A pressão turística já «expulsou» mais de três mil residentes da Freguesia da Misericórdia. Uma tese de mestrado de um aluno do ISEG alerta para a necessidade de «se mudar o mundo», neste caso a Misericórdia, para se criar uma comunidade sustentável.A Freguesia da Misericórdia é uma das freguesias que mais transformações sofreu nos últimos anos, tendo perdido três mil recenseados em cinco anos, revelou a presidente da Junta, Carla Madeira, durante a apresentação do projeto «Uma Freguesia com Objetivos Globais+».

Segundo a presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, «os fatores negativos que o crescimento teve na vida da freguesia e das pessoas obrigaram a repensar e a reconverter as políticas sociais», visto o «turismo e o crescimento do Alojamento Local» ter expulso grande parte da população idosa».

Carla Madeira, após mostrar-se esperançosa que «se consiga reverter esta situação», congratulou-se com a tese de mestrado de Gabriel Londe Medeiros que pretende ajudar a Junta de Freguesia da Misericórdia a atingir as metas propostas pela Agenda 2030, das Nações Unidas (ONU).

O projeto, apresentado no Espaço Santa Catarina, chama-se «Uma Freguesia Com Objetivos Globais +» e é ao mesmo tempo a tese de mestrado de Gabriel Londe, estudante no ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão, ajudou a desenhar um plano de ação para a próxima década, sustentado nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – que inclui 169 metas – das Nações Unidas, que passam por temas emergentes como a erradicação da pobreza e da fome, a ação climática, as cidades e comunidades sustentáveis, o trabalho digno e crescimento económico, a igualdade de género ou a redução das desigualdades. Tudo a nível mundial e com um grande objetivo no horizonte: mudar o mundo.

Na freguesia, Gabriel identificou alguns dos dados alarmantes: todos os dias são produzidas 35 toneladas de lixo, «um número absurdamente alto»; entre 2013 e 2019, a freguesia perdeu 2771 recenseados, ficando apenas com cerca de dez mil; e os alojamentos locais são hoje 2942, quando em 2011 havia apenas 11 registados.

Embora seja fundamental o envolvimento das grandes organizações mundiais no cumprimento deste novo modelo global, aprovado em 2015, Gabriel explica que a Agenda 2030, «insere pela primeira vez o cidadão como principal actor da mudança», nesta que considera ser «uma das agendas mais importantes e universais do século XXI». «Fizemos uma adaptação destas metas para a freguesia», diz Gabriel que, depois de estudar o território, definiu 90 objetivos que se adaptam à realidade da Freguesia da Misericórdia, que inclui zonas como o Bairro Alto e a Bica.

Acabar com o plástico

Como desafios prioritários estabeleceu a redução da produção de resíduos sólidos; a promoção do turismo sustentável; o controle da perda de população; e a promoção da inovação e empreendedorismo social.

Entre as metas escolhidas para a Misericórdia estão a eliminação do consumo de plástico nos edifícios públicos até 2025; a promoção de ações junto do comércio local, no sentido da adoção de práticas sustentáveis e de responsabilidade social; ou a criação de dois cursos e workshops por ano até 2021, ministrados por artistas e técnicos de qualidade da freguesia.

Carla Madeira, por seu turno, lembrou que «a higiene urbana é o setor que obrigou a juntar a aumentar os meios», reconhecendo que «a par do aumento dos recursos humanos e de equipamentos tem de haver uma diminuição da produção de lixo».

Do ponto de vista de Carla Madeira, «é necessário sensibilizar as pessoas para a necessidade de redução da produção de resíduos» e, por isso, apelou aos mais jovens «para evitarem lançar copos de plástico para o meio da rua» quando saem à noite para se divertirem.

A autarca, que afiançou que pretende atingir a maioria das metas propostas no estudo, garantiu que nas instalações públicas vai ser proibida a utilização de copos de plástico. «Esta é uma das pequenas medidas que vamos tomar para ajudar a combater o problema das alterações climáticas», referiu a edil, lembrando que na Misericórdia já «se utiliza água reciclada para lavagem das ruas».

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