Faleceu António Rodrigues Correia, antigo professor em Palmela, aos 88 anos. Foi uma figura marcante na comunidade de Palmela, conhecido pelo seu passado como pároco, professor e resistente antifascista.
A Câmara Municipal lamenta o falecimento do ex-sacerdote, que abandonou a Igreja por divergências ideológicas, para ingressar na sociedade civil, dedicando-se ao ensino, ao apoio ao proletariado e às causas sociais. António Correia passou dois meses encarcerado na Cadeia de Caxias. No dia da sua libertação, o povo palmelense veio para rua saudar o seu regresso à comunidade.
Nascido a 8 de março de 1938 em Torres Novas, passou pelo seminário de Olivais, turma de 1961, foi padre, mas foi como professor que deixou um trabalho marcante na comunidade de Palmela. Entrou para o seminário aos 11 anos (Fátima, Almada e Olivais) e foi ordenado padre em 1961. Foi professor no Seminário de Almada até 1967.
Desempenhou funções de pároco no concelho de Palmela entre outubro de 1967 e o final de 1974. Lecionou em escolas locais (como o antigo Ciclo Preparatório Hermenegildo Capelo) e a Secundária de Palmela, destacou-se como resistente antifascista durante a ditadura.
É coautor do livro “História e Histórias de Palmela”.
Câmara de Palmela aprova voto de pesar pela morte do ex-pároco
A Câmara Municipal de Palmela aprovou, por unanimidade, na reunião de Câmara de 23 de setembro, um voto de pesar pelo falecimento de António Rodrigues Correia, que “deixa um enorme legado de intervenção cívica e generosidade que marcou várias gerações”.
“Pelo seu exemplo de humanismo e pelo papel agregador que exerceu junto da comunidade”, o Município atribuiu-lhe, em 2012, a Medalha Municipal de Mérito, Grau Ouro, na categoria de Envelhecimento Ativo e Solidariedade Entre Gerações.
No voto de pesar, a CMP lembra “o homem de convicções fortes, defensor da justiça, sem perder a esperança no melhor da Humanidade, deixa-nos um enorme legado de intervenção cívica e generosidade que marcou várias gerações”.
Natural de uma aldeia próxima de Torres Novas, ingressou no curso de Teologia, no Seminário de Almada, aos 10 anos, em regime de internato. Aí permaneceu, mais tarde, já como padre e professor, envolvido, também, no desenvolvimento de trabalho social com a comunidade operária da Cova da Piedade. Paralelamente, dinamizava trabalho social com a comunidade operária da Cova da Piedade.
Em Lisboa, envolveu-se com o movimento de Católicos Progressistas, apoiantes da paz. A manifesta oposição à guerra colonial e ao regime conduziram ao seu afastamento, tendo um antigo professor do Seminário conseguido uma colocação como pároco de Palmela e de Quinta do Anjo. Iniciou funções no concelho de Palmela em outubro de 1967, aos 29 anos, “mantendo-se firme na defesa da paz e do pensamento livre e abrindo a Casa Paroquial às pessoas”, recorda o Município, em comunicado.
Em 1973, foi detido pela PIDE em casa dos pais, no Entroncamento, e preso em Caxias. A população de Palmela organizou vários abaixo-assinados pela sua libertação e membros do Conselho Paroquial, juntamente com Álvaro Cardoso, solicitaram uma audiência com o Cardeal Patriarca de Lisboa para interceder junto do Governo, então liderado por Marcelo Caetano. Depois de dois meses de prisão e interrogatórios sucessivos, foi libertado em fevereiro de 1974, “num dia que se transformou de verdadeira festa à sua chegada a Palmela”.
No final desse ano, abandonou a vida religiosa, em desacordo com uma Igreja Católica que considerava profundamente conservadora, e comunicou a sua decisão numa carta aberta à população de Palmela, com a qual manteve uma relação de grande proximidade e estima até ao fim da sua vida. Constituiu família, regressou à Universidade para poder lecionar português e ingressou, em 1975, na Escola Secundária de Palmela, onde foi professor até 1999 e presidente do conselho diretivo em 1975 e entre 1991 e 1995.
Sempre ao serviço da comunidade, de forma disponível e empenhada, foi um dos impulsionadores da criação do Centro Social de Palmela e dedicou-se a diversas causas e ao voluntariado, por exemplo, na Igreja de S. Pedro e no Hospital do Outão. Colaborou com a Câmara Municipal em projetos vários, de âmbito educativo, cultural e patrimonial e, mais recentemente, nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril de 1974. Foi membro entusiasta do coro da Sociedade Filarmónica Palmelense “Loureiros”, lecionou as sessões “Palmela – História e histórias”, no âmbito da Academia dos Saberes, e “Histórias do Concelho de Palmela” na UNIV Sénior Palmela. Defensor inabalável dos valores de Abril, dedicou grande parte da sua vida a partilhar a sua experiência de resistência antifascista, em particular, junto das gerações mais jovens, recorda a CMP.
“Pelo seu exemplo de humanismo e pelo papel agregador que exerceu junto da comunidade”, o Município de Palmela atribuiu-lhe, em 2012, a Medalha Municipal de Mérito, Grau Ouro, na categoria de Envelhecimento Ativo e Solidariedade Entre Gerações.
Reunida a 23 de setembro de 2026, a Câmara Municipal de Palmela lamenta o falecimento de António Rodrigues Correia e endereça “sentidas condolências à família e a todas as instituições que integrou no seu vasto percurso”.







