Moradores da Baixa de Algés lançam um alerta sobre os problemas de higiene e salubridade causados por ponto de deposição de resíduos, principalmente no cruzamento da Rua General Humberto Delgado com a Rua Luís de Camões. Conversámos com uma moradora que está impedida de abrir as janelas de casa pelo “cheiro nauseabundo”. Os moradores apontam o dedo à falta de civismo e ao próprio desenho urbanístico da higiene urbana de Algés, mas anotam sugestões para melhorar o sistema de recolha de resíduos.
Maria Luísa Carvalheiro, de 83 anos, mora na Baixa de Algés há 44 anos e é confrontada diariamente com “um cheiro nauseabundo”, que a impede de abrir as janelas da sala e de desfrutar das “vistas” que dão para a Rua Luís de Camões. A origem do seu mal-estar está diretamente relacionada com a deposição de resíduos nos caixotes de lixo na Baixa de Algés.
Em declarações ao nosso jornal, a moradora revela que já se habituou ao “cheiro pestilento” que emana do caixote do lixo em frente ao seu prédio, mas atribui “inteira responsabilidade” há falta de civismo de alguns habitantes e comerciantes.
“As pessoas são preguiçosas e umas porcas! O caixote está muitas vezes vazio, mas, mesmo assim, depositam os seus detritos fora do caixote. Basta um pôr fora, para todos os outros lhe seguirem o ‘exemplo’, seguindo-se um amontoado de lixo fora do caixote e um cheiro horrível em toda a rua”.
A Rua Luís de Camões tem uma intensa atividade comercial. Há várias lojas que comercializam bens alimentares. Ao depositaram os detritos alimentares no contentor, sustenta Maria Luísa Carvalheira, é gerado um processo de decomposição de difícil resolução. “Quando o camião da higiene urbana faz a limpeza do contentor, levanta a lixo para o camião, deixando cair os líquidos malcheirosos que resultaram da decomposição das frutas e legumes”, anota.
Como se isso não bastasse, diz a moradora, as pombas vêm à cata de resíduos alimentares que possam estar depositados nos sacos do lixo que ficam junto ao contentor. “As pombas picas os sacos do lixo e fica tudo espalhado pela rua”, acrescenta a habitante de Algés.
A octogenária defende que os contentores “deveriam estar mais afastados” dos prédios “onde mora gente”, sugerindo que passassem para uma rua, “onde quase não mora ninguém”, como a Humberto Delgado.
Mas a moradora garante que, apesar da sua idade, deposita todo o seu lixo nos contentores da Rua Conde Barão, que fica umas centenas de metros do seu apartamento, para evitar “a acumulação de porcaria” à porta de casa.
“Aqueles caixotes estão sempre vazios. Temos aqui na rua várias frutarias, mas ninguém se desloca para deitar o lixo nesses contentores. Deitam tudo aqui. E, depois, a rua fica transformada numa autêntica imundice”, lamenta, acrescentando que “o mau cheiro dos caixotes é tanto que os próprios trabalhadores da higiene urbana são obrigados a tapar o nariz” sempre que içam os caixotes, por causa da decomposição dos resíduos orgânicos, denuncia, acentuando a sua indignação: “É uma tristeza!”.
Exposição às autoridades autárquicas
Nuno Fonseca fez já uma exposição escrita às autoridades locais, designadamente Câmara Municipal de Oeiras, Junta de Freguesia e partidos políticos com acento nas estruturas autárquicas, onde dá conta da sua apreensão face ao “arrastar” de um problema que pode pôr em causa a saúde pública.
Na exposição que fez chegar ao nosso jornal, o morador chama a atenção para as condições de higiene e salubridade associadas ao ponto de deposição de resíduos situado no cruzamento da Rua General Humberto Delgado com a Rua Luís de Camões, junto ao Pingo Doce, na Baixa de Algés.
Nuno Fonseca revela que reside e trabalha diariamente na Rua General Humberto Delgado, desenvolvendo parte significativa da sua atividade profissional a partir de casa, onde leciona explicações.
Para o morador, o problema mais evidente é o cheiro a resíduos orgânicos em decomposição, “por vezes prolongado e verdadeiramente nauseabundo”, diz, revelando que “o odor entra na minha habitação e afeta diretamente as condições em que vivo e trabalho”. Mas é também recorrente a presença de pequenas moscas dentro de casa; baratas no prédio e roedores na zona.
Nuno Fonseca lembra que a documentação técnica municipal relativa a estes sistemas prevê que a recolha seja efetuada evitando derrames de resíduos líquidos ou sólidos e que, caso ocorram, o local seja limpo.
“Parece-me, por isso, importante verificar se o sistema instalado neste ponto está a funcionar corretamente e se a lavagem posterior às operações de recolha está a ser feita com a regularidade necessária”.
No entender do morador, um sistema de deposição e recolha de resíduos existe precisamente para contribuir para a higiene urbana, algo que não estará a acontecer.
“Quando se verificam de forma recorrente odores intensos, líquidos no pavimento, resíduos na envolvente e superfícies conspurcadas, importa perceber se o problema está na capacidade ou localização dos equipamentos, na utilização que lhes é dada, na frequência da recolha, no próprio processo de esvaziamento ou na regularidade da lavagem e higienização”.
Segundo Nuno Fonseca, a localização dos contentores torna a situação particularmente sensível, uma vez que estão instalados numa zona central e intensamente utilizada da Baixa de Algés, com grande concentração de habitação, comércio e serviços.
O problema não afeta, portanto, apenas os moradores próximos. “Afeta igualmente quem trabalha na zona, comerciantes e clientes, estudantes, utentes dos diferentes serviços, utilizadores dos transportes e muitas outras pessoas que diariamente atravessam a Baixa de Algés”, sustenta.
Sugestões para melhorar saúde pública
Na missiva enviada às autoridades autárquicas, o morador não se limita a apontar falhas ao sistema de higiene urbana. Nuno Fonseca dá algumas sugestões para ajudarem a melhorar a saúde pública do local.
Entre as suas propostas, sugere uma visita ou inspeção ao local, incluindo equipamentos, pavimento, derrames, odores e eventual presença de sinais de pragas, mas também “uma limpeza e lavagem aprofundadas dos equipamentos e da área envolvente; a adequação da frequência de lavagem e higienização à intensidade real de utilização deste ponto; o acesso à informação ou aos registos existentes relativos à periodicidade prevista para recolha, lavagem e higienização deste ponto e, se disponíveis, às datas das operações realizadas nos últimos meses”.
No mesmo sentido, sugere a eventual necessidade de medidas de controlo de pragas na envolvente; a verificação dos circuitos dos resíduos produzidos pelos principais estabelecimentos comerciais próximos, sobretudo no que respeita a resíduos alimentares e bio resíduos; a verificação das condições em que é realizado o içamento e esvaziamento dos contentores enterrados, nomeadamente quanto à ocorrência de derrames de líquidos e à limpeza do pavimento sempre que estes ocorram.
Numa segunda linha de sugestões, Nuno Fonseca pede ainda a possível reavaliação da rede de deposição na Baixa de Algés, destacando a necessidade de avaliação se a rede de depósitos de resíduos possa ser “racionalizada ou parcialmente concentrada, mantendo os pontos necessários para garantir um bom acesso pedonal. “Menos locais, eventualmente com equipamentos de maior capacidade e melhor concebidos, poderão facilitar a manutenção e permitir uma lavagem e higienização mais regular”, anota.





