Gestor apresenta proposta fraturante para promover justiça social na sociedade

E se as empresas devolvessem os “lucros supranormais” à sociedade? Foi para tentar responder a esta questão que o gestor Nélson Brites Correia escreveu “Convergência”, uma obra fraturante onde é defendida a tese de que, para haver mais justiça social, as corporações deveriam devolver os lucros “supranormais” aos seus clientes com o objetivo de reequilibrar os pratos da balança.

O autor, que faz questão de referir que não é contra os lucros das empresas nem contra a economia de mercado, acredita na validade da sua tese, que nunca foi aplicada, mas que nem por isso “é impossível” de pôr em prática porque representa “a maturação do capitalismo”.

Em declarações exclusivas ao “Olhares de Lisboa”, o autor explica que a ideia de pôr no papel os seus pensamentos e propostas foi crescendo à medida que se apercebia das crescentes desigualdades sociais que hoje grassam pelo mundo, espoletadas pela crise do subprime — uma grave crise financeira global desencadeada em 2007 nos Estados Unidos e que alastrou rapidamente para todas as economias mundiais.

“Nos meses seguintes vimos duas coisas que não deviam coexistir: pessoas sem culpa nenhuma a pagar, através do Estado, o resgate de instituições e, ao mesmo tempo, empresas a anunciar lucros recorde precisamente quando os seus clientes mais sofriam. Numa caminhada no Estádio Nacional escrevi uma nota que ainda guardo: ‘devolver os lucros supranormais’. A ideia nunca mais me largou, até porque nada mudou. Hoje vemos o mesmo: famílias com cada vez mais dificuldades e setores a bater recordes de lucro trimestre após trimestre. Durante 18 anos fui juntando notas e leituras de filosofia, história das ideias e religião, até encontrar uma frase de Epicuro, ‘o suficiente é a abundância do sábio’. Foi a peça que faltava. Aí, decidi escrever”.

Brites Correia assevera que é seu objetivo, “responder a uma pergunta: porque construímos instituições que precisam que o suficiente nunca chegue? E, mais do que diagnosticar, propor uma solução concreta. A Humanidade sempre soube o que é o suficiente; as grandes tradições, de Aristóteles aos estoicos, ensinam-no há mais de dois mil anos. O problema nunca foi de conhecimento nem de moral individual. É de arquitetura institucional. Quis mostrar que é possível mudar essa arquitetura sem esperar que as pessoas se tornem santas”.

Para o autor, a obra propõe que as empresas possam inscrever livremente nos seus estatutos uma cláusula: “Quando o excedente ultrapassar o limiar que elas próprias definiram como suficiente, uma parte regressa, sobretudo, aos clientes”. “Não como generosidade ou responsabilidade social que se revoga no trimestre seguinte, mas como compromisso vinculativo, auditável e irreversível. A ideia central é separar duas coisas que o capitalismo sempre confundiu: a prosperidade e a acumulação ilimitada”. O autor sublinha que o livro “defende a prosperidade”, mas uma prosperidade que saiba delimitar os seus próprios muros.

Miguel Brites Correia sustenta que a obra “não procura a controvérsia, mas não a temo”. Com o lançamento do livro, será expetável surgirem “críticas dos dois lados: uns dirão que é pouco, outros que é demais”. Mas o gestor esclarece que o livro “não é contra o lucro, porque sem lucro não há excedente a devolver. Não defende o decrescimento nem o nivelamento, e não impõe nada a ninguém”, pois a adesão à proposta “é voluntária”. “E não pretende ser a única resposta. É uma proposta, não um dogma. Se gerar debate sério, já cumpriu boa parte do que pretendia. A crítica que mais me interessa é a que ajude a tornar a proposta melhor”, salienta Brites Correia.

O autor salienta ainda que a sua proposta “é totalmente inovadora”, mas não pretende derrubar os conceitos economia de mercado, nem tampouco o próprio capitalismo, assumindo que a tese espelha a necessidade de trazer para a sociedade “a maturação do capitalismo”, um conceito que põe travão aos lucros sem freio de empresas que atuam como se estivessem “na adolescência do capitalismo”.

O lançamento, é no dia 10 de outubro às 16h00, na Biblioteca de Alcântara, e conta com apresentação de Paulo Câmara, professor universitário e advogado, que também escreveu o prefácio. O autor salienta que é sua expectativa que o livro fomente um debate entre empresários, juristas, economistas e cidadãos, sobre algo que “parece impossível só porque nunca foi tentado”.

Nelson Brites Correia formou-se em gestão e controlo de gestão na Universidade Católica Portuguesa e no ISCTE-IUL. Ao longo de décadas trabalhou em consultoria de investimento, controlo financeiro e auditoria interna, e fundou e dirigiu as suas próprias empresas. Sustenta que essa dupla experiência, o rigor de quem analisa e o risco de quem empreende, está na origem de “A Convergência — O suficiente como cláusula” (Editora d’Ideias), o seu primeiro livro, escrito ao longo de 18 anos.

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