“Em Belém, os interesses ficam à porta”, afirma o novo Presidente da República

Já como ‘Senhor Presidente’, António José Seguro diz que o povo português “é o melhor povo do mundo”. Seguro conquistou o maior número de votos de sempre numas Presidenciais, ultrapassando Mário Soares. Já André Ventura reconheceu a derrota, mas acusa os partidos de se unirem contra a sua candidatura e enaltece o “melhor resultado de sempre” do Chega em eleições, assumindo o objetivo de governar o país em breve. O ainda Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, felicitou Antonio José Seguro e revelou que o vai receber esta segunda-feira em Belém.

António José Seguro, eleito Presidente da República este domingo e que toma posse no dia 9 de março, começou o seu ‘discurso de vitória’ por lamentar as 15 vítimas mortais das tempestades que assolaram o país nos últimos dias e deixa uma palavra de solidariedade a todas as pessoas afetadas.

“A solidariedade dos portugueses foi heroica, mas a solidariedade dos portugueses não pode nunca substituir a responsabilidade do Estado”, afirmou.

Os milhões prometidos para a reconstrução têm de chegar ao terreno “agora”, exige, acrescentando que “não abandonará” os lesados. “Precisamos de um país preparado, não de um país surpreendido. Temos de ser melhores na organização do que no improviso”, refere.

“Comigo não ficará tudo na mesma”, prometeu Seguro. “Devemos isso aos portugueses. Estarei vigilante. Farei as perguntas difíceis e exigirei as respostas que o país precisa. E em Belém, os interesses ficam à porta. A transparência e a ética são inegociáveis”.

O presidente eleito lembrou que, terminado um ciclo eleitoral de três eleições e quatro idas às urnas em nove meses, abre-se um novo ciclo de três anos sem eleições nacionais.


“Não há desculpas: Portugal tem uma oportunidade única para que os partidos políticos, o Parlamento e o Governo encontrem soluções duradouras para resolver os graves problemas que enfrentamos na saúde, no acesso à habitação, na criação de oportunidades para os jovens, no combate à desigualdade entre homens e mulheres, na diminuição da pobreza, na criação de riqueza e de melhores condições de vida para todos os portugueses”, alertou.

António José Seguro apresentou-se como “o presidente de todos, todos, todos os portugueses”, incluindo os que não votaram em si, e disse, com o “coração cheio”, que esta vitória não é sua, mas de “cada pessoa que acreditou e tem esperança num país melhor”.

O presidente eleito repetiu, no seu discurso, uma frase que marcou a campanha: “Sou livre, vivo sem amarras”.

“A minha liberdade é a garantia da minha independência”, frisou, voltando a prometer lealdade e cooperação institucional com o Governo. “Jamais serei um contrapoder, mas serei um presidente exigente com as soluções e com os resultados”.

“Não serei oposição, serei exigência. A estabilidade política que defendo é um meio para garantir condições de governabilidade, nunca um fim para manter tudo na mesma”, acrescentou.

Pelo meio, o vencedor da segunda volta eleitoral deixou uma palavra ao adversário André Ventura: “Como democrata, todos os que concorreram comigo neste processo eleitoral merecem o meu respeito”.

“Como futuro presidente da República, acrescento que a partir desta noite deixámos de ser adversários e temos agora o dever partilhado de trabalhar por um Portugal mais desenvolvido e mais justo”, assegurou, garantindo “a maioria que me elegeu extingue-se esta noite”.

Ventura reconhece derrota

O candidato apoiado pelo Chega reconhece a derrota nas presidenciais, mas destaca o melhor resultado da história do partido. “Os portugueses colocaram-nos no caminho para governar este país”, declarou este domingo André Ventura após a derrota para António José Seguro na segunda volta das eleições presidenciais.

O candidato apoiado pelo Chega começou por felicitar o Presidente da República e desejou um “grande mandato” ao seu adversário: “O sucesso de António José Seguro será o sucesso de todos”.

“Entramos nestas eleições com o objetivo de vencer, é sempre assim neste partido. Não vencemos e isso deve significar o reconhecer que temos de fazer mais e trabalhar mais”, afirmou André Ventura. O resultado das presidenciais é um “enorme estímulo” para os combates do futuro e para “transformar Portugal”.

No seu discurso de derrota, o líder do Chega salientou que, “mesmo não vencendo, este movimento teve o melhor resultado de sempre na nossa história”.

O líder do Chega congratulou-se por uma campanha em que lutou “contra todo o sistema político português”, e reiterou que o partido liderou “de forma clara uma vitória na primeira volta de todo o espaço não-socialista em Portugal”. “Pela primeira vez em 50 anos, havia uma alternativa que não era do espaço do PS nem do PSD”, afirmou Ventura,

À falta de ter ultrapassado em votos a AD – teria de ter alcançado dois milhões de votos – Ventura aproveitou ter conseguido uma percentagem superior à AD nas últimas legislativas para considerar: “Superámos a percentagem da AD. Os portugueses colocaram-nos no caminho para governar este país”.

Marcelo reúne-se com Seguro

O ainda Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, felicitou Antonio José Seguro pela sua vitória na segunda volta das eleições presidenciais deste domingo. O chefe de Estado eleito será, por isso, recebido na segunda-feira em Belém.

Numa nota publicada no site oficial da Presidência da República, lê-se que Marcelo já telefonou a Seguro para o “felicitar pela sua vitória nas eleições presidenciais, desejando-lhe as maiores felicidades e êxitos para o mandato que os portugueses lhe atribuíram”.

O ainda chefe de Estado assegura ainda a sua “disponibilidade” para garantir a “transição institucional”, pelo que Seguro será recebido em Belém na segunda-feira às 16h00.

Cooperação de Seguro com o Parlamento

O presidente da Assembleia da República saudou António José Seguro pela vitória, fazendo votos de um bom mandato que assegure cooperação institucional com o Parlamento.

Aguiar-Branco deixou também “uma palavra de reconhecimento” ao chefe de Estado cessante, Marcelo Rebelo de Sousa.

“Ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, uma palavra de reconhecimento por uma década de serviço público, na chefia do Estado.”

Montenegro felicita Seguro

Por seu turno, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, felicitou António José Seguro por ter sido eleito Presidente da República e garantiu toda a disponibilidade do Governo para trabalhar em prol do futuro de Portugal.

“Quero nesta ocasião, em nome do Governo, dirigir uma palavra de felicitação ao doutor António José Seguro, Presidente da República eleito, tive já a ocasião de falar com ele, como tive também a ocasião de falar com o doutor André Ventura, candidato vencido neste segundo sufrágio”, afirmou Luís Montenegro na Casa Allen, no Porto.

O chefe do executivo garantiu ainda a António José Seguro, apoiado pelo PS, toda a disponibilidade do Governo PSD/CDS-PP para, em conjunto, trabalhar em prol do futuro de Portugal com espírito de convergência.

“Para salvaguardarmos o interesse dos portugueses com toda a cooperação, com todo o sentido de servirmos Portugal e o povo português, de forma construtiva, de forma positiva e cada um ao nível da responsabilidade que a Constituição atribui”, referiu.

Montenegro ressalvou que o Governo vai continuar a cooperar com o Presidente da República.

“Ficou bem patente pelo alto nível de participação, que não obstante as condições em que se realizou este sufrágio, mereceram efetivamente uma elevada participação por parte de todos, ao longo de todo o território nacional, mesmo nas regiões que vivem por estes dias grandes adversidades em virtude da situação meteorológica”, destacou.

Agradecendo também a todos aqueles que estiveram nas mesas de voto, o primeiro-ministro elogiou todos os autarcas, quer das câmaras municipais, quer das juntas de freguesia, que foram “inexcedíveis” na criação das condições que possibilitaram também que tudo tivesse decorrido com normalidade.

O chefe do executivo acredita que “daquilo que conhece” de Seguro não será difícil estabelecer uma relação de cooperação entre o Governo e a Presidência da República, respeitando as competências que a Constituição atribui a cada um deles e respeitando as posições políticas que o Governo tem e que o Presidente da República eleito tem sobre as mais variadas matérias.

“Em muitas circunstâncias são coincidentes, noutras poderão não ser, pelo menos à partida, e caber-nos-á no respeito da prossecução daquilo que é o interesse do país e da vida dos portugueses encontrar as plataformas de aproximar posições”, entendeu.

E com isso também, acrescentou, contribuir para na Assembleia da República contar com o esforço e a contribuição positiva de todos os partidos nela representados, em particular aqueles que têm um nível de representação que pode desequilibrar as votações mais importantes como, por exemplo, os orçamentos do Estado.

O primeiro-ministro aproveitou ainda para felicitar os portugueses por mais uma demonstração de “grande maturidade cívica”.

“Um socialista de sempre”

Já o secretário-geral do PS considerou que a vitória de António José Seguro é o triunfo de um amplo campo democrático, dos valores constitucionais e de “um socialista de sempre”, mas que será “Presidente de todos os portugueses”.

Esta posição foi assumida por José Luís Carneiro, na sede nacional do PS, em Lisboa, numa altura em que estão contados os resultados em mais de 80% das freguesias, com António José Seguro a obter mais de 65% dos votos contra 35% do seu adversário, André Ventura.

“Os socialistas estão felizes. Esta é uma vitória de um amplo campo democrático, da esquerda até ao centro-direita. Esta é uma vitória da democracia, dos valores constitucionais”, declarou o secretário-geral do PS.

Com o presidente do PS, Carlos César, a escutá-lo na primeira fila da sala, José Luís Carneiro defendeu que o resultado de António José Seguro na segunda volta das eleições presidenciais representa “a vitória das liberdades, dos direitos e das garantias de todas e de todos os cidadãos”.

“É a vitória dos valores da nossa Constituição. A democracia, hoje e mais uma vez, venceu. É a vitória de um socialista de sempre, mas é sobretudo a vitória de um Presidente de todos e para todos”, afirmou, invocando, depois, neste contexto, antigos chefes de Estado como Mário Soares e Jorge Sampaio.

José Luís Carneiro procurou ainda realçar a ideia de que António José Seguro vai vencer as eleições presidenciais com “cerca de dois terços dos votos dos portugueses”.

“António José Seguro foi secretário-geral do PS, é um homem do socialismo democrático. Mas esta é a vitória de um amplo campo político democrático, que vai da esquerda à esquerda do PS, até ao centro-direita, a direita democrática”, salientou o líder socialista.

No período de perguntas dos jornalistas, o secretário-geral do PS fez questão de acentuar a sua interpretação de que, “em primeiro lugar, esta é uma vitória do doutor António José Seguro”.

“É uma vitória de todos os humanistas, dos socialistas, dos sociais-democratas, dos democratas-cristãos. É de todos aqueles que defendem a democracia e os valores constitucionais. Naturalmente, os socialistas estão felizes com estes resultados eleitorais, sobretudo, por verificarem que os portugueses têm mesmo a democracia no seu coração – e batem-se pela democracia quando ela pode estar em perigo”, advogou o líder socialista.

Neste contexto, José Luís Carneiro manifestou-se certo de que António José Seguro, “eleito agora com uma maioria muito expressiva para assumir a função de Presidente da República, vai trazer união a todos os portugueses”.

“A independência, a isenção e a imparcialidade do mais importante árbitro institucional são decisivas para construirmos soluções para um novo ciclo político de estabilidade para o qual o PS quer contribuir. Assim o Governo esteja preparado para receber os contributos que temos para dar”, acrescentou.

Comunistas também satisfeitos

Por sua vez, o secretário-geral comunista, Paulo Raimundo, afirmou este domingo que “a grande notícia do dia” é a “clara derrota” de André Ventura nas presidenciais, enquanto pediu a António José Seguro, Presidente eleito, que “não apoie uma política que afronta” a Constituição.

“Há uma clara derrota e uma clara rejeição de André Ventura e das conceções que transporta” e essa é “a grande notícia do dia de hoje”, sublinhou o líder do PCP, numa declaração no Centro de Trabalho Vitória, em Lisboa, quando estavam já apurados mais de 90% dos votos, atribuindo a vitória a António José Seguro, candidato apoiado pelo PS.

“Essa é a grande questão, uma derrota para a qual o PCP se empenhou e, portanto, é com grande satisfação que temos este resultado”, referiu.

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