A segunda edição de “A Livraria” – Festa do Livro de Oeiras fechou com chave de ouro. No domingo, dia 27, os amantes da palavra lotaram a sala de conferências e espetáculos do Parque dos Poetas para assistirem ao conversa-concerto do cantautor irlandês Perry Blake e logo de seguida a uma espécie de palestra, onde irreverência do escritor Miguel Esteves Cardoso desconstruiu a falácia dos lugares-comuns associados às várias épocas, de várias gerações. MEC dissertou ainda sobre a infelicidade de uma vida sem amor, os fracassos editoriais (como a revista “K”) e do “puritanismo” das pessoas de esquerda.
Este ano, o evento associou-se às comemorações dos 40 anos da adesão de Portugal à União Europeia, sob o tema “Anos 90 bem vividos”, pondo acento tónico na época em que Portugal deixou de olhar para o oceano atlântico e passou a voltar a sua atenção para a Europa.
A tarde de domingo, solarenga e convidativa para desfrutar dos espaços ao ar livre, trouxe, porém, a melancolia do início do outono ao auditório do Parque dos Poetas. O cantautor Perry Blake marcou encontro com um público adulto e sofisticado, para escutar as palavras e atuação intimista do cantautor irlandês. Vestido de negro da cabeça aos pés, Blake falou da sua obra e interpretou alguns dos seus temas mais conhecidos — hinos de uma “imensa minoria”, como Califórnia, mas também temas menos conhecidos –, mas sempre melancólicos e com o seu cunho pessoal, a sua voz límpida e condoída.
Perry Blake revelou ligações “improváveis” e episódios que marcaram a sua vida de poeta errante, como a amizade com o ator Michael Caine ou personagens ligadas à entourage dos Rolling Stones. O cantor poeta assumiu que “nunca quis ser uma estrela”, mas apenas “fazer álbuns orgânicos” que tocassem na alma do seu público.
MEC e a forma muito particular de observar o país
Após assistir a exercício zen proporcionado pelo artista irlandês, o público foi sacudido pela irreverência e humor desconcertante do escritor e ex-jornalista Miguel Esteves Cardoso, conhecido no meio simplesmente como MEC. Numa conversa centrada nos anos de 1990, que encheu as duas salas do Templo dos Poetas, mas sem regras rígidas nem guião prévio, o escritor dissertou sobre literatura, jornalismo e o olhar singular do autor sobre a vida quotidiana, o amor, a conveniência de defender que “nos anos 90 era tudo bom”.
Tito Couto, ex-jornalista e produtor cultural, bem tentou “moderar” a intervenção, dividindo a intervenção por “temas”, mas o escritor libertou-se das amarras do politicamente correto e levou a conversa para onde quis.
Sobre os anos 90, MEC desvalorizou as comparações genéricas sobre as considerações de que “naquele tempo era tudo bom”, acentuando que os anos de 1990 “eram um tédio”, onde não havia telemóveis, “se mentia imenso”, em que se passava as noites “de copo na mão” a “olhar para as raparigas” e onde os mais afoites “levavam com rejeições” em “90% das abordagens de engate”. Ainda assim, o cenário de tédio repete-se em loop geracional. Agora, o tédio transitou para a geração Z, em que já ninguém bebe álcool, acabaram as discotecas, “não há engates”, não há contacto físico entre os jovens. Qual será então o tempo certo para se afirmar com propriedade que “naquela época é que era bom”? “Nenhum. As pessoas que dizem que no tempo deles era bom, porque têm saudades da sua juventude, não é da época em si, onde é tédio está sempre presente, é mesmo de serem jovens”, atirou.
Revista “K”, um “sucesso” tardio
Questionado sobre a “pedrada no charco” editorial representada pela publicação da revista “K”, MEC ouviu os louvores do moderador ao projeto, dizendo Tito Cunha que foi uma revista “sobre o bom gosto”. O escritor emitiu um sorriso de aprovação, mas emendou que a “K” “foi um fracasso total, que foi à falência muito rapidamente”.
“Ninguém comparava a revista. Ficava tudo nas bancas. Consideravam a revista elitista. Os críticos diziam que o mundo estava a arder – o mundo está sempre a arder – e que nós tínhamos o desplante de falar de coisas triviais, das coisas boas da vida. Nunca recebemos uma carta a expressar admiração pela revista, nem uma. Tínhamos grande nomes a escrever para nós, a Agustina Bessa Luís, o Rui Zink, a Maria Filomena Mónica e o Vasco Pulido Valente, mas vendíamos 2 mil exemplares mensais (…) Passados 40 anos, toda a gente acha que a revista era genial. Aconselho os jovens a criarem jornais e revistas. Estão condenados ao fracasso. Mas, daqui a 40 anos, estou certo de que serão um êxito…”, defendeu, provocando uma gargalhada geral.
Pese embora a “K” ter tido o efeito cometa, Miguel Esteves Cardoso afiançou que a publicação teve no seu âmago a intenção de retratar a lado belo da vida, “arte, o instinto, a poesia, o amor”, isto é, “as coisas boas, que são eternas”.
O amor e as amizades
Considerando que o amor “foi o tema central da sua vida” em muitos dos seus livros, mas também da própria existência, o escritor defendeu que o individualismo acarreta uma existência de “infelicidade”. “Todos ansiamos pela liberdade, que nos torna menos livres, mergulhando-nos na infelicidade de uma vida sem amor. Amor é sentir a maldição de quando a pessoa que amamos vai embora (…) Ninguém acredita na felicidade dos divorciados. Dizem que voltaram a ter liberdade, mas toda a gente sabe que é tudo mentira (…) A crença no amor livre dos anos 60 é ‘bullshit’… Apaixonarmo-nos por alguém é maravilhoso”.
Virando a intervenção para as amizades e a sua visão sobre as relações humanas, MEC reconheceu que “todos os meus amigos são de esquerda”, porque as pessoas de direita “são horríveis”, mas as amizades à esquerda “são pessoas que negligenciam o prazer” e que rejeitam tudo aquilo que provenha de “máquinas”, como agora a Inteligência Artificial (IA). “Se abdicarmos de tudo o que é feito por máquinas, andamos nus no deserto”, concretizou, acrescentando que as pessoas de esquerda “são puritanos”, “falsos padres”.
“Se alguém tiver o prazer de ver as figuras que a Maria Vieira faz, que é do Chega, qual é o problema? Se tenho prazer, em ler livros, qual é o problema de gastar um vencimento numa hora de encomendas de livros pela Amazon? Os prazeres são a parte essencial da vida”, asseverou.
Ao arrepio dos conselhos da mulher, que considerou ser o amor da sua vida, o escritor observou que o Oeiras como “um sítio estranho” por ser “a Califórnia” de Portugal, mas “com lugares de estacionamento”. Mostrando “vergonha” por ser o lugar em que “ganho mais dinheiro”, ao contrário “das minhas origens: Lisboa e Cascais”, atirou, admitindo que estava a elogiar “quem nos dá o pão para a boca”.
Para fazer um retrato pessoal do país atual, o escritor lembrou que “toda a gente no mundo diz que sorte a nossa de vivermos num país que tem tudo”, mas que continua a ser conservador no sentido mais nobre do termo, conservando as linhas de praia e “a não deixar que a costa seja comprada pelos mais ricos”, como já acontece noutros países”, descreveu, não contendo as gargalhadas. Apesar de tudo, Portugal tem sabido conservar a “beleza das coisas”, mas também importará manter velhos hábitos lusos, como “ser maltratado nos cafés e restaurantes”.
No final da sessão, o público saiu com um largo sorriso estampado no rosto, comentando a “liberdade de dizer tudo”, com a fina ironia dos predestinados, resumiu um casal que se amparou um no outro.



