito de intervenção e o seu espírito internacionalista nos seguintes termos: «Pretende: Renovar a mentalidade da elite portuguesa, tornando-a capaz dum verdadeiro movimento de salvação; Criar uma opinião pública nacional que exija e apoie as reformas necessárias; Defender os interesses supremos da nação, opondo-se ao espírito de rapina das oligarquias dominantes e ao egoísmo dos grupos, classes e partidos; Protestar contra todos os movimentos revolucionários e todavia defender e definir a grande causa da verdadeira Revolução; Contribuir para formar, acima das Pátrias, a união de todas as Pátrias – uma consciência internacional bastante forte para não permitir novas lutas fratricidas».





Depois desta declaração de princípios, a revista enunciava as suas grandes linhas orientadoras no editorial do nº 1: «A SEARA NOVA representa o esforço de alguns intelectuais, alheados dos partidos políticos mas não da vida politica, para que se erga, acima do miserável circo onde se debatem os interesses inconfessáveis das clientelas e das oligarquias plutocráticas, uma atmosfera mais pura em que se faça ouvir o protesto das mais altivas consciências, e em que se formulem e imponham, por uma propaganda larga e profunda, as reformas necessárias à vida nacional». Assim, «os homens da SEARA NOVA pretendem fazer, por sua parte, em nome de toda a elite portuguesa, o seu acto de contrição. Serão poetas militantes, críticos militantes, economistas e pedagogos militantes». E o editorial prossegue: «… a SEARA NOVA quer exercer mais que uma simples acção de critica e de protesto: quer chamar a atenção do país para as reformas necessárias e contribuir para que se crie, em volta dessas reformas, uma opinião nacional que as exija e apoie. Quer fundar as condições da verdadeira democracia, sem as quais a República não passará do regime de baixa mentira e indigna plutocracia que tem sido até hoje».

Tempos conturbados

O primeiro número da Seara Nova foi publicado no dia 15 de outubro de 1921. Viviam-se tempos conturbados em Portugal, marcados por enormes desigualdades sociais, consideráveis atrasos económicos, baixo nível cultural da população, ausência de uma elite verdadeiramente preocupada com a promoção e defesa dos valores e da ética democráticos, alastramento da corrupção entre os detentores dos poderes e um regime político de mentira e incompetência.

Foi a vontade de elevar o país, ética e culturalmente, criando um espaço de reflexão que mobilizasse à ação, que esteve na origem da criação da Seara Nova. No primeiro editorial escrevia-se: “A Seara Nova não pode proceder como se uma maior justiça social não fosse possível, como se o socialismo não representasse uma promessa de realização dessa justiça. Todas as suas simpatias vão, pois, para os que lutam, dentro da ordem, dos métodos democráticos e desse espírito de realidades sem o qual são inteiramente ilusórias quaisquer reformas sociais, pelo triunfo do socialismo”.

Ao longo destes quase 100 anos de existência, pelas páginas da Seara Nova passaram ilustres intelectuais, como Adolfo Casais Monteiro, Agostinho da Silva, Alberto Vilaça, Alexandre Cabral, Alves Redol, Armando Castro, Augusto Abelaira, Bento de Jesus Caraça, Blasco Hugo Fernandes, Fernando Lopes Graça, Fernando Namora, Francine Benoît, Francisco Pereira de Moura, Gago Coutinho, Gilberto Lindim Ramos, Hernâni Cidade, Irene Lisboa, Rodrigues Miguéis, José Saramago, José Gomes Ferreira, Magalhães Godinho, Magalhães Vilhena, Manuel Mendes, Manuel Machado da Luz, Mário Azevedo Gomes, Mário Sacramento, Mário Sottomayor Cardia, Mário Ventura, Jorge Peixinho, Jorge de Sena, Rogério Fernandes, Rui Grácio, Sarmento de Beires ou Vitorino Nemésio.

A Seara Nova foi sempre um espaço de diálogo, de abertura às ideias do progresso, de rigor ético, de investigação e de divulgação cultural, criando esse fenómeno ímpar que se tem designado por “espírito seareiro”.

Na Resistência ao fascismo, a revista, mesmo quando gravemente mutilada pela censura, foi um farol democrático e espaço de elevadas polémicas e de valiosas colaborações de toda a intelectualidade progressista. A partir da década de 60 do século XX atingiu mesmo o estatuto de grande revista da Resistência antifascista, mantendo o seu forte pendor cultural. E neste plano teve importante papel direto em momentos altos da luta democrática e de resistência ao fascismo, como eleições de Humberto Delgado, Congressos da Oposição Democrática de Aveiro ou campanhas eleitorais das CDE.

Depois de um período de redefinição, após a revolução do 25 de Abril de 1974, nos anos 1980, a Seara Nova renovou o seu projeto como revista cultural e democrática, apostada nos valores da democracia, do progresso, da justiça social, da solidariedade e da Paz e arrimada no espírito seareiro, princípios que continua a perseguir, até hoje, cem anos passados da sua fundação.

Foto: Arquivos RTP

 

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