Marchante em Marvila desde 2011, e apaixonada pelas Marchas Populares de Lisboa, Cláudia Potes está a elaborar uma tese de Mestrado em História da Arte e Património, onde defende que as marchas são muito mais do que um espetáculo. São sim, património material e imaterial da cidade, que precisa de se ir adaptando ao longo dos tempos, e que precisa, igualmente, de um espaço onde se preserva a memória e a história do concurso.
Amante das Marchas Populares e marchante da Marcha de Marvila desde 2011, Cláudia Potes transpôs este amor para a vida académica e dedicou a sua tese de Mestrado em História de Arte e Património a esta tradição lisboeta. A estudar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Cláudia explica ao Olhares de Lisboa que a motivação surgiu por existir “uma carência do entendimento sobre o que é uma marcha, em relação ao património, à cultura, ou como é que são criadas e quais os processos todos pelas quais elas têm que passar”.
Nesta investigação, intitulada ‘Marchas Populares de Lisboa: um património, uma identidade, um museu’, Cláudia mostra que existem “poucas investigações sobre as marchas e um dos problemas maiores é não existir um grande rol de informação”. De igual modo, ressalva, “há muito material que se perde, e estamos a falar de arcos, roupas, adereços, até mesmo das revistas que são editadas anualmente pela EGEAC”, explica a estudante, reforçando que esta alienação do património impede, em parte, a preservação da história das Marchas Populares.
Solução pode passar pela existência de elementos em miniatura, por exemplo
“Os arcos, por exemplo, são objetos muito grandes e as coletividades não têm forma de guardá-los todos”, justifica a também marchante, que defende, por isso, a criação de um museu das Marchas. “A minha tese assenta maioritariamente sobre a ideia deste museu e a importância que ela vai ter no futuro para preservar este património, que tem uma parte imaterial, mas também material e que é altamente esquecida. A ideia de património das marchas concentra-se apenas em dois momentos de espetáculo: o pavilhão e a Avenida, e o conjunto perde-se. Acho que é importante se juntarmos as duas componentes [material e imaterial] e não nos concentrarmos apenas numa”.
De igual modo, ressalva ainda, a própria EGEAC/Lisboa Cultura, empresa municipal que faz a gestão do concurso, “também não tem estas informações centralizadas, o que acaba por complicar o processo” para quem, tal como ela, procura saber mais sobre as Marchas Populares. “[Na minha investigação] estou a tentar saber como é que poderemos guardar o material ou perceber se existem outras alternativas”. Para Cláudia, uma das hipóteses poderá passar pela criação de uma miniatura dos arcos e dos figurinos de cada marcha, por exemplo, de modo a que seja mais fácil haver uma preservação destes elementos.
Registos multimédia também não são suficientes
Outro problema identificado pela estudante passa também pela escassa existência de registos multimédia do concurso. “Há um grande problema com as imagens de vídeo do pavilhão. As que existem estão no YouTube e são de pouca qualidade porque são registos feitos com o telemóvel. Mas também estou a tentar perceber se existe esse tipo de gravação num outro formato, porque eu sei que o júri tem acesso aos vídeos”.
Apesar do desfile na Avenida, de 12 para 13 de junho, ser transmitido em direto na televisão, Cláudia reconhece que não é suficiente, porque “no pavilhão temos 20 minutos de marcha e na Avenida temos sete. Estamos a falar de 13 minutos que se perdem e dos quais não há memória. Isso também acaba por ser importante preservar, não só para melhorias da própria marcha em si, mas também para guardar as tradições e perceber o que se pode ou não continuar”.
Concurso transformou-se ao longo das décadas
Ainda na mesma investigação, Cláudia explora como é que as Marchas Populares de Lisboa se transformaram ao longo das décadas. “As marchas, no início, tinham pouco espetáculo e tinham pouca ornamentação. Ao longo dos tempos o concurso vai-se tornando cada vez mais virado para o espetáculo”, refere, citando o falecido artista Carlos Mendonça, um dos grandes impulsionadores do concurso nos anos 90. “Ele trouxe o festão e os brilhos, foi uma importação do mercado inglês, e este novo modelo acabou por se tornar um modelo de imitação e de inspiração para outras marchas fora de Lisboa”, sublinha a estudante. No entanto, ressalva, “existe uma tradição que se começa a perder. Por exemplo, há muitos arcos que já são feitos por empresas, em vez de serem feitos manualmente, como antigamente”.
Sobre se considera que existe uma intenção de internacionalizar o concurso, Cláudia ressalva que este “é um objetivo muito antigo, que já vem desde os anos 40, pela mão de António Ferro, mas devido a esta falta de informação não consigo dizer com a certeza absoluta que o fez, mas sabe-se que as leva até à França, portanto, temos aí uma tentativa de internacionalizar o concurso. Atualmente, esta é uma intenção que se mantém, mas não tem uma consistência. Muitas vezes cheguei a perguntar aos turistas se por acaso sabiam o que ia acontecer na Avenida e no pavilhão. Muitos sabiam e tinham uma certa ideia que ia haver, na Avenida, algo muito importante para a cidade, mas não sabiam muito bem o que, já acerca do pavilhão o conhecimento é zero”.
Modernização do concurso é essencial
Ainda na opinião da estudante, as marchas “devem-se modernizar, porque as marchas sem modernização acabam por se findar em alguma parte”, explica, acrescentando que deve haver uma reformulação ao regulamento do concurso. “Há coisas que são muito ambíguas, e outras que restringem muito a criatividade. Deve-se tentar perceber, em conversa com as coletividades, o que é que é necessário alterar, porque há regras que são muito dúbias”, reforça.
Ainda na mesma opinião, Cláudia defende a existência de um concurso paralelo, onde pudessem participar os bairros que ficaram nos três últimos lugares na classificação geral (e que não são automaticamente apurados para a edição do ano seguinte) e os que já não participam há alguns anos, porque “quanto mais tempo se fica de fora, perde-se esta tradição”.
Desta forma, e em vez de atual seleção por sorteio, havia uma competição paralela, na qual se definia quais seriam os bairros que iriam participar no concurso principal. Por outro lado, Cláudia não é a favor que as Marchas Populares levassem todos os bairros a concurso, em vez das atuais 20, às quais se juntam mais três extraconcurso, uma vez que iria prolongar o tempo de espetáculo, quer no pavilhão, quer na Avenida, e poderia “não ser benéfico, não só para os próprios marchantes, mas também para o próprio concurso”.
Ligação aos bairros é fundamental
Á conversa com o Olhares de Lisboa, junta-se o responsável da Marcha de Marvila e presidente da Sociedade Musical 3 d’Agosto de 1885, Marco Silva. Esta coletividade, para além de organizar a marcha todos os anos, é também um dos pontos de ligação entre a comunidade marvilense. “Atualmente, é cada vez mais difícil ter pessoas que frequentem as coletividades”, lamenta o responsável, lembrando que “há uma vasta oferta de atividades para os jovens que se torna díficil trazer mais pessoas para as coletividades”.
Por outro lado, reconhece que a marcha é fundamental para preservar as tradições e unir a comunidade. “Marvila, felizmente, é uma das marchas que mais pessoas traz ao pavilhão”, explica Marco Silva, reforçando que a preservação desta tradição acaba por se revelar um desafio ano após ano, sobretudo em termos de recursos humanos. “A parte mais díficil é sempre a gestão das pessoas. No entanto, estamos atualmente na fase de inscrições e Marvila tem sempre muitos interessados. Fazemos um casting para escolher marchantes”, explica.
O responsável reforça ainda que faz questão que exista uma renovação dos marchantes ao longo dos tempos. “Nós jogamos para ganhar e temos de ter uma mentalidade vencedora. Quando as pessoas não têm estas características, não faz sentido mantê-las”, acrescenta Marco Silva, sublinhando que é também necessário motivar as pessoas para que elas venham para a marcha, dado que, cada vez mais, existem pessoas que já não moram nos bairros, o que as pode afastar do concurso. Por outro lado, e para mitigar parte deste problema, Cláudia destaca o papel fundamental dos pais na transmissão destas tradições aos filhos, tal como foi no seu caso.
Marchas infantis são essenciais na preservação da tradição
Apesar de nunca ter tido os pais na marcha, o pai de Cláudia esteve ligado à Sociedade Musical 3 d’Agosto de 1885, o que a levou a desenvolver um grande carinho pela marcha. “Os meus avós são daqui, moram aqui e os meus pais são daqui e moraram aqui até se casarem”, conta a estudante, que atualmente não reside na freguesia, mas no passado frequentou a escola em Marvila, onde teve ainda a oportunidade de participar nas marchas infantis, as quais, na sua perspetiva, desempenham um papel fundamental para incentivar e despertar o gosto dos mais pequenos por esta tradição.
“Como as pessoas estão a ser retiradas dos seus bairros, acabam por perder essa ligação. E também temos a questão das redes sociais e da televisão, que nos levam para o espaço fechado da nossa casa e que nos faz perder o contato com as pessoas à nossa volta e com o bairro”, salienta. Na sua perspetiva, “as coletividades têm um papel muito importante, porque são elas que depois têm de criar a equipa de trabalho e todo o projeto em torno da marcha e, por isso, precisam ter um rigor e uma responsabilidade acima do normal”.
Padrinhos devem também estar envolvidos na marcha, defende
Os padrinhos são também um dos pontos onde Cláudia acredita que deva existir uma proximidade. “Vou dar o exemplo de Marvila. Já passaram muitas personalidades por aqui, mas a Luciana Abreu fala muito de nós nos programas onde vai, e o Matay é daqui. No ano passado, ele fez uma declaração para os marchantes que me tocou, porque ele disse aquilo que realmente sentia, ele reconhece os esforços e as dificuldades que as pessoas sentem e isso dá-nos mais força e mais garra”.
Ainda na questão dos padrinhos das marchas, Cláudia defende que, para além da proximidade, deve-se também apostar “em nomes sonantes” para que se possa tentar trazer mais pessoas para as marchas, em especial elementos do sexo masculino. “A falta de homens é sempre o maior problema em todas as marchas. Não sei bem os motivos, talvez pensem que são coisas de mulher, pode haver um estigma, não sei, mas a realidade é que a falta de homens é uma realidade díficil de compreender”, explica a marchante.
“Na verdade, não sei se existe uma fórmula, mas se tivermos nomes mais ligados ao público jovem, como por exemplo influenciadores ou músicos, talvez isto possa ajudar a trazer mais rapazes”, explica Cláudia.




