A autarca da Misericórdia usou da palavra na Assembleia Municipal para fazer uma saudação especial aos calceteiros de Lisboa, lembrando que o seu trabalho “transforma simples pedra numa das mais belas expressões da cultura portuguesa”. A calçada portuguesa nasceu em Lisboa, em 1842, tendo o mestre Eusébio Furtado executado o primeiro grande pavimento no interior do Castelo de São Jorge.
No âmbito do Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa, que se assinalou pela primeira vez, no dia 22 de julho, na cidade de Lisboa, a presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, Carla Almeida, prestou uma homenagem a estes trabalhadores na última Sessão Extraordinária da Assembleia Municipal de Lisboa.
Para Carla Almeida, a calçada portuguesa “não é apenas pedra”, é memória, identidade, o saber fazer acumulado, é arte de gerações que está ao serviço da cidade. “Os calceteiros continuam a desenhar Lisboa pedra a pedra, e a fazer a história da cidade”. Aliás, a arte da calçada portuguesa é hoje reconhecida como Património Cultural Imaterial e continua o seu caminho para alcançar o merecido reconhecimento internacional, segundo a autarca.
“Mais do que falar património, importa falar das pessoas que, longe dos holofotes, ajudam a construir, preservar e construir a nossa cidade. Quando caminhamos pelas ruas das nossas freguesias, raramente pensamos em quem lhe dá vida, em quem está detrás de cada desenho, de cada praça, de cada padrão de pedra, para que esta arte chegasse até aos nossos dias”, mas é preciso ter presente que foram “as mãos e o talento de gerações de calceteiros que ajudaram a construir a identidade de Lisboa”, tendo sido cinzelada a história da cidade pelas mãos dos calceteiros.
Calçada da Praça de São Paulo, património nacional
Segundo a autarca, a freguesia da Misericórdia “tem razões acrescidas” para assinalar o Dia do Calceteiro, uma vez que foi recentemente determinada a abertura do procedimento de classificação de âmbito nacional do Tapete da Calçada de Pedra da Praça de São Paulo, no Cais do Sodré, “um dos mais antigos e emblemáticos exemplos da arte calcetada da cidade de Lisboa”, construído em 1850, após o Terramoto de 1755.
“Este espaço tornou-se num marco da evolução artística e técnica portuguesa. E representa hoje uma herança patrimonial de valor excecional para a cidade”, defendeu a autarca.
Na visão de Carla Almeida, o anúncio da classificação do Tapete da Praça de São Paulo como património nacional “é uma notícia que nos deve orgulhar a todos, mas, acima de tudo, deve lembrar-nos que não existe património sem as pessoas que lhe dão vida, e que o mantêm vivo. Por detrás de cada calçada, estão as mãos e o talento que a mantém viva, estão os calceteiros que ajudaram a construir a identidade de Lisboa”.
Para a presidente de Junta da Misericórdia, ser calceteiro “não é apenas uma profissão”, é ofício singular que tem dois séculos de história, e que tem vindo a transformar “trabalho em arte”, deixando uma marca que atravessa diversas gerações.
Elogio do trabalho discreto
A autarca reiterou que muitos dos calceteiros “passam uma vida inteira ao serviço da cidade sem procurarem reconhecimento”, estando, no entanto, a sua obra plasmada “por toda a parte”, nos bairros, praças e ruas da capital. “A sua assinatura está gravada na pedra, está gravada na própria cidade. Na Misericórdia, sentimos isso todos os dias. Os nossos bairros são feitos de pessoas, mas também das histórias que partilhamos e dos espaços que cuidamos em conjunto”.
Na visão de Carla Almeida, a defesa da calçada portuguesa, da lisboeta em particular, representa “muito mais do que defender um simples pavimento: estamos a defender aquilo que torna Lisboa única, a autenticidade dos nossos bairros, a herança das anteriores gerações e que temos o dever de transmitir às gerações futuras”.
Por tudo isto, a autarca tornou público o seu agradecimento aos calceteiros de Lisboa. “Obrigado por continuarem a construir a nossa cidade pedra a pedra. Há quem veja (na calçada) apenas pedra, mas nós vemos história, dedicação e trabalho em prol da comunidade. Vemos também gerações de homens e mulheres que ajudaram a construir a nossa cidade”.
A autarca socialista concluiu a sua intervenção, homenageando aqueles que “transformam simples pedra numa das mais belas expressões da cultura portuguesa”, deixando o seu legado na Praça de São Paulo, na freguesia da Misericórdia, e por toda a cidade de Lisboa.
Arte nasceu em Lisboa
A capital conta um Monumento ao Calceteiro, nos Restauradores, que assinala um ofício e uma arte profundamente ligados à identidade da cidade, reconhecendo o papel dos calceteiros na preservação deste património.
Foi em Lisboa que nasceu a calçada portuguesa, em 1842, quando Eusébio Furtado promoveu a execução do primeiro grande pavimento em pedra branca e preta, no interior do Castelo de São Jorge. Desde então, a arte expandiu-se pela cidade, pelo país (em 290 municípios) e por vários pontos do mundo: Espanha, Gibraltar, Bélgica, República Checa, China, Macau, Malásia, Timor-Leste, Angola, Moçambique, África do Sul, Brasil, Estados Unidos e Canadá, tornando-se uma das mais reconhecidas marcas da identidade urbana de Lisboa.
A Câmara Municipal de Lisboa considera que a calçada portuguesa constitui um património artístico e cultural que transforma ruas e praças num verdadeiro museu ao ar livre. Os seus desenhos, motivos e padrões fazem parte da memória coletiva da cidade e refletem a história, a criatividade e o saber-fazer de sucessivas gerações de calceteiros.
O Município assinalou, este ano, os 40 anos da Escola de Calceteiros. Criada em 1986, a escola tem desempenhado um papel determinante na formação de profissionais qualificados e na preservação de uma arte que continua a marcar a paisagem urbana da cidade.
A valorização deste património estende-se, ainda, aos planos nacional e internacional, através da inscrição, em 2021, no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, e a candidatura em curso a Património da Humanidade da UNESCO.
Escola de Calceteiros de Lisboa dá formação em Maputo
Segundo a CML, a Escola de Calceteiros da Câmara Municipal de Lisboa está atualmente a ministrar ações de formação na cidade de Maputo, em Moçambique. Esta capacitação técnica destina-se a formar novos profissionais na execução e manutenção da calçada portuguesa, visando transmitir conhecimentos sobre técnicas tradicionais de assentamento de pedra e conservação deste património urbano.
Além de responder à crescente procura por profissionais qualificados, “a formação promove a valorização da calçada portuguesa como elemento distintivo do espaço público e da identidade cultural dos países de língua portuguesa”, assinala a autarquia.
A Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa lançou, recentemente, cinco novos roteiros que permitem conhecer a Calçada Artística de Lisboa. Estes roteiros têm como objetivo homenagear e dar a conhecer este símbolo tradicional da cultura portuguesa.







