A Águas do Tejo Atlântico realizou a 10.ª edição do encontro “Caminho da Inovação”, no dia 1 de outubro, Dia Nacional da Água. O evento, realizado na Fábrica de Água de Alcântara, sob o tema “O Futuro da Água não é Óbvio”, contou com a participação de vários peritos e decisores políticos para debater e explorar os desafios que estão a transformar o setor da água, da resiliência e do território, inspirando novas formas de pensar e construir o futuro deste bem essencial.
O encontro centrou-se na resiliência das infraestruturas perante as alterações climáticas e na exploração de novas perspetivas para a gestão hídrica sustentável. Na sessão de abertura, o presidente do conselho de administração da Águas do Tejo Atlântico, Cláudio de Jesus, destacou a importância da cooperação entre organizações, investigadores, municípios, empresas e instituições de conhecimento.
Cláudio Jesus, sublinhou que o setor tem estado “à altura dos acontecimentos” e das exigências face a situações extremas, como o “comboio de tempestades”, incluindo no sistema “soluções inovadoras”, que considera serem “uma obrigação” para que a companhia consiga antecipar cenários e esteja sempre na linha da frente da oferta de soluções para manter a engrenagem do setor em pleno funcionamento.
Para o administrador, a inovação não pode ficar refém da inércia ou retida nos gabinetes das instituições. “Como transformamos novas ideias em soluções? Como passamos da experiência à evidência, da evidência à decisão e da decisão à mudança efetiva?”, questionou o responsável, apontando esta transição como uma das principais missões do evento.
Conforme salientou Cláudio Jesus, ao longo de dez edições, o “Caminho da Inovação” acompanhou a evolução das preocupações do setor da água. O percurso começou, em 2017, com a afirmação de que “o caminho da inovação começa aqui”, passando posteriormente por temas como o crescimento sustentável, a ligação entre pessoas e planeta, as cidades sustentáveis, a ação climática e, mais recentemente, o desafio de “desafiar o óbvio”.
De acordo com o responsável, esta evolução demonstra que o setor tem vindo a alargar a sua visão e a reconhecer que os desafios relacionados com a água não podem ser resolvidos apenas com infraestruturas e ferramentas que já existem. “Os desafios da água não se resolvem apenas dentro das nossas infraestruturas, nem apenas com as ferramentas que já conhecemos”, lembrou, alertando para o risco de a exigência da operação diária limitar a capacidade de reflexão e inovação das empresas do setor.
“Devemos sempre estudar, ouvir quem tem uma perspetiva diferente” e reconhecer que “o conhecimento não está concentrado numa única organização, numa única equipa ou numa única pessoa”, reiterou o administrador.
Na visão de Cláudio Jesus, “uma organização inovadora não é aquela que tem todas as respostas”, mas sim aquela que “sabe fazer as perguntas certas e encontra as pessoas certas para construir as respostas”.
Alterações climáticas e pressão sobre o setor
Entre os principais desafios identificados no encontro, foram destacadas as alterações climáticas, a maior variabilidade hidrológica, os períodos de escassez de água e os fenómenos extremos, bem como as exigências crescentes de eficiência energética e a necessidade de proteger os ecossistemas.
O setor terá ainda de tomar decisões num contexto marcado pela evolução das condições económicas, regulatórias e geopolíticas. Por isso, o responsável defendeu que as soluções desenvolvidas devem ser simultaneamente relevantes do ponto de vista ambiental, sustentadas cientificamente, seguras na operação e economicamente sustentáveis.
“Não basta que uma ideia seja interessante”, sublinhou. É necessário avaliar “se funciona, em que condições funciona, quais os seus custos, que riscos envolve, que resultados produz e se pode ser aplicada à escala que precisamos”.
Cláudio Jesus destacou ainda que a circularidade e a reutilização da água estiveram também entre os exemplos apresentados como expressão concreta da estratégia de inovação da Águas do Tejo Atlântico. O responsável destacou iniciativas como o Living Lab e a Água Mãe, salientando particularmente o potencial da água para reutilização: “a circularidade não é apenas uma ideia inspiradora, é uma oportunidade concreta para utilizar melhor os recursos, reduzir desperdícios e reforçar a sustentabilidade”.
Apesar do trabalho já desenvolvido, a empresa considera que os resultados alcançados constituem apenas uma etapa do percurso. Entre as prioridades apontadas estão o aumento da eficiência dos processos, o reforço da resiliência das infraestruturas, a redução do consumo de recursos, a valorização das águas residuais e o aprofundamento da economia circular.
A intenção é aproximar cada vez mais a inovação da operação quotidiana e garantir que esta responde a necessidades concretas. “Não olhamos para aquilo que já fizemos como um ponto de chegada. Queremos fazer mais. E queremos fazer melhor”, frisou.
A terminar, o responsável salientou que o futuro do setor não dependerá apenas de novas tecnologias, digitalização ou equipamentos. O desafio passa também “por criar espaços de discussão, partilhar experiências e confrontar diferentes perspetivas”, designadamente através de encontros como o “Caminho da Inovação”.
Túnel de drenagem “é seguro de vida da cidade”
Em representação de Carlos Moedas, a vereadora da Câmara Municipal de Lisboa Joana Baptista fez questão de referir que a sua mensagem “era simples”, destacando que Lisboa “tem uma relação muito especial com a água. Às vezes temos pouca, e precisamos de a poupar. Outras vezes, temos demasiada e precisamos de nos proteger dela”.
Referindo-se ao tema do encontro, a vereadora sublinhou que, de facto, o futuro da água “não é óbvio”, destacando, no entanto, que o Município de Lisboa tem bem presente que a cidade “está a aproximar-se do Rio Tejo”. “Temos 19 quilómetros de frente ribeirinha e existem espaços que podem ser aproveitados e devolvidas às pessoas”, declarou, revelando que a CML e a Administração do Porto de Lisboa “estão a trabalhar no sentido de devolver o Tejo à vida das pessoas”.
Para reforçar a utilização racional dos recursos hídricos na cidade, Joana Baptista clarificou que a autarquia tem bem claro que “não faz sentido não dar uma segunda oportunidade à água”, carecendo de sentido “utilizar água potável para regar jardins, lavar as ruas ou no combate a incêndios”, sustentando que o Município já leva a cabo práticas de reutilização deste recurso na sua atividade diária. Mas acrescentou que “queremos fazer muito mais”, porque “temos ambição e visão estratégica” e uma operação centrada em métricas de poupança.
Para ilustrar as políticas municipais de prevenção de cheias, a vereadora destacou a construção do Túnel de Drenagem, “a maior obra de sempre da Câmara na cidade de Lisboa”, mas também uma intervenção “muito complexa” e cujo términos “está previsto até final deste mandato”. Para Joana Baptista, a conclusão da infraestrutura subterrânea representa “um autêntico seguro de vida para a cidade”. E apesar de ser “uma das obras mais importantes de Lisboa, esperemos que ninguém dê por ela” porque “será sinal” de que estará a cumprir o seu papel protetor da capital.
A autarca sublinhou que túneis “vão estar debaixo dos pés dos lisboetas”, permitindo que, na altura das grandes chuvadas, “a vida na cidade continue normalmente”, pois foram criados “para proteger pessoas, casas, negócios, a cidade”. No fundo, sustentou a vereadora, a relação de Lisboa com a água “resume-se à necessidade aproxima-la quando nos faz falta, reutiliza-la sempre que possível, proteger a cidade e as pessoas sempre que chove em excesso”.
A concluir, Joana Batista salientou ainda que o setor da água precisa de uma “verdadeira visão estratégica”, de decisões a longo prazo, “que ultrapassem os mandatos de 4, 8, 12 anos”, tomando decisões “a 20/30 anos” que façam perdurar a proteção da cidade para além da espuma dos dias.
Em mensagem transmitida na cerimónia, o presidente do conselho de administração da Águas de Portugal, António Carmona Rodrigues, afirmou que uma estratégia de inovação deve permitir passar “das ideias à concretização”, até porque o setor está sujeito “à imprevisibilidade”, pondo em evidência a necessidade de “ajustar e antecipar soluções para os problemas de hoje, mas também para os de amanhã”. Apesar das incertezas que ocorrem nesta área, a AdP “tem estado à altura das exigências e tem tido capacidade para resolver os problemas, incorporando soluções inovadoras”, sublinhou Carmona Rodrigues.
Para o responsável, já não basta “tratar bem a água”, até porque há uma nova diretiva sobre o tratamento de águas residuais urbanas que implica “incorporar novas soluções no sistema de saneamento, que já estão a ser feitas pelo grupo”, como, por exemplo, a reutilização das águas residuais, bem como no aproveitamento do subproduto das águas residuais nos recursos energéticos locais e nacionais.
O responsável destacou ainda a importância de agregar conhecimentos de empresas e equipas em torno de problemas comuns, de forma a transformar o conhecimento existente no grupo em novas soluções. Carmona Rodrigues revelou que, graças a estas sinergias, a AdP vai incorporar 4 novos projetos de inovação no sistema nacional de tratamento da água.
Presidente da República pede utilização responsável da água
Em paralelo, numa mensagem por ocasião do Dia Nacional da Água, publicada no site oficial da Presidência da República, António José Seguro refere que “estão já identificados, através de estudos de especialistas e de relatórios das entidades competentes, alguns desequilíbrios permanentes entre a água disponível e a água consumida em Portugal”.
“O Presidente da República aproveita este dia para lembrar a importância da adoção e manutenção de políticas públicas que cuidem deste bem essencial, garantam o acesso à água potável e evitem as suas perdas, assegurem a sua utilização racional para fins economicamente úteis e atentem à necessidade do seu tratamento e reutilização”, lê-se na nota.
O chefe de Estado afirma que “Portugal tem a felicidade de ter recursos hídricos naturais preciosos, mas também a responsabilidade de cuidar deles adequadamente”.
Em mensagem direta, o Presidente da República pede parcimónia e utilização responsável de um recurso essencial para assegurar o futuro do país. “Todos juntos, cidadãos, empresas e os vários setores económicos, devem estar empenhados numa utilização eficiente, justa e sustentável da água. Neste Dia Nacional da Água, vale a pena recordar que cuidar da água é garantir o futuro de todos”.









